Do orçamento ao envelhecimento: os 10 desafios da saúde no quarto mandato de Lula
Com R$ 272,18 bilhões previstos para 2027, novo governo terá de lidar com a dependência das emendas, reduzir filas do SUS, rever a remuneração dos prestadores e adaptar a rede ao envelhecimento
Luiz Inácio Lula da Silva chegará ao quarto mandato com compromissos pendentes na saúde e novas obrigações para os serviços públicos e privados. O ministro Alexandre Padilha prometeu substituir a Tabela SUS, mas a mudança exigirá recursos em um orçamento apertado: o projeto para 2027 destina R$ 272,18 bilhões a ações e serviços públicos de saúde, apenas R$ 20 milhões acima do piso constitucional estimado. No mesmo período, terá que encabeçar a integração digital dos dados e lidar com o envelhecimento da população, além de agir para enfrentar a fila do SUS, e lidar com um Congresso que controla boa parte do despesa discricionária do ministério.
Essas questões estão entre os dez desafios selecionados pelo Saúde Insider para o período de 2027 a 2030 para Lula 4. A escolha partiu de demandas identificadas ao longo da cobertura jornalística, em reportagens e entrevistas com representantes do setor, lideranças políticas, agentes públicos e analistas, e foi apoiada em indicadores, auditorias e documentos oficiais. Lula foi reeleito em 25 de outubro, com 51,79% dos votos válidos, segundo o TSE.
1. Financiamento
O quarto mandato de Lula começará com uma disputa sobre os recursos destinados ao SUS. O Projeto de Lei Orçamentária de 2027 prevê R$ 272,18 bilhões para ações e serviços públicos de saúde, apenas R$ 20 milhões acima do mínimo constitucional. Em nota técnica, as consultorias de Orçamento da Câmara e do Senado questionam a inclusão de R$ 940 milhões destinados à Anvisa e R$ 710 milhões para sentenças judiciais no cálculo desse piso. Se essas despesas forem excluídas, a proposta ficará abaixo do mínimo exigido. O governo terá de resolver essa diferença enquanto busca formas para ampliar os atendimentos, incorporar tratamentos e sustentar os serviços existentes, dentro das regras fiscais.
2. Emendas parlamentares
O governo Lula também terá de negociar com o Congresso a redução da dependência das emendas parlamentares no financiamento do SUS. Em 2025, esses recursos representaram 43,45% das despesas discricionárias do Ministério da Saúde, segundo auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU). O tribunal alerta que verbas temporárias estão sendo utilizadas para custear despesas permanentes, comprometendo a previsibilidade dos repasses. No projeto de Orçamento de 2027, R$ 22,38 bilhões reservados para emendas da saúde. Pela nota do Senado, serão R$ 14,24 bilhões de emendas individuais e R$ 8,14 bilhões de bancada. Em entrevista recente ao Saúde Insider, o ministro Alexandre Padilha afirmou que o modelo de custeio via emenda parlamentar precisa mudar, já que, como mapeado pelo IEPS, a aplicação desses recuros não refletem, necessariamente, as prioridades de cobertura mapeadas pelo Ministério da Saúde.
3. Filas do SUS
Outra demanda a ser olhada são as filas de pacientes diante da oferta de procedimentos no SUS. Segundo o Ministério da Saúde, foram realizadas mais de 7,5 milhões de cirurgias eletivas no primeiro semestre de 2026, crescimento de 8% em relação ao mesmo período de 2025. Entretanto, uma auditoria do TCU identificou dificuldades na execução do Agora Tem Especialistas. Das quase 10 milhões de ofertas de cuidados integrados, que reúnem consultas e exames, programadas para 2025, apenas 6,9% haviam sido realizadas até novembro daquele ano. O tribunal também encontrou falhas no acompanhamento das filas. Segundo o tribunal, a espera é maior entre os hospitais filantrópicos, como as Santas Casas, que vem relatando forte pressão dos custos.
4. Tabela SUS
Em meio aos desafios orçamentários para 2027 um compromisso de governo, anunciado pelo atual ministro Alexandre Padilha, será um desafio: substituir o modelo de remuneração da Tabela SUS. O governo começou a adotar valores diferenciados no programa Agora Tem Especialistas, com pagamentos que, segundo o Ministério da Saúde, chegam a ser três a quatro vezes maiores que os da tabela tradicional. Na oncologia, por exemplo, os recursos anuais destinados à iodoterapia passaram de R$ 5,2 milhões para R$ 18 milhões, aumento de 246%. A mudança, porém, ainda não alcança toda a rede. O próprio ministério mantém a tabela convencional como referência de pagamento em determinadas modalidades do programa, conforme seu manual de operacionalização. O desafio será definir como financiar e estender o novo modelo aos demais procedimentos e prestadores, sem comprometer a continuidade dos atendimentos.
5. Atenção primária
O quarto mandato de Lula terá de ampliar a cobertura da atenção primária e enfrentar as diferenças regionais no acesso ao SUS. Segundo o Ministério da Saúde, em abril de 2026, as equipes de Saúde da Família e de Atenção Primária cobriam potencialmente 70,39% da população brasileira, cerca de 150,2 milhões de pessoas. As diferenças entre os estados são expressivas: a cobertura estimada chegava a 93,36% no Piauí, mas ficava em 52,93% em São Paulo. O indicador considera a capacidade de cobertura das equipes cofinanciadas pelo governo federal, não o atendimento efetivamente recebido. O tema foi debatido pelo Dr. Drauzio Varella, em entrevista ao Saúde Insider, como prioritário para um desafogamento do SUS no médio e longo prazo.
6. Envelhecimento
O envelhecimento da população e o avanço das doenças crônicas exigirão mudanças na organização do SUS durante o quarto mandato de Lula, e quem disse isso foi o próprio ministro da Saúde. Segundo o Censo Demográfico de 2022, o Brasil tinha 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, contingente 56% superior ao registrado em 2010. O Vigitel 2006–2024, do Ministério da Saúde, também identificou aumento da obesidade entre adultos das capitais e do Distrito Federal, de 11,8% para 25,7%. O governo terá de adaptar a rede para oferecer acompanhamento contínuo, reabilitação e cuidados de longa duração, reduzindo a dependência das internações hospitalares e ampliando o controle de doenças como diabetes e hipertensão.
7. Medicamentos de alto custo
A incorporação de novos medicamentos ao SUS será uma das decisões de maior impacto orçamentário do próximo governo. O Ministério da Saúde informa que destina mais de R$ 30 bilhões anuais à compra de medicamentos, vacinas e insumos, além de cerca de R$ 3 bilhões a terapias de alto custo relacionadas a demandas judiciais. Uma das decisões pendentes envolve os medicamentos GLP-1 para obesidade, submetidos à avaliação da Conitec em setembro de 2026. Para uma eventual incorporação, o ministro Alexandre Padilha estimou gastos de R$ 1,5 bilhão por ano, condicionados à redução dos preços.
8. Trabalho na saúde
Outra conta extra virá na folha de pagamento. O piso da enfermagem, de R$ 4.750 para enfermeiros, ainda tem critérios de aplicação e custeio em julgamento no STF. No Congresso, o PL 1.365/2022 propõe elevar de R$ 3.636 para R$ 13.662 o piso de médicos e dentistas, com implantação gradual. A Emenda Constitucional 141/2026, que acaba com a escala 6×1, reduz progressivamente a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais. Segundo levantamento do Ipea, 1,17 milhão de vínculos na assistência à saúde superavam 40 horas semanais em 2023. Como apurou o Saúde Insider, representantes do setor já negociam regras específicas para plantões hospitalares. Há ainda a aposentadoria especial para agentes da Saúde, que agora se aposentam com 57 anos (mulheres) e 60 anos (homens) com custo adicional aos cofres públicos na ordem dos R$ 3 bilhões.
9. Saúde mental
A ampliação do atendimento em saúde mental será outro desafio do quarto mandato. Segundo o Vigitel 2006–2024, a proporção de adultos que relataram diagnóstico médico de depressão nas capitais e no Distrito Federal passou de 10,9%, em 2020, para 14,5%, em 2024. Em outubro de 2026, o Ministério da Saúde informou ao Conselho Nacional de Saúde que o país contava com 3.158 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). A situação também se complica no atendimento de cidadãos com transtornos como TEA, TDAH, bipolaridade, entre outros. Com o desenvolvimento de novas soluções medicamentosas e terapêuticas, a pressão nos custos do SUS também avançam. O Congresso, inclusive, já trata o tema para implementação, mas ainda sem estimar custos.
10. Saúde digital
No que diz respeito à tecnologia, o maior desafio será a integração efetiva dos sistemas de informação utilizados por estados e municípios para administrar o atendimento no SUS. Uma auditoria do TCU identificou que a RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde) registrou informações equivalentes a apenas 6,8% das cirurgias eletivas realizadas em 2024. O tribunal também constatou que 51,8% dos municípios não utilizavam sistemas de regulação do Ministério da Saúde, recorrendo a soluções próprias ou de outros fornecedores. Em entrevista ao Saúde Insider, Ana Estela Haddad, secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, afirmou ser essencial ter acesso a todas as informação do sistema de saúde brasileiro, seja ele público ou privado.
Questões essenciais
Quanto o governo Lula prevê para a saúde em 2027?
O Projeto de Lei Orçamentária de 2027 prevê R$ 272,18 bilhões para ações e serviços públicos de saúde, R$ 20 milhões acima do piso constitucional estimado. Consultorias de Orçamento da Câmara e do Senado questionam a inclusão de R$ 1,65 bilhão em despesas no cálculo do mínimo obrigatório.
Qual é a participação das emendas parlamentares no orçamento da saúde?
Segundo auditoria do Tribunal de Contas da União, as emendas parlamentares representaram 43,45% das despesas discricionárias do Ministério da Saúde em 2025. Para 2027, o projeto de Orçamento inclui R$ 22,38 bilhões em reservas para emendas individuais e de bancada classificadas no piso constitucional da saúde.
Como o fim da escala 6×1 afeta os serviços de saúde?
A Emenda Constitucional 141/2026 reduz progressivamente a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial. Hospitais, clínicas e outros serviços precisarão adaptar escalas e plantões, observadas as possibilidades de negociação coletiva e de regimes diferenciados previstas na legislação.
