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Política

Atraso de pagamento e descontinuidade política dificultam parcerias de hospitais com o SUS, afirmam especialistas

Com contratos de municípios e estados em dia, a Rede Santa Catarina teria 30% a mais no caixa, diz executivo

Crédito de Foto: Magnific
Crédito de Foto: Magnific Ilustração de Saúde Insider

Pagamentos pendentes de contratos com municípios e estados dariam cerca de 30% a mais no caixa da Rede Santa Catarina, afirmou Denilson de Santa Clara, diretor-executivo corporativo da companhia. “Estamos virando especialistas em judicializar esse tipo de situação para receber aquilo que é nosso”, disse. Em 2025, a Rede Santa Cataria registrou R$ 2,58 bilhões em receita operacional de saúde. Se a projeção do executivo de 30% a mais de entradas fosse consumada, o faturamento seria de R$ 3,35 bilhões.

Durante o Conahp 2026 (Congresso Nacional de Hospitais Privados), realizado em outubro, em São Paulo, Santa Clara afirmou que hospitais filantrópicos vêm sendo sucateados e que alguns mantêm leitos ociosos em estruturas de alta complexidade que poderiam servir ao SUS (Sistema Único de Saúde) se a tabela de remuneração fosse atualizada.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, prometeu em evento no Rio de Janeiro, também em outubro, substituir a Tabela SUS pelo modelo de pagamento do programa Agora Tem Especialistas. Segundo Padilha, o novo modelo permite remunerar consultas, exames e cirurgias com valores três ou quatro vezes maiores que os da tabela tradicional. “Nós vamos enterrar de vez a chamada tabela SUS”, afirmou Padilha na ocasião. 

Na avaliação do secretário-executivo do Ministério da Saúde, Adriano Massuda, o principal obstáculo da relação entre entes públicos e privados a descontinuidade das políticas públicas. Temos uma altíssima rotatividade de ministros da saúde, secretários estaduais, secretários municipais”, afirmou, ao apontar que o Brasil teve pelo menos 30 ministros em 36 anos. Segundo dados da Pesquisa Nacional de Gestores do SUS, realizada pela UniverSaúde, 65% dos secretários municipais de Saúde estão há menos de 12 meses no cargo.

Dos cerca de 10% do PIB (Produto Interno Bruto) gastos em saúde, 45% são gastos públicos e 55% privados, concentrados no atendimento de 25% da população que possui plano de saúde, afirmou o secretário-executivo. Segundo dados do IBGE (Institui Brasileiro de Geografia e Estatística), os gastos no setor de saúde representavam 9,7% do PIB em 2021. Reconhecer a desigualdade, disse Massuda, não impede avançar em atenção primária, câncer e alta complexidade.

Para ele, a pasta precisa ter papel mais ativo. “O Ministério da Saúde não pode ser só editor de norma e repassador de recurso”, disse, observando que a regionalização do SUS só funciona quando União, estados e municípios atuam juntos, com o governo federal mediando conflitos. O Agora Tem Especialistas, exemplo dado por Massuda, prevê créditos tributários a hospitais privados e filantrópicos que ofertarem serviços especializados ao SUS e parcelamento em 145 parcelas para o setor filantrópico, segundo apresentação do Ministério da Saúde de 2025.

Massuda afirmou que o país mede produção, como consultas, exames e cirurgias, mas ainda não mede desfecho, o que exige mais capacidade de governança e estabilidade política. Segundo ele, o Brasil ainda não financia valor, mas avança em modelos que pagam a oferta de cuidado. “O setor privado deve estar conectado ao desenvolvimento de soluções de interoperabilidade”, disse. “Mas que a regulação precisa ser pública, por causa da disputa com big techs.”

Para exemplificar a dificuldade de parceria entre diferentes entes na gestão hospitalar, o CEO do Hospital Moinhos de Vento, Mohamed Parrini, deu como exemplo o Hospital da Restinga, o principal da zona extremo sul de Porto Alegre e que foi contratualizado com os governos federal, estadual e municipal. Segundo ele, parte municipal enfrentou dificuldades econômicas. “Muda governo. Muda tudo”, afirmou.

Parrini disse que o parceiro privado precisa ter tradição no setor para cumprir contratos de forma legal e ética, mas que faltam nos estados maestros para distribuir os recursos, pois os serviços ficam concentrados em algumas regiões e há duplicidade de oferta de determinados serviços, enquanto falta em outras localidades.

Antonio José Rodrigues Pereira, o Tom Zé, ex-superintendente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e hoje no Hospital Sírio-Libanês, afirmou que o maior obstáculo é a falta de política de Estado, e não de governo. Na pergunta da enquete sobre o que faz uma parceria gerar valor, escolheu o “contrato bem firmado”, com escopo definido e metas mensuráveis. No mundo ideal, afirmou que gostaria de ver uma mesma gestão responder pela atenção primária, secundária e terciária de uma população, com dados integrados e rastreáveis, independentemente de o cidadão ter plano de saúde.

Thaís Junqueira, superintendente-geral da Umane, afirmou que 4% do PIB vão para 180 milhões de pessoas, número que coincide com os 4% do PIB de despesa do governo registrados pelo IBGE em 2021. Para ela, o principal problema na relação público-privada é a falta de coordenação e de governança no nível central. “Cabe ao nível federal liderar, organizar e regular a integração”, afirmou, ao pontuar que” transparência e prestação de contas” gera mais valor nas parcerias, pois é a mais simples de implementar no curto prazo.

Questões essenciais

1. Quais são os principais problemas nas parcerias entre hospitais e o SUS?

Segundo os especialistas ouvidos na reportagem, os principais obstáculos são atrasos de pagamentos, descontinuidade das políticas públicas, mudanças frequentes de gestores e falta de coordenação entre União, estados e municípios.

2. Como os atrasos de pagamentos afetam a Rede Santa Catarina?

Segundo o diretor-executivo corporativo Denilson de Santa Clara, pagamentos pendentes de contratos com municípios e estados comprometem a disponibilidade de recursos da instituição. O executivo afirmou que a rede tem recorrido à Justiça para receber os valores devidos.

3. O que o programa Agora Tem Especialistas prevê para os hospitais privados e filantrópicos?

De acordo com as informações apresentadas na reportagem, o programa prevê créditos tributários para hospitais que ofereçam serviços especializados ao SUS, além de condições de parcelamento para o setor filantrópico. O Ministério da Saúde também anunciou um modelo de remuneração com valores superiores aos da Tabela SUS tradicional para determinados atendimentos.

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