“Startups do Brasil têm síndrome de vira-lata e insegurança em competir contra EUA e Europa”, diz Bruno Borghi, da ABSS
Presidente da Associação Brasileira de Startups de Saúde e Healthtechs afirma que, apesar de obstáculos, empresas nacionais têm soluções melhores
Empresas de inovação do Brasil têm soluções tão boas quanto as de outros países. Até melhores. A avaliação é do presidente da ABSS (Associação Brasileira de Startups de Saúde e Healthtechs), Bruno Borghi. “Vejo uma síndrome de vira-lata, uma insegurança em competir contra startup americana ou europeia”, afirmou o dirigente em entrevista ao Saúde Insider. Borghi também comparou o cenário atual de capacidade de inovação e de recebimento de aportes com o imediato momento pós-pandemia de Covid-19, com projetos recebendo investimentos sem nunca saírem do papel.
Na entrevista, o executivo ainda abordou os gargalos do setor, as principais demandas das instituições de saúde e as oportunidades no mercado internacional, destacando a representatividade do Brasil na América Latina. Conforme o Relatório HealthTech Recap 2024, produzido pela plataforma de inovação Distrito, o país (que tem 32% da população e 31% do PIB latino-americano) concentra 64,8% das healthtechs da região.
Saúde Insider – Qual sua avaliação do atual momento das startups de saúde e healthtechs no Brasil?
Bruno Borghi – O mercado evoluiu bastante no pós-pandemia, não só no Brasil, em razão das incertezas daquele momento. Durante a pandemia, os hospitais e instituições de saúde começaram a buscar meios para manter o faturamento. Muitas soluções foram criadas naquele período. Isso impulsionou um hype por inovação no pós-pandemia. As pessoas começaram a ver um modelo de saúde diferente. As instituições que saíram na frente hoje têm mais soluções e, consequentemente, mais clientes. A população viu as vantagens da teleconsulta e de outras soluções, e tem usufruído mais disso.
Saúde Insider – Como está o mercado?
Bruno Borghi – Hoje, o mercado brasileiro responde por 64% de todas as healthtechs da América Latina. É um mercado muito significativo para o continente, mas ainda é pequeno comparado com outras regiões. O setor exige mais maturidade e nós pagamos pelos erros do passado. No começo, muito foi feito na base de ideias, na busca por investimento, e faltava conhecimento e aderência às inovações. Muitos projetos receberam aportes e não saíram do papel.
Saúde Insider – Isso mudou?
Bruno Borghi – Agora os investimentos são muito mais cautelosos, é preciso muito mais conteúdo e conhecimento para adentrar o mercado da saúde. Atualmente, as startups estão sendo mais exigidas, precisam se provar por entregas e projetos, até porque o custo de saúde é alto. Não basta apresentar uma ideia, o cliente quer saber se a startup já tem faturamento, quem são os sócios e onde a solução está rodando para poder avaliar.
Saúde Insider – Como está o apetite dos investidores?
Bruno Borghi – Se olharmos para outros setores, como o varejo e a indústria, a saúde ainda não é um polo tão grande, mas existe um movimento de investir mais em soluções de saúde. Muitas startups começaram a olhar para um novo horizonte, que é o mercado internacional. Antes da pandemia, só se olhava para dentro, o que é bom, o Brasil é um país continental. Mas as empresas entenderam que é possível trabalhar com outros países.
Saúde Insider – Qual o atual estágio das startups brasileiras para competir internacionalmente? O que é preciso para o país se tornar um exportador de tecnologias?
Bruno Borghi – O Brasil tem soluções tão boas quanto os outros países, talvez até melhores. Eu vejo uma síndrome de vira-lata, uma insegurança em competir contra startup americana ou europeia. Só que nem sempre elas têm a nossa qualidade. O Brasil é um país continental, com população enorme e muita diversidade. Temos dados muito qualificados para entrar em qualquer país do mundo.
Saúde Insider – O que dificulta?
Bruno Borghi – Uma dificuldade às vezes é o idioma, que pode travar o acesso de startups, atrapalhar reunião com cliente.
Saúde Insider – Os principais destinos são quais?
Bruno Borghi – As startups brasileiras estão indo principalmente para Alemanha, Espanha, Inglaterra e Portugal. Há boa entrada e aderência às nossas soluções em países europeus. Algumas arriscam nos Estados Unidos, mas é muito difícil, é um mercado que dá preferência a empresas locais.
Saúde Insider – Que segmentos da saúde apresentam hoje as maiores oportunidades para novos negócios de tecnologia?
Bruno Borghi – Existem muitas demandas. A partir do momento em que se entra no hospital, há oportunidade em todos os lugares. Olha-se muito para soluções voltadas para a prevenção e diagnóstico precoce, tecnologias que evitem ou identifiquem rapidamente uma doença e resultem em economia de custos para operadoras, hospitais e para o sistema de saúde. Também têm crescido muito as soluções voltadas para o backoffice das instituições, a parte administrativa e financeira. Isso inclui automações de processos, localização de equipamentos, gestão de escala e quadro de funcionários.
Saúde Insider – E longevidade? É tema que está em evidência no setor?
Bruno Borghi – É outro tema que ganha muito espaço. As pesquisas apontam para o envelhecimento da população e isso traz uma série de demandas associadas. Outra coisa que tem crescido, especificamente neste ano, é o conceito de hospital fora dos muros, o monitoramento e o cuidado do paciente fora das instituições de saúde.
Saúde Insider – O SUS (Sistema Único de Saúde) oferece oportunidades para as startups?
Bruno Borghi – Nós participamos de alguns programas e eventos com o SUS. A ABSS foi pré-selecionada para o programa da Seidigi [Secretaria de Informação e Saúde Digital] do Ministério da Saúde para ser uma das associações que vão ajudar a trazer soluções de saúde [a ABSS foi habilitada no resultado preliminar do Edital Seidigi/MS nº 1/2026 – InovaSUS Digital]. Temos conversas com a Anvisa, com as secretarias de saúde municipais e estaduais. Mas ainda é um modelo novo, as startups precisam entender o modelo e as etapas de validações do SUS. Além da solução, existe LGPD, existe compliance, existe segurança. As startups precisam se aperfeiçoar e entender esses modelos governamentais para que possam fazer parte desses programas.
Saúde Insider – Quais as perspectivas para os próximos anos? Veremos mais startups independentes, consolidação por grandes empresas ou o surgimento de novos modelos de negócio?
Bruno Borghi – Sempre vão surgir startups. As pessoas têm ideias e a mente do brasileiro é muito boa para a criação. Acredito que vão existir alguns cenários. Haverá startups que serão adquiridas por grandes empresas para colocar as soluções dentro de seus portfólios. Também veremos startups se unindo, combinando soluções, ofertando um novo produto para o mercado.
Saúde Insider – E o que será o diferencial?
Bruno Borghi – A inteligência artificial (IA). Não ter a solução embarcada com IA, mas saber utilizar a IA para embarcar a solução. É saber criar a solução através da IA para fazer otimizações e melhorias contínuas. Startups que eram pequenas até o ano passado fizeram cursos e hoje estão crescendo porque entenderam isso. Acredito que esse vai ser um diferencial. Quem souber fazer, vai sair na frente.
Saúde Insider – Mais algum?
Bruno Borghi – Outro ponto é que eu acho que muitas startups vão começar a quebrar por colocarem valuation muito caro, por estar embarcado com IA e não entregarem o que estão prometendo. Resumindo: compra de startups por grandes empresas, para incluir soluções em seus portfólios, junções de startups, surgimento de novas startups e as que não vão entregar o que estão prometendo.
Saúde Insider – E quais são as transformações que a IA poderá causar?
Bruno Borghi – Utilizamos IA há muito tempo. Ela te dá um superpoder, mas é preciso saber usá-lo, fazer as perguntas corretas. A IA embarcada da maneira correta, com os conceitos e as perguntas corretas, vai ajudar. O que demoraria muito mais tempo para olhar quatro ou cinco radiografias, a IA analisa milhões de imagens ao mesmo tempo e em dez segundos traz uma análise. O médico vai conseguir diagnosticar muito mais rápido e fácil. Não vai perder três, quatro dias, vai perder uma hora. A IA tem causado mudanças, mas as pessoas ainda têm que saber fazer as perguntas corretas. Acredito que vai ser um diferencial, que vai entregar melhores resultados, mas é preciso ter a consciência de que ainda tem que ter um ser humano. Porque a IA sozinha vai criar o que ela acha certo.
Saúde Insider – Um tema relevante com o avanço da digitalização da saúde é a segurança de dados. Existem iniciativas do setor no sentido de que as soluções e produtos tecnológicos sejam menos vulneráveis?
Bruno Borghi – A ABSS não valida as soluções, ela apoia as startups dentro do ecossistema de saúde. Exercemos um papel de orientação para que elas saibam o que é necessário para operar dentro de instituições. Nós fazemos programas e reuniões todos os meses dentro do Hub InovaHC [em São Paulo], local da nossa sede, para que as startups possam receber informações sobre a área jurídica, comercial e de marketing, mas não temos como avaliar se uma empresa está em compliance com a LGPD.
Saúde Insider – O que você citaria como os principais gargalos para o crescimento das healthtechs brasileiras?
Bruno Borghi – As pessoas estão entendendo o movimento da transformação digital, mas ainda ouço pessoas com medo de perder o emprego, de se tornarem desnecessárias. Isso torna a adoção de soluções um pouco mais complicada. Conheço casos de equipes que não faziam uso da solução, alegando que não funcionava, e depois foi constatado que ela nunca havia sido ativada. Existe esse medo.
Saúde Insider – E além desse?
Bruno Borghi – Outro ponto é o desconhecimento, a incerteza em relação à utilidade das soluções. O que temos feito é criar selos, com apoio de algumas instituições, para que elas possam aprovar as soluções, apontar que aquilo atendeu às necessidades. Forma-se um benchmark. Mas o maior gargalo é que nem todos os hospitais têm infraestrutura tecnológica adequada para implementar as soluções. Em alguns casos, falta sinal de wi-fi de qualidade para que a ferramenta funcione. Acredito que inovação é o topo da pirâmide. Embaixo, tem que ter pessoas e equipamentos de qualidade.
