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Cúpula

Lado B da Cúpula: Carlos Buran, CEO da Temp Log Transportadora

Entre uma bateria e 100 discos de vinil, ele comanda a logística de medicamentos

Quando a Temp Log Transportadora nasceu, Carlos Buran, hoje com 41 anos, tinha apenas seis. Filho do meio do Sr. Orestes, ele viu o pai deixar um emprego formal em uma transportadora e criar a sua própria, na garagem de casa. Estrutura? Pouca. O pai ia para a rua prospectar clientes e entregar mercadorias. A mãe, Maria do Socorro, cuidava da parte administrativa. Quando o turno acabava, aprendia, também em casa, a curtir música. Os Beatles, em especial. 

Enquanto crescia, Carlos acompanhava a expansão da empresa e sua especialização no setor da saúde. Em casa, os irmãos aprendiam a tocar violão e guitarra. Ele resolveu estudar bateria e marketing – não simultaneamente. Fez ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e bateria. Trabalhou na Claro e no Grupo Pão de Açúcar até que chegou em casa e disse aquilo que a maioria dos pais empreendedores gostaria de ouvir: “Hum. Pensei em trabalhar no negócio da família”.

Na Temp Log, Carlos começou pelo marketing, para surpresa de ninguém. Mas o interesse pelo financeiro, pelas vendas e pela cultura organizacional evoluiu rapidamente e ele assumiu o comando da empresa no lugar do pai, que já planejava desacelerar. Assim, Cadu, como é chamado, construiu uma operação baseada em cargas fracionadas, controle de temperatura e relacionamento de longo prazo para a indústria de saúde com foco em medicamentos estéticos.

Na conversa com a Cúpula, Carlos fala sobre a transição do mundo corporativo para a empresa fundada pelos pais, o avanço das canetas emagrecedoras e as lições que leva da bateria e do jiu-jítsu, seu segundo hobby, para a gestão. E ainda fez uma playlist especial para o Saúde Insider.

Saúde Insider – A Temp Log tem um nicho de mercado bastante específico. Como é o modelo de operação?
Carlos Buran – Somos uma empresa familiar, hoje na segunda geração. Prestamos serviços de armazenagem, fracionamento e transporte de produtos de saúde, com especialização em cargas pequenas e fracionadas. É uma operação parecida com a do comércio eletrônico: a mercadoria chega ao consumidor, a uma clínica ou a um médico. A diferença é que, por exigência sanitária, esses produtos não podem ser transportados com qualquer outro tipo de carga. Toda a operação precisa seguir as regras da Anvisa.

Saúde Insider – Quando surgiu a decisão de se especializar em saúde?
Carlos Buran –
Meu pai percebeu que perdia muito tempo nas docas de supermercados. Às vezes, ficava meio período esperando para descarregar, quando poderia fazer várias entregas menores. Começou, então, a se afastar do varejo. Nessa época, alguns clientes já o haviam aproximado do segmento de saúde. Ao longo do tempo, acabamos nos concentrando no segmento de estética, que demanda transporte refrigerado e controle ativo ou passivo de temperatura. Trabalhamos com toxina botulínica, preenchedores faciais e, mais recentemente, com as canetas emagrecedoras. São produtos compatíveis. 

Saúde Insider – A atuação é nacional?
Carlos Buran – Hoje, operamos com frota própria em São Paulo, formada por caminhões menores refrigerados, vans e motocicletas, e com parceiros fora do estado. A rede é validada de acordo com os nossos procedimentos e com as especificações da Anvisa.

Saúde Insider – Como é a operação?
Carlos Buran –
Atuamos de duas formas. Para alguns clientes, armazenamos o estoque – refrigerado ou não –, fazemos o fracionamento e realizamos as entregas a partir das ordens de separação. Para outros, trabalhamos em cross-docking: coletamos a mercadoria, ela passa pelo nosso centro para organização do fluxo e segue para o destino, sem ficar armazenada.

Saúde Insider – E o perfil dos clientes?
Carlos Buran – Temos entre 45 e 50 clientes ativos, embora esse número varie porque parte deles demanda serviços pontuais. Atendemos indústrias, distribuidores e, cada vez mais, farmácias e laboratórios de manipulação. Esse último grupo cresceu com as canetas emagrecedoras. O laboratório fecha a venda e nós fazemos a entrega ao paciente, em qualquer parte do Brasil, dentro das especificações de qualidade.

Saúde Insider – Qual foi o impacto do fenômeno das canetas emagrecedoras para o negócio?
Carlos Buran – Foi maior do que eu esperava. Hoje, as empresas ligadas a esse mercado representam entre 30% a 35% do nosso volume de entregas. É uma demanda com tendência de crescimento, embora ainda oscile bastante por causa das disputas regulatórias e comerciais entre a indústria e o segmento magistral. 

Saúde Insider – Qual o tamanho da empresa?
Carlos Buran – Atualmente, realizamos algo entre 5 mil e 6 mil entregas por mês. Estimamos deter entre 25% e 30% do mercado nacional de logística para produtos estéticos. Como somos uma empresa familiar, não divulgamos resultados financeiros.

Saúde Insider – Você passou por empresas como Claro e Grupo Pão de Açúcar antes de assumir o negócio da família. O que mudou com a sua chegada?
Carlos Buran – A primeira mudança foi investir em relacionamento. Na época, entre 80% e 90% do faturamento estava concentrado em um único cliente. Precisávamos cuidar muito bem daquela relação e, ao mesmo tempo, reduzir a dependência no longo prazo. O relacionamento antes era muito baseado nas visitas pessoais do meu pai. Começamos a estruturá-lo, a definir objetivos e a pensar para onde a empresa deveria caminhar. Mais tarde, criamos um departamento de marketing. Hoje, considero a reputação de confiança um dos pontos fortes da empresa.

Saúde Insider – Como esse relacionamento se traduz em resultado para o negócio?
Carlos Buran – Realizamos encontros anuais, procuramos entender o que eles querem discutir e mostramos que não somos apenas fornecedores, mas parceiros do negócio. Pode haver transportadoras mais baratas. A diferença aparece quando surge um imprevisto. Se o problema é nosso, assumimos a responsabilidade, arcamos com o custo e buscamos uma solução. Também apoiamos o planejamento logístico dos clientes e enviamos, por iniciativa própria, relatórios com os indicadores da operação. 

Saúde Insider – Como isso se reverte para o negócio? 
Carlos Buran – Fidelização. A permanência média dos clientes é de cinco a seis anos. Em alguns casos, eles só saem porque crescem a ponto de precisar de uma operação de outra escala. Costumamos dizer que os conduzimos durante esse crescimento.

Saúde Insider – A música sempre esteve presente na sua vida?
Carlos Buran – Meu pai sempre gostou muito de música e ouvia Beatles, embora dissesse não ter habilidade para tocar. Meu irmão mais velho começou na guitarra; eu escolhi a bateria; e o mais novo também foi para a guitarra e o violão. A música entrou em casa por influência do meu pai. Depois, meu irmão mais velho nos aproximou do rock. Chegamos a formar uma banda, compor e gravar algumas músicas autorais. Tocávamos em churrascos de faculdade e em pequenos shows, mas a vida foi mudando. A música ficou adormecida por alguns anos.

Saúde Insider – E como ela voltou?
Carlos Buran – Em casa tenho uma coleção de mais de 100 discos de vinil. Aqui na empresa, quando concluímos uma área de descompressão em 2004, decidi montar uma sala com isolamento e tratamento acústico. Comprei uma bateria nova – a anterior era a mesma que meus pais haviam me dado quando tinha 12 anos – e voltei a tocar com frequência. Tenho algumas bandas, ensaio ocasionalmente com meus irmãos e busco cursos para aprimorar a técnica. Às vezes, chego cedo e toco um pouco antes do início do expediente. Começo a trabalhar mais leve.

Saúde Insider – Quais ritmos prefere?
Carlos Buran –
Rock, evidentemente, mas não apenas. Gosto muito de R&B (Rhythm and Blues), um gênero bastante técnico. Também gostaria de tocar jazz e bossa nova, mas aí o buraco é mais embaixo.

Saúde Insider – Como a música entra no trabalho?
Carlos Buran Na capacidade de ouvir. É preciso silenciar para ouvir a música, as pessoas. Além disso, a bateria desenvolve, essencialmente, habilidades multitarefas.

Saúde Insider – Além da música, você pratica jiu-jítsu. O que a luta levou para a sua forma de liderar?
Carlos Buran – O jiu-jítsu me ensinou a pensar com clareza diante do conflito. Sempre tive um perfil mais diplomático e evitava confrontos. No tatame, não existe essa possibilidade: você precisa encarar a situação. Isso me deu mais combatividade e confiança para enfrentar disputas quando elas são necessárias. Ao mesmo tempo, a luta traz disciplina, respeito por quem veio antes e consciência de que outras pessoas pavimentaram o caminho. Há rituais, hierarquia e cuidado com o espaço. 

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