Com um coração na estante e partituras na mesa, cardiologista solta a voz no palco
Nathan Valle Soubihe Junior, médico do HCor e do Oswaldo Cruz,seguiu os passos profissionais do pai, mas acompanhou a paixão da mãe, professora de música. O resultado está na formação da banda Dr. Nathan e os Impacientes
Quase toda banda tem como primeiro desafio achar seu próprio nome. Quando o médico cardiologista Nathan Valle Soubihe Junior juntou sua turma, não foi diferente. Só sabiam que deveria começar com o band leader, ‘doutor Nathan’. Empacaram na segunda parte, até que alguém comentou que estavam todos muito impacientes para resolver o problema. Resolvido: o grupo Dr. Nathan e os Impacientes celebrou, no final de setembro, dois anos de seu primeiro show. Guitarras (duas), baixo, teclado, bateria. Cinco músicos profissionais, há tempos na estrada em grupos de rock, e um vocalista com, na época, 30 anos de experiência – na Medicina. Que conseguiu reunir o foco profissional, sob inspiração do pai cardiologista, à paixão pela música da mãe professora de canto orfeônico. Átrios, ventrículos, tons e semitons se harmonizaram nas cordas do violão que Nathan começou a dedilhar desde os 10 anos.
“Minha casa sempre foi repleta de livros de Medicina e partituras”, disse Nathan, que começou tocando a partir dos caderninhos de cifras. Basicamente, canções da Bossa Nova e da chamada MPB. Quando foi fazer intercâmbio nos Estados Unidos, em 1984, mergulhou no jazz e teve os primeiros contatos com a guitarra elétrica. Voltou no ano seguinte, “o boom do rock Brasil”, período em que os medalhões cederam espaço aos jovens de grupos como Barão Vermelho, Capital Inicial, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Plebe Rude, Titãs. “O som que embalou minha juventude”, afirma Nathan. Ele teve ainda um amigo que o ajudou a entrar de vez nesse universo pop. Conhecia Kiko Zambianchi, cujo pai, Geraldo, também era médico (urologista) – e amigo de Nathan pai. São de Ribeirão Preto, no interior paulista.
A música já fazia parte da vida de Nathan, que estava na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) – graduou-se em 1994. “Gravei demo, mandei para a Som Livre. Ao mesmo tempo, não tirei o foco”, afirmou. Por mais que o sonho artístico fosse tentador, estava claro para ele que o caminho profissional estava na Medicina. Seu pai, que havia morrido em 1998, guardava um coração na estante da sala (o que às vezes assustava o menino). Ele era professor na USP em Ribeirão Preto, e ainda nos anos 1950 desenvolveu uma agulha de biópsia de coração. Esse, inclusive, foi o tema do próprio Nathan Junior em sua dissertação de mestrado, em 2016. Dois anos antes, ele perdera a mãe (Midelcia). Decidiu que era o momento de ganhar a vida em São Paulo. Logo foi admitido no HCor, onde mantém consultório. Atende também no Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Chegou a ser socorrista em plataformas de petróleo. “Trabalhei seis anos e meio em alto-mar [de 2000 a 2006].”
A banda. Foi como cardiologista que fez “seu primeiro amigo em São Paulo”, ao atender no pronto-socorro a mulher do músico e produtor Fábio Veroneze, professor do Conservatório Musical Souza Lima. “Amor à primeira vista”, disse Nathan, referindo-se ao parceiro e futuro integrante de sua banda, que também o ajudou nos contatos musicais na capital. “Essas coisas vão te dando vontade de acreditar que o som que você faz é legal.” Depois de um tempo tocando aqui e ali, Kiko Zambianchi o aconselhou a formar um grupo fixo, e também o ajudou nas indicações. Assim, além de Fábio (guitarra), entraram Marcos Kleine, outro guitarrista, de grupos como Makx Jam e o conhecido Ultraje a Rigor, o baterista Eduardo Scalier (que tocava com o próprio Kiko e agora está no Camisa de Vênus) – que apresentou o baixista Caio Pamplona (outro professor no Souza Lima) – e o tecladista André Matanó. Outro músico do Camisa de Vênus, o baixista Robério Santana, é seu paciente.
No palco, Nathan assume os vocais e toca violão. Suas apresentações misturam covers do chamado BRock surgido nos anos 1980, a trilha sonora do jovem estudante e futuro médico, e canções autorais. Tem quatro músicas próprias no Spotfy: Sigo Sonhando, Soldados e Flores, A Grande Sacada da Vida e O Olhar não Mente. E sua rádio no plataforma inclui gente mais conhecida, como Zé Geraldo, Magazine, Nando Reis, Ultraje e Engenheiros do Hawaii, até gente como Acústicos & Valvulados, banda gaúcha dos anos 1990, e a Orquestra Mineira de Rock. A lista de referências inclui, lá fora, U2, Pink Floyd e Yes. O médico-compositor mostra para poucos um poema que escreveu para Renato Russo, o intérprete do Legião Urbana, que morreu há 30 anos. Mas pretende musicar O Poeta Morto algum dia. Faz aulas de canto e recebe as dicas dos amigos músicos.
E há muita gente na sua área profissional com a mesma paixão. Tanto que ele criou um grupo no WhatsApp chamado Medicina e Música. Até agora, com 140 integrantes. “Tem uma anestesista no Einstein [Hospital Israelita] que é espetacular”, disse Nathan, sobre uma colega cantora. Ele também faz questão de lembrar do ex-chefe de sua equipe, Enio Buffolo, que morreu no ano passado. “Foi um dos responsáveis pelas primeiras técnicas de stent na aorta.” Buffolo também presidiu as sociedades brasileira e paulista de Cirurgia Cardiovascular. Além disso, o professor de Cirurgia Cardiovascular na EPM (Escola Paulista de Medicina, vinculada à Unifesp) tocava piano muito bem. No futebol, define-se como “palmeirense roxo”, daqueles que põem à prova o próprio coração.
Dr. Nathan, 58 anos (completará 59 em dezembro), vai lembrando das histórias enquanto aguarda sua banda para fazer a passagem de som. À noite, ele iria tocar no Blue Note, originalmente um tradicional reduto do jazz, aberto em Nova York em 1981. A filial paulistana, que surgiu em 2019, é casa aberta a variados estilos. “Nunca imaginei que ia tocar aqui”, afirmou. A estreia do grupo, em 28 de setembro de 2024, foi em outro palco tradicional, o do Bar Brahma. No Blue Note, o vocalista planejava uma surpresa para o público, abrindo a apresentação com Fly me to the Moon, sucesso com Frank Sinatra nos anos 1960. Mas não era show de rock? Em seguida, o aviso: “Preparem as guitarras”. E a banda atacaria outras 15 canções, 11 covers e quatro autorais, movimentando os corações. Tocar e ouvir música, disse o médico, que às vezes se apresenta de jaleco, estimula a atividade cerebral nos dois hemisférios e beneficia o sistema cardiovascular. Sem contraindicação.
