“Temos um sistema que premia a ineficiência em escala”, diz presidente da Unidas
Mario Jorge Vital e outros executivos defendem formatos que recompensem eficiência e compartilhem riscos entre os agentes da saúde suplementar
A melhora da confiança entre operadoras e hospitais passa por mudanças nos incentivos econômicos do sistema de saúde suplementar, premiando o investimento em eficiência, disse o presidente da Unidas, Mario Jorge Vital. Na visão do executivo, o setor precisa se reinventar de forma estrutural, e não revisar apenas normas e procedimentos, para obter sustentabilidade financeira de todos os elos. “Nós temos um sistema que premia a ineficiência em escala”, afirmou Vital, durante debate no Conahp 2026 (Congresso Nacional de Hospitais Privados), realizado recentemente em São Paulo.
Ele apontou que, predominantemente, os hospitais são remunerados por procedimentos e ações que buscam eficiência, embora beneficiem o sistema como um todo, não necessariamente geram resultados financeiros no curto prazo. Isso inclui investimentos em prevenção e promoção da saúde. É justamente essa dinâmica que fomenta a desconfiança na relação com as operadoras. Entre os principais indicadores que ilustram esse conflito estão o índice de glosa (recusas totais ou parciais, por parte das operadoras de planos de saúde, do pagamento de procedimentos faturados por hospitais, clínicas e outros prestadores) e o prazo médio elevado de recebimento.
De acordo com dados da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), o percentual de glosa inicial ainda em fase de negociação foi de 6,99% até o final de 2025. Levantamento da Anahp (Associação Nacional de Hospitais Privados) indica que, em 2025, a média de glosa inicial gerencial foi de 15,93% entre os hospitais associados. A entidade estima que, em 2024, o volume de valores retidos chegou a R$ 5,8 bilhões para os 85 hospitais associados. Vital afirmou que o grande prejudicado nessa disputa é o beneficiário dos planos de saúde. “É ele quem paga a conta, não as operadoras.”
Um estudo da Anahp, referente ao segundo trimestre de 2026, apontou que o reajuste médio de contratos de planos de saúde empresariais foi de 13,47%. O percentual representou uma redução ante 14,48% em 2025 e 17,91% em 2024, mas permaneceu acima dos níveis observados na maior parte da série histórica anterior à pandemia de Covid-19.
Participando do mesmo painel, o CEO da Rede Mater Dei de Saúde, José Henrique Salvador, afirmou que cabe aos prestadores de serviços de saúde serem os promotores de modelos que criem confiança na relação com as operadoras e que alinhem incentivos mutuamente benéficos para o setor. “Temos que entender que não são as operadoras que vão resolver todos os nossos problemas”, disse o executivo, acrescentando que hospitais e médicos precisam estar juntos na construção de uma gestão clínica que promova a confiança e instituições mais sustentáveis.
Ele citou um exemplo da Rede Mater Dei, em que um dos hospitais assumiu maior risco assistencial na gestão de uma carteira, em contrapartida de uma remuneração maior por parte da operadora. “Isso deu à operadora uma capacidade de crescimento e uma visão de longo prazo”, disse Salvador, sem citar a empresa.
Questões essenciais
1. Por que o presidente da Unidas afirma que a saúde suplementar premia a ineficiência?
Mario Jorge Vital afirma que o modelo de remuneração predominante dos hospitais privilegia procedimentos, enquanto investimentos em prevenção, promoção da saúde e eficiência nem sempre produzem retorno financeiro no curto prazo. Para ele, os incentivos econômicos precisam ser modificados para garantir maior sustentabilidade ao setor.
2. O que são glosas hospitalares nos planos de saúde?
Glosas são recusas totais ou parciais, por parte das operadoras de planos de saúde, do pagamento de procedimentos faturados por hospitais, clínicas e outros prestadores. Segundo os dados apresentados na reportagem, o indicador de glosa inicial ainda em negociação da ANS foi de 6,99% em 2025.
3. Como o compartilhamento de riscos pode melhorar a relação entre hospitais e operadoras?
O compartilhamento de riscos permite que hospitais assumam maior responsabilidade pela gestão assistencial de uma carteira de beneficiários em troca de condições diferenciadas de remuneração. Segundo o CEO da Rede Mater Dei, José Henrique Salvador, uma experiência desse tipo proporcionou à operadora parceira maior capacidade de crescimento e planejamento de longo prazo.
