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Entrevistas

“Estamos crescendo pelas vias de digitalização da saúde”, diz André Duprat, da Philips Brasil

Em entrevista exclusiva ao Saúde Insider, executivo fala sobre hospitais inteligentes, produção nacional, IA e os desafios da fabricante de equipamentos médicos no país

Country leader Philips Brasil, André Duprat está no cargo há pouco mais de um ano e meio e na companhia há quase 11 anos. Como executivo, sua filosofia é de que a cultura vem antes da estratégia. “Tem que ter um plano, mas ter uma cultura de alto desempenho”, disse Duprat em entrevista exclusiva ao Saúde Insider. A sala tem a porta aberta. Nas reuniões, gosta de ouvir ideias. “Se vejo que a minha voz é sempre a última, é sinal de que tem alguma coisa errada.” É com esse estilo de liderança que Duprat comanda a operação brasileira da companhia de origem holandesa, que em julho completou 102 anos de atuação no Brasil e, em maio, comemorou 135 anos de existência. Globalmente, o faturamento da fabricante de equipamentos médicos no primeiro semestre deste ano foi de 8,3 bilhões de euros, no mesmo patamar do período correspondente do ano anterior.

O segundo século da empresa no país está sendo construído com avanços na digitalização da saúde brasileira, tanto no setor privado quanto no público, por meio do SUS (Sistema Único de Saúde). “Estamos crescendo pelas vias de digitalização da saúde”, afirmou. Nesta entrevista, o executivo comenta ainda sobre os líderes que o inspiram, sua visão sobre o mercado nacional, as políticas de incentivo ao setor, as parcerias, o uso de inteligência artificial e como tem acelerado nas avenidas de crescimento da Philips.

Saúde Insider – O sr. dissemina um conceito de que a cultura vem antes da estratégia. Qual mensagem quer passar?
André Duprat –
Tem uma frase famosa que diz que a cultura come a estratégia no café da manhã. A estratégia sempre vai ter uma premissa e colocar alguma variável na qual você se baseia para definir um plano. Só que, no mundo real, essas variáveis não ficam tão comportadas. Então, a minha visão é: como temos de fazer na Philips para que a gente consiga ser capaz de se adaptar, não importa o que encontre pela frente? Tem que ter um plano, mas ter uma cultura de alto desempenho. Uma das coisas que eu acho mais importantes é que as pessoas consigam trazer ideias, tenham liberdade de trazer seu ponto de vista à mesa. Isso é insumo para a gente colocar outros elementos nos nossos planos, porque outras pessoas estão vendo o que a gente não está. Assim, nós vamos nos adaptando e conseguindo navegar em situações mais turbulentas. Com esses elementos de cultura, conseguimos ficar mais seguros de que, mesmo que os ventos não sejam favoráveis no futuro, conseguiremos sair do outro lado melhor.

Saúde Insider – É um estilo de gestão com a porta aberta?
André Duprat –
Costumo tentar medir se a equipe está me questionando durante as reuniões. Se vejo que a minha voz é sempre a última, é sinal de que tem alguma coisa errada. Quando se está em um ambiente assim, a melhor decisão que eu posso tomar é limitada ao que eu mesmo sei. Mas, se eu conseguir ampliar esse limite e trazer tudo o que as pessoas têm a oferecer, principalmente aquelas que estão na linha de frente, em contato com o cliente, vendo o movimento do mercado, esse negócio fica melhor.

Saúde Insider – O sr. fala muito da importância das pessoas nos processos, apesar de estar em um mercado em que tecnologia e equipamentos são muito relevantes. A capacidade humana não pode ser deixada de lado, certo?
André Duprat –
Não, não pode. E não é só por uma questão de princípio de cuidado com as pessoas, mas porque há muita informação valiosa. Acredito muito que a informação mais rica é a que está na ponta. Às vezes, tem um especialista que faz manutenção em equipamentos nossos e começa a perceber uma tendência de clientes que estão com determinado tipo de problema no seu maquinário, nos seus equipamentos, nos seus produtos. Ele traz uma visão para melhorar o nosso nível de atendimento, melhorar nossas vendas.

Saúde Insider – Algum líder que o inspire?
André Duprat –
Tem alguns. A pessoa que me trouxe para a Philips, Renato Carvalho, é alguém com quem eu aprendi muito. Hoje, ele está trabalhando na sede da Novartis, liderando uma unidade de negócio. Sobre executivos de fora, eu sou daquela máxima de nunca conhecer seus ídolos. O Elon Musk é um cara super controverso, mas podemos reconhecer algumas qualidades. A capacidade que ele tem de ir aos princípios básicos das coisas e inovar em cima disso é muito interessante. O Satya Nadella, CEO da Microsoft, fez uma transformação muito grande nos negócios da empresa.

Saúde Insider – Como observa o atual momento do mercado brasileiro de saúde?
André Duprat –
Vejo que é um mercado relativamente estável. Temos o privilégio de não sofrer solavancos gigantescos. Mesmo com a pandemia, o que a gente vê muito é um shift. Com a pandemia, houve o fechamento de clínicas, um desastre, mas teve um aumento na demanda por tomografia, por equipamentos que eram necessários naquela época. E agora a gente está em um momento interessante, com muito movimento no SUS, no mercado público, nas parcerias que foram firmadas por programas públicos, como o Proadi-SUS [Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde, parceria entre o Ministério da Saúde e hospitais de excelência sem fins lucrativos do Brasil] e o Agora Tem Especialistas. Eles geraram um fomento para acelerar, de fato, a adoção de tecnologia pelo mercado público.

Saúde Insider – Qual é o ponto de atenção?
André Duprat –
Estamos restritos por causa do momento fiscal, da taxa de juros hoje [em 13,75% ao ano]. Fazer investimento no Brasil quando o cofrinho está rendendo quase 14% ao ano é um desafio para todos os setores. E, para a gente que trabalha com bens de capital e equipamentos de grande porte, também é muito desafiador. Temos de estar preparados para o que der e vier, garantindo que tenhamos um bom posicionamento, que consigamos dialogar e mostrar o valor do que temos a oferecer para a saúde, em qualquer setor.

Saúde Insider – Com o avanço do SUS nos últimos anos, a Philips entrou em um novo jogo? Como considera esse passo dado?
André Duprat –
Achei interessante. De fato, trouxe acesso à saúde de qualidade. Estamos nessa jornada há algum tempo. Há pouco mais de 10 anos, a gente entrou numa PPP [Parceria Público-Privada], como sócio, para atender os pacientes do SUS no estado da Bahia. A Philips entrou com o equity e teve outra empresa privada de diagnóstico. Toda a parte de diagnóstico dos hospitais da rede estadual de saúde passou a ser operada por essa joint venture. Agora, estamos fazendo um estudo que deve mostrar que houve um ganho significativo de qualidade, com um custo até menor do que se o Estado tivesse continuado fazendo tudo por conta própria. Acredito, de fato, que, quando a gente monta modelos com uma boa governança, bem aceitos, conseguimos fazer uma diferença grande.

Saúde Insider – E com relação aos negócios da companhia, a atuação junto ao SUS muda o ponteiro?
André Duprat
– Muda o ponteiro. Porque conseguimos encontrar ganhos de eficiência que permitem aquisições de equipamentos melhores, de equipamentos mais premium, que vão entregar mais saúde também.

Saúde Insider – E sobre os negócios da Philips, quais são as vias de crescimento e as tendências?
André Duprat –
A digitalização da saúde, como eu falei, de hospital digital, é uma das principais hoje. Isso abre um leque de opções, tanto de sistemas, infraestrutura e base de dados quanto de equipamentos que permitem essa interoperabilidade, a comunicação de informações entre eles. O setor de cardiologia continua sendo um foco gigante. E também temos um grande foco de crescimento em UTI, pois temos uma característica única nesse segmento, de trazer cuidados integrados. Nosso equipamento de hemodinâmica consegue fundir a imagem dele com a imagem que vem do ultrassom. O nosso monitor acompanha o paciente enquanto ele passa pela intervenção. Todo esse portfólio de equipamentos conectados, que deixam a jornada do paciente mais integrada, acreditamos que faz muita diferença no resultado final do tratamento. É uma avenida de crescimento importante também.

Saúde Insider – Como tem sido o crescimento da operação brasileira e qual é a representatividade do Brasil nos negócios globais da Philips?
André Duprat –
A operação tem crescido. De um lado, a gente fez a saída do Tasy [venda do software para a Bionexo, por R$ 1 bilhão]. E, do outro, a gente está expandindo pesquisa, desenvolvimento e monitorização. Estamos crescendo pelas vias de digitalização da saúde. O Brasil continua sendo um país muito relevante, é um país de grande movimento, onde também a competição é mais acirrada. Todos os competidores estão aqui, lutando pelo mesmo mercado. É um país em que a gente tem que ter muita garra. Isso reflete também o próprio sistema de saúde brasileiro como um todo. Investimos bastante em termos percentuais do PIB em saúde [o setor de saúde movimenta R$ 1,2 trilhão por ano, o que representa cerca de 10% do Produto Interno Bruto], mas o valor absoluto disso, principalmente quando se considera a relação de investimento per capita, ainda é bem inferior ao de outros países desenvolvidos. Então, temos que fazer mais com menos.

Saúde Insider – Atualmente, como está a balança de contratos públicos e privados da Philips?
André Duprat –
Está equilibrada, mas ainda é maior a parte de contratos privados. É um equilíbrio saudável. Não podemos contar só com o privado. Sem falar dos resultados financeiros, temos uma missão de trazer cuidado melhor para mais pessoas. Para cumprir uma missão como essa, temos que olhar para o SUS, senão vamos ficar restritos a uma parcela da população que a gente atinge no privado.

Saúde Insider – Esse fator SUS também é o que diferencia a operação brasileira de outras operações pelo mundo?
André Duprat –
A gente vai muito pelo sistema de saúde de cada país. O México é muito puxado pelo setor público, até mais que o Brasil. Outros países têm um equilíbrio mais parecido com o Brasil, outros têm uma saúde mais privada. Tentamos nos adequar à realidade de cada lugar.

Saúde Insider – E o atual momento da Philips por aqui, como avalia?
André Duprat –
Estamos em um bom momento. Fizemos movimentos de crescimento importantes. Recentemente, anunciamos a ampliação do centro de Pesquisa e Desenvolvimento de tecnologia hospitalar em Varginha (MG), o primeiro do tipo na América Latina. O investimento foi de R$ 15 milhões. Funciona como Centro Global de P&D da Philips e consolida Varginha como um polo estratégico de inovação em saúde. É uma iniciativa que se soma a uma operação que já gera cerca de R$ 300 milhões por ano em impacto econômico para Minas Gerais. Também temos feito parcerias interessantes com várias instituições, públicas e privadas. Com o Einstein [Hospital Israelita], fizemos uma aliança de cinco anos para desenvolver inovação em conjunto.

Saúde Insider – O Hospital Inteligente do SUS, em São Paulo [com previsão de 800 leitos, sendo 250 de emergência, 350 de UTI e 200 de enfermaria, e capacidade para realizar cerca de 27 mil cirurgias e 190 mil internações anuais], vai por esse caminho também?
André Duprat –
Esse é um grande projeto. Um projeto que chega no momento certo para o Brasil, porque vai ser com foco total no SUS, mas o mercado todo está buscando essa digitalização, essa transformação para o conceito de hospital inteligente. Mas nem sempre está super claro o que cada um quer. Existem vários sabores do que se pode fazer. Então, está sendo um momento bem interessante. Estamos nos conectando com clientes que estão nessa jornada, para a gente até ajudar a direcionar onde priorizar e conseguir entrar com soluções que ajudem a fazer esse salto na digitalização.

Saúde Insider – Uma espécie de consultoria?
André Duprat –
Tem sido uma característica muito marcante de todas as conversas que temos. Um Proof of Concept [prova de conceito]. É uma novidade também para o outro lado, o cliente, o hospital, que quer fazer uma transformação. O que é preciso ter em uma UTI? A gente vai fazer o paciente ser monitorado durante toda a sua jornada ou não? Vai ter uma central de monitoramento que consiga enxergar sinais do paciente, não importa onde ele esteja? Ou vai trabalhar para arrumar o nosso bloco de dados e os sistemas para garantir que a gente tenha base para crescer? Não importa qual caminho se percorra, tem que começar a entender a sequência da transformação. E a gente tem apoiado bastante nisso.

Saúde Insider – Essa parte de serviços, com software, gestão de setores e aplicação de ferramentas tecnológicas, tem avançado em que ritmo?
André Duprat –
Temos essa característica que é bem única, de conciliar bem a parte de hardware com a parte de software. A Philips é uma das empresas que mais investem em pesquisa e desenvolvimento, próximo de 10% da receita global anualmente. Um pouco mais da metade é de investimento em software, ciência de dados e inteligência artificial. Como resultado disso, somos líderes de mercado em categorias de software, de gestão de imagens, por exemplo. Ajudamos muito a organizar a jornada desse tipo de software, que consegue buscar e trazer toda a trajetória, a história do paciente, os episódios em que ele interagiu com o sistema de saúde, para que o médico tenha em mãos todo aquele histórico para tomar decisões.

Saúde Insider – Importante avanço em interoperabilidade, inclusive…
André Duprat –
Estamos numa era de muitas doenças crônicas. O paciente tem vários pontos de contato com o hospital, com a clínica, ao longo da vida. Toda vez que o paciente vai, tem que pedir para ele contar a história dele do zero. É complicado. Não dá mais para ser assim.

Saúde Insider – Como estamos nessa área de dados e compartilhamento? O Brasil está avançado, atrasado ou tem de tudo?
André Duprat –
Tem de tudo. A gente vê ainda casos em que o mesmo paciente tem sete cadastros diferentes em um banco de dados. Às vezes, na mesma instituição, existe duplicação. Mas depende da maturidade, obviamente, da instituição. O Einstein foi premiado com o primeiro lugar de Hospital Inteligente do Hemisfério Sul. Então, temos marcos mundiais aqui também.

Saúde Insider – Não podemos deixar de falar de inteligência artificial. Como observa a influência dessa tecnologia no setor?
André Duprat –
O resultado do nosso relatório sobre os impactos da IA deste ano foi interessante porque mostra uma maturidade muito grande dos profissionais da saúde e até dos pacientes. A gente gosta de fazer essa pesquisa porque a intenção dela não é entender que tipos de recursos de IA estão disponíveis. A ideia é entender como a sociedade, os profissionais da saúde e os pacientes estão enxergando a IA na vida real, porque ela está fazendo diferença no dia a dia deles. Vimos uma adoção massiva de IA pelos profissionais, acima de 90%. Muito como ferramenta de apoio ao diagnóstico.

Saúde Insider – Na saúde, a IA tem sido mais efetiva nesse tipo de situação, que é a operação e a conectividade de equipamentos, ou no back-office?
André Duprat –
Não sei qual setor está mais avançado. Enxergamos muito também na parte do back-office, até na nossa empresa. Temos acelerado bastante a adoção pelos vários times, assim como programas de incentivo. Fizemos recentemente um hackathon para que todos os funcionários interessados pudessem passar um dia desenvolvendo soluções. Isso tem dado bastante resultado. Tem áreas que já começam a mudar completamente o trabalho, deixando a gente fazer um trabalho que era mais administrativo, de busca de informação, para poder ficar mais perto do cliente. A IA bem aplicada no processo traz um impacto muito positivo em triagem, por exemplo.

Saúde Insider – O sr. tem falado sobre o trabalho de hoje que prepara a empresa para o seu próximo centenário. Como isso tem sido feito na operação brasileira, seja em infraestrutura, tecnologia ou pessoas?
André Duprat –
Quando a gente fala dos nossos avanços, tem muito a ver com isso. Temos uma série de produtos que já fabricamos aqui no Brasil e temos estudos para trazer mais SKUs, mais portfólios para fabricação nacional. Isso vai continuar reforçando a nossa presença industrial aqui. Cada vez mais, a gente também vê, não só no governo brasileiro, mas em estratégias nacionais, o fomento à indústria local. No segundo pilar, as parcerias que a gente tem feito também ajudam a nos posicionar. Estamos muito conectados com as instituições de controle aqui do Brasil. Assim como temos parcerias com o Einstein, fazemos com outros hospitais, clínicas, uma série de instituições. Isso garante relevância à nossa atuação, pois temos desenvolvido projetos junto com quem está na linha de frente, vendo os problemas de perto. E o terceiro grande pilar são as pessoas. Para a gente sobreviver a esse tempo todo, temos de ter times cada vez mais engajados, manter uma cultura forte, que perdure para quando nós não estivermos mais aqui. Temos plantado sementes que crescem ao longo desse tempo todo.

Saúde Insider – Como está a retenção de talentos, o turnover?
André Duprat –
A gente observa que está até diminuindo o turnover nas novas gerações. Está bem controlado. E investimos bastante em programas de saúde mental, em ambiente seguro de trabalho. É sempre uma arte equilibrar a busca pela excelência, que convém também à alta exigência, com um ambiente saudável. Não adianta ter alta exigência e todo mundo funcionar na base da pressão. E nem, do outro lado, abrir mão da excelência só para ter um ambiente tranquilo. Então, esse meio-termo é uma característica bem forte da Philips, que a gente quer manter assim por muito tempo.

Saúde Insider – O sr. comentou sobre políticas de incentivo para o setor, e a do complexo industrial da saúde é uma delas. No geral, o que poderia avançar e que está meio estagnado neste momento?
André Duprat –
O Brasil tem um histórico de incentivo para a produção nacional já robusto. Tem o PPB [Processo Produtivo Básico, de estímulo à montagem, engenharia e industrialização em solo nacional], que já é bem consolidado. A gente participa e estamos ampliando a nossa participação, com mais produtos embarcando nesse programa. Quando a gente tem essas iniciativas construídas com diálogo, elas geram resultado. Este ano, tivemos alguns movimentos que foram mais repentinos. Por exemplo, os componentes que são utilizados para fabricação nacional foram impactados com uma perda de incentivo e com o imposto de importação. Mesmo esses produtos que são fabricados no Brasil passaram a ficar mais caros. Obviamente, é uma preocupação que tende a reduzir o acesso da população a essa alta tecnologia. Foi uma vitória importante que a gente conquistou e agora a gente vê uma reorganização dessa temática. O importante é não ter impacto negativo.

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