Brasil tem custo de pesquisa clínica até 69% menor que nos EUA e atrai investimentos de multinacionais
Estudo da IQVIA aponta vantagem em pesquisas neurológicas, infecciosas e oncológicas; dados da Anvisa mostram que 93% dos ensaios submetidos em 2025 tiveram cooperação estrangeira
O custo de uma pesquisa clínica sobre uma doença infecciosa no Brasil é estimado em 69,3% menos que nos Estados Unidos, segundo levantamento da IQVIA. O país também tem os menores custos em outras quatro comparações internacionais, envolvendo doenças neurológicas e oncológicas. Elaborado para a Interfarma, o estudo estima em R$ 1,5 bilhão os investimentos anualizados de oito farmacêuticas multinacionais. A presença estrangeira também aparece nos dados da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) através do Copec (Coordenação de Pesquisa Clínica): entre os 352 ensaios clínicos submetidos à agência em 2025, 329 (93%) tinham cooperação estrangeira.
Na comparação internacional, a IQVIA atribuiu índice 100 ao país com maior custo em cada estudo e calculou os valores relativos dos demais mercados. Para uma doença infecciosa, o índice brasileiro foi de 30,7, ante 100 dos Estados Unidos, uma diferença de 69,3%. Em uma doença neurológica, o Brasil registrou 34,4, contra 100 dos Estados Unidos. Nos três estudos oncológicos comparados, os índices brasileiros foram de 31,4, 66,7 e 32,4, sempre os menores entre os países selecionados. A consultoria não identificou as doenças específicas nem divulgou os custos absolutos dessas comparações.
O levantamento da IQVIA reúne aportes divulgados por oito multinacionais. Entre os valores referentes a 2025, a Roche informou R$ 590 milhões, seguida pela AstraZeneca, com R$ 315 milhões, Sanofi, com R$ 153 milhões, Novartis, com R$ 145 milhões, e Biogen, com R$ 138 milhões. Juntas, essas cinco empresas somam R$ 1,341 bilhão. A tabela também considera investimentos da Pfizer e da GSK referentes a 2024 e um plano da AbbVie de R$ 430 milhões entre 2026 e 2030. Por reunir períodos distintos, o total anualizado de R$ 1,539 bilhão não corresponde ao desembolso efetivo das oito empresas em um único ano.
A forte participação estrangeira aparece na série histórica da Anvisa. Entre 2021 e 2025, 1.496 das 1.608 petições de ensaios clínicos protocolizadas tinham cooperação estrangeira, o equivalente a 93% do total. A participação permaneceu praticamente estável no período recente: em 2024, foram 294 petições com cooperação estrangeira, contra 21 com patrocínio nacional. Em 2025, os números passaram para 329 e 23, respectivamente. A Anvisa esclarece que não exige informações sobre a origem dos recursos financeiros para autorizar as pesquisas. Assim, a proporção de estudos com cooperação estrangeira não corresponde necessariamente à participação do capital externo no financiamento total.
Os dados da Copec também mostram a predominância das pesquisas em fases mais avançadas de desenvolvimento. Dos 352 ensaios protocolizados em 2025, 226 eram de fase 3, que geralmente busca confirmar a eficácia e a segurança de um medicamento em populações maiores. Apenas 16 eram exclusivamente de fase 1, etapa que envolve os primeiros testes em seres humanos e a avaliação inicial de segurança, tolerabilidade e comportamento do medicamento no organismo. Na série de 2021 a 2025, os estudos de fase 3 também foram maioria.. Nesse intervalo, foram protocolizados 993 ensaios de fase 3, equivalentes a 62% do total classificado por etapa de desenvolvimento. Os estudos exclusivamente de fase 1 somaram 70, ou 4%.
Em abril de 2026, o Ministério da Saúde anunciou R$ 120 milhões para o Programa Nacional de Pesquisa Clínica (PPClin), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A iniciativa prevê investimentos em infraestrutura, qualificação de profissionais e expansão dos ensaios de fase 1, com recursos administrados pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos). No anúncio, o governo informou que a seleção e a contratação das propostas ocorreriam no segundo semestre de 2026, com execução prevista até 2028.
O novo marco legal da pesquisa clínica, estabelecido pela Lei nº 14.874/2024, também alterou os procedimentos de autorização dos ensaios. Em 2025, a Anvisa finalizou 405 petições, ante 262 no ano anterior. Segundo a Copec, o aumento da capacidade de processamento ainda não permite concluir que a legislação tenha provocado crescimento na quantidade de pesquisas submetidas ao país, já que a regulamentação do marco ocorreu em outubro de 2025. Já o número de petições protocolizadas na Anvisa passou de 315 em 2024 para 352 em 2025, crescimento de 11,7%. A própria agência informa que ainda não é possível atribuir essa variação ao novo marco legal.
A distribuição territorial é outro ponto identificado pela Anvisa. Entre os 482 centros indicados pelos patrocinadores nas petições finalizadas em 2025, 239 estavam no Sudeste e 118 no Sul. As duas regiões também concentravam 82% dos 1.264 investigadores relacionados. Em outubro, o Ministério da Saúde aprovou a metodologia para mapear os centros de pesquisa clínica, com previsão de coleta de informações até o fim de 2026. O levantamento servirá de base para o Cadastro Nacional de Centros de Pesquisa Clínica, que reunirá dados sobre infraestrutura, especialidades e capacidade técnica das instituições.
Questões essenciais
Quanto custa uma pesquisa clínica no Brasil em comparação com os Estados Unidos?
Segundo estudo da IQVIA, o custo relativo de uma pesquisa clínica sobre uma doença infecciosa no Brasil é 69,3% menor que nos Estados Unidos. A comparação utiliza índices de custo, sem divulgar os valores absolutos dos estudos específicos.
Quantos ensaios clínicos no Brasil têm cooperação estrangeira?
Em 2025, 329 das 352 petições de ensaios clínicos submetidas à Anvisa tinham cooperação estrangeira, o equivalente a 93% do total. Entre 2021 e 2025, essa proporção também foi de aproximadamente 93%.
Quanto as multinacionais investem em pesquisa clínica no Brasil?
Levantamento da IQVIA para a Interfarma estima R$ 1,539 bilhão em investimentos anualizados de oito farmacêuticas multinacionais. O cálculo reúne valores de 2024, 2025 e um plano de investimentos de 2026 a 2030, não correspondendo ao desembolso efetivo em um único ano.
