“Precisamos ter controle total sobre os dados da saúde”, diz Ana Estela Haddad
Secretária do Ministério da Saúde até agosto, ela defende interoperabilidade entre setores público e privado, soberania sobre dados e supervisão humana no uso da inteligência artificial
A incorporação da inteligência artificial à saúde será inevitável, mas não poderá avançar sem regras, soberania sobre os dados e supervisão humana. A avaliação é de Ana Estela Haddad, que deixou a secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde há cerca de um mês. Durante os três anos e meio em que ocupou o cargo, esteve à frente de projetos como o primeiro hospital inteligente do SUS.
Em entrevista ao Saúde Insider, ela defendeu maior colaboração entre os sistemas público e privado para permitir que as informações acompanhem o paciente ao longo de sua jornada de cuidado. Essa interoperabilidade será essencial também na transformação digital pelo qual o setor passa – e um dos símbolos é a construção do primeiro hospital inteligente do SUS,
Ela afirma, porém, que é preciso garantir a soberania e governança dos dados e alertou as empresas a pensarem a aplicação de Inteligência artificial de forma estratégica. “Às vezes, o gasto e a complexidade decorrentes não trazem o benefício esperado”, afirmou.
Saúde Insider – Temos um grande desafio, que é a integração efetiva entre o sistema público e o privado, passando pela integração dos sistemas operacionais. Como a senhora vê essa perspectiva e esse desafio?
Ana Estela Haddad – Acho interessante considerarmos algumas etapas da transformação digital. Avançamos para o uso do prontuário eletrônico. Mais recentemente, passamos a enfrentar o desafio da interoperabilidade, que de certa forma recoloca para os setores público e privado essa pergunta sobre como se integrar. Se pensarmos no interesse do paciente, é preciso que os dados o acompanhem e que tenhamos informações integradas de todo o setor.
Saúde Insider – O que é preciso para isso acontecer?
Ana Estela Haddad – Os sistemas público e privado precisam colaborar mais.
Saúde Insider – Como?
Ana Estela Haddad – Considero importante discutir um modelo de interoperabilidade capaz de atender e harmonizar os dois lados, ainda que tenham modelos de negócio e regras às vezes diferentes. Se conseguirmos enfrentar bem essa questão, todo o ecossistema de saúde ganha.
Saúde Insider – Quando o assunto é inteligência artificial, os benefícios de sua aplicação são amplamente reverberados. Mas há também impacto na gestão, inclusive orçamentária, para o SUS e para a saúde suplementar, que sabemos serem limitados. Como equalizar?
Ana Estela Haddad – O uso da inteligência artificial consome recursos orçamentários e recursos naturais muito importantes. Por isso, também precisamos pensar no uso racional da IA. Aplicá-la quando é realmente necessária. Às vezes, o gasto e a complexidade decorrentes não trazem o benefício esperado, e isso é um aspecto importante no planejamento.
Saúde Insider – Ao mesmo tempo, é um caminho irreversível. O que fazer?
Ana Estela Haddad – Há ainda um trabalho intersetorial a ser realizado – ao pensar na infraestrutura para IA, não dá para pensar apenas dentro da saúde. É preciso considerar data centers e segurança da informação de forma mais estratégica e ampla, algo que o governo já vem trabalhando por meio do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial.
Saúde Insider – E na saúde especificamente?
Ana Estela Haddad – Há questões específicas como a necessidade de uma regulamentação clara e segura para a IA aplicada ao setor, que tem especificidades importantes, a começar pelos dados sensíveis. Ainda bem que temos a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) para nos apoiar nisso. Se não usarmos a IA com responsabilidade, em prol dos pacientes e da saúde, podemos ter repercussões adversas. Mas, por outro lado, ela pode ajudar bastante.
Saúde Insider – No ano passado, a senhora participou da solenidade de assinatura de um memorando de intenções internacional para regular IA na saúde pública e privada no Brasil. Em que pé está esse projeto?
Ana Estela Haddad – Temos um acordo de cooperação com a HealthAI [organização internacional sem fins lucrativos que trabalha para a implementação de mecanismos regulatórios globais do uso de IA na saúde]. No último semestre realizamos a primeira oficina desse acordo, na qual articulamos a presença do Ministério da Saúde, da Anvisa, da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde e de outras entidades ligadas à saúde digital, pública e privada.
Saúde Insider – E como eles podem ajudar o Brasil?
Ana Estela Haddad – Eles têm uma metodologia de oficinas que funciona quase como um autodiagnóstico – em que ponto estamos e quais desafios temos pela frente, com base na experiência de países mais avançados na implementação, especialmente na União Europeia. Também têm vínculo com a Organização Mundial da Saúde, o que nos ajuda a estar conectados com as tendências do mundo.
Saúde Insider – Quão forte está globalmente a discussão sobre a IA na saúde? E a participação do Brasil neste cenário?
Ana Estela Haddad – Nós interagimos com a OMS (Organização Mundial da Saúde), com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que teve um evento cujo tema central foi justamente a governança dos diversos aspectos da IA. Buscamos estar presentes globalmente, em um grupo de cerca de 40 países que discute não só IA, mas os diversos temas da saúde digital. O Brasil também é signatário de um grande movimento liderado pela China para o uso internacional da IA, que reúne 90 países e trabalha para garantir a soberania digital de cada um deles mantendo a cooperação. Os Estados Unidos, por exemplo, não são signatários desse movimento.
Saúde Insider – Essa troca internacional não traz riscos?
Ana Estela Haddad – Entendemos que avançar com IA e saúde digital exige trabalho colaborativo internamente, mas também externamente. Temos que garantir nossa soberania digital sem deixar de cooperar, que é uma tendência.
Saúde Insider – A senhora fala bastante sobre governança e sobre soberania, temas amplos e complexos. Como traduzir isso para a prática com algumas ações concretas?
Ana Estela Haddad – Sobre soberania, no caso do SUS, precisamos crescer muito com a RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde), preparando nosso ecossistema para escalar o uso de inteligência artificial. Também estamos em parceria com o Serpro e com a Dataprev, trabalhando num plano que chamamos de jornada soberana, rumo à soberania de dados da saúde.
Saúde Insider – Qual a ideia?
Ana Estela Haddad – É um plano faseado, em que estamos trazendo toda a infraestrutura de nuvem e de rede necessária. No caso da saúde, falamos de soberania de dados e soberania operacional – ter os dados armazenados em território nacional e controle operacional total sobre eles. A soberania tecnológica virá do governo como um todo. O investimento em infraestrutura já foi aprovado, estamos com mais data centers e investindo em supercomputadores no Brasil.
Saúde Insider – Há exemplos de países que já estão mais avançados nessa jornada?
Ana Estela Haddad – A China está avançando muito na soberania tecnológica. Olhando a tendência de outros países, com exceção talvez dos Estados Unidos, da China e de outros países na fronteira tecnológica, nenhum é totalmente soberano hoje.
Saúde Insider – E quanto à governança?
Ana Estela Haddad – A governança da IA tem muitos aspectos.
Saúde Insider – Quais?
Ana Estela Haddad – Como se estabelecem os propósitos do uso, o uso racional e ético em prol de todos? E a partir dessa diretriz se constrói o modelo de governança. Na governança de dados, por exemplo, é preciso definir como esses dados serão acessados e como será seu uso. O dado de saúde tem grande valor para vigilância, pesquisa e desenvolvimento, mas é preciso organizar bem todo esse processo.
Saúde Insider – Outro ponto não seria a definição de limites entre o humano e a tecnologia?
Ana Estela Haddad – Sim. A governança da IA também significa garantir que a supervisão e as decisões continuem sendo humanas. Os gradientes de autonomia precisam ser considerados, pensando o ciclo completo da IA, não só o desenvolvimento, mas também a supervisão ao longo do uso.
Saúde Insider – O setor está na expectativa em relação ao hospital inteligente do SUS (Sistema Único de Saúde), projeto no qual a senhora esteve muito envolvida. Em que fase está?
Ana Estela Haddad – De um lado, há toda a transformação digital em curso – estamos construindo o processo de interoperabilidade e agora também precisamos trazer interoperabilidade de equipamentos. Esses são os novos passos que estão sendo dados.
Saúde Insider – Como estão sendo modelados os passos para que esse piloto seja escalável?
Ana Estela Haddad – Ao lado do hospital inteligente, em parceria com a medicina da USP, já está sendo estruturada uma rede de UTIs que parte de seis hospitais e prevê expansão para mais 14 no país. Eles vão trabalhar em rede, com uma central de monitoramento comum, buscando usar os dados de forma inteligente.
Saúde Insider – Não parece simples.
Ana Estela Haddad – É um projeto bastante complexo e desafiador. Mas quando a prova de conceito estiver testada e ajustada trará resultados e impactos muito positivos – vidas salvas e melhores desfechos em situações de urgência e emergência, que são tempo-dependentes.
