Desigualdade racial nas mortes preveníveis aumenta em 11 anos e desafia políticas de saúde pública
Estudo do IEPS mostra desigualdade nas mortes por lesões e acidentes e coloca em discussão as políticas de prevenção e saúde da população negra
Jovens negros de 15 a 19 anos registraram uma taxa de mortalidade por causas preveníveis quase duas vezes maior que a de brancos da mesma idade no Brasil, em 2023. Na faixa de 20 a 24 anos, lesões e acidentes apresentaram a maior diferença absoluta de mortalidade entre os dois grupos raciais. Os dados fazem parte de um levantamento do IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) e do Instituto Çarê, que analisou registros de óbitos entre 2012 e 2023.
A desigualdade aparece em um grupo de mortes que, segundo a classificação da Organização para a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), poderiam ser reduzidas por intervenções de saúde pública. Entre elas estão ações de prevenção de doenças, acidentes e violências. No caso dos jovens, o resultado exige olhar para medidas que não dependem exclusivamente do atendimento hospitalar, como segurança no trânsito, prevenção de agressões e articulação entre saúde, educação e segurança pública.
O problema se estende à população com menos de 75 anos. Entre 2012 e 2023, a diferença nas taxas de mortalidade por causas preveníveis entre negros e brancos passou de 18,5% para 29%. Nas mortes por lesões e acidentes, aumentou de 44% para 54,9%. Embora as taxas tenham apresentado tendência de queda nos dois grupos ao longo do período, a redução foi mais acentuada entre brancos, ampliando a distância entre as populações.
O Brasil dispõe, desde 2001, da Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências. A norma prevê ações de prevenção, monitoramento de ocorrências, atendimento pré-hospitalar e reabilitação de vítimas. O Ministério da Saúde também mantém sistemas de vigilância para acompanhar acidentes e violências. O levantamento do IEPS oferece um recorte racial e etário para essa agenda, mas não analisa a execução das medidas nem seus resultados nos estados e municípios.
A desigualdade racial também é objeto de uma política específica do SUS. Instituída em 2009, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra prevê ações para reduzir diferenças no adoecimento, na mortalidade e no acesso aos serviços. Em 2024, o governo federal criou um comitê técnico interministerial com atribuições de monitorar sua implementação, apoiar iniciativas estaduais e municipais e propor medidas de equidade racial. A análise dos óbitos por idade e raça/cor é uma das informações que podem orientar esse trabalho. Em agosto de 2026, o Ministério da Saúde anunciou a designação dos integrantes do comitê, formado por representantes do governo, de conselhos de saúde e da sociedade civil.
O estudo ainda aponta diferenças no acesso a procedimentos de diagnóstico e tratamento. Em 2023, as taxas de realização de mamografias e quimioterapia registradas no SUS foram menores entre pessoas negras. Já nas mortes por causas tratáveis, a diferença de mortalidade entre negros e brancos passou de 0,5%, em 2018, para 9,4%, em 2023. Os pesquisadores apontam possíveis barreiras de acesso, mas ressaltam que os dados de procedimentos não permitem avaliar a demanda por esses serviços em cada população.
