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Entrevistas

Gil Junior, do HCX Fmusp: “Brasil precisa capacitar médicos para atender idosos”

Luiz Antonio Gil Junior, do HCX Fmusp, afirma que apagão de profissionais pode ser minimizado com a preparação dos atuais médicos, de cardiologistas a ortopedistas

O Brasil tem 3.167 geriatras registrados, segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, levantamento da Fmusp (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) em parceria com o Ministério da Saúde e a AMB (Associação Médica Brasileira). Em 2011, eram 662. Entre 2000 e 2023, a parcela da população com 60 anos ou mais passou de 8,7% para 15,6%, o equivalente a 33 milhões de pessoas. O IBGE projeta que os idosos representarão 37,8% da população em 2070. Para o geriatra Luiz Antonio Gil Junior, coordenador do Curso Intensivo em Geriatria do HCX Fmusp (centro de ensino do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP), o ritmo de formação de especialistas não é suficiente para atender à demanda do país.

A saída que ele defende para minimizar o déficit não é apenas formar mais geriatras, mas capacitar profissionais sem formação específica que já atendem idosos, de cardiologistas a ortopedistas. Gil Junior, que também é coordenador da pós-graduação em geriatria da Faculdade Sírio-Libanês, defende ainda que as instituições priorizem investimentos em capacitação, mais do que em tecnologia, para se adequar às demandas do envelhecimento. A mensagem deixada pelo geriatra e gestor é clara: “O país como um todo carece de um olhar diferenciado para o idoso”. Em entrevista ao Saúde Insider, o especialista abordou também os desafios relacionados a prontuários fragmentados, a falta de interoperabilidade de dados, a telemedicina e a inovação.

Saúde Insider – Qual é a realidade atual do mercado de geriatria no Brasil?
Gil Junior –
No Brasil, assim como no mundo todo, existe um déficit de pessoas bem formadas para cuidar de idosos.

Saúde Insider – Mesmo com mais graduados?
Gil Junior –
Apesar do aumento do número de vagas de residência médica nos últimos anos, ainda é muito incipiente. Muito inferior ao que o envelhecimento populacional brasileiro exige.

Saúde Insider – Qual o cenário?
Gil Junior –
Hoje temos 3,2 mil geriatras, o que dá mais ou menos um geriatra para cada 10 mil a 12 mil idosos. A referência seria um para cada 1 mil a 2 mil. Sem contar a falta de distribuição, porque estão concentrados no Sul e no Sudeste, onde geralmente fazem a formação.

Saúde Insider – A Demografia Médica mostra alta de 378% no número de geriatras entre 2011 e 2024. É um número alto ou baixo para a realidade brasileira?
Gil Junior
– Esse aumento mostra preocupação. Nos últimos anos, o MEC (Ministério da Educação) tem se esforçado para abrir mais vagas de geriatria. Mas isso possivelmente vai ser insuficiente por muitos e muitos anos. Por isso, existe outro papel do geriatra.

Saúde Insider – Qual?
Gil Junior –
Disseminar a informação sobre o cuidado do idoso. A gente precisa ter bons médicos de família fazendo isso na Unidade Básica de Saúde e outros bons clínicos que cuidem de idosos e evitem o mau cuidado, que gera tanta iatrogenia [alteração patológica, efeito adverso ou dano físico ou mental provocado no paciente por uma intervenção de saúde.

Saúde Insider – Se só formar mais geriatras não vai fechar a conta, o que fecha?
Gil Junior
– Com o envelhecimento populacional, vamos ter o geriatra, que é o especialista em envelhecimento, mas precisamos ter médicos capacitados e orientados adequadamente para cuidar de idosos.

Saúde Insider – Profissionais de outras especialidades?
Gil Junior –
Não podemos ter cardiologista que não tenha olhar para o envelhecimento. Não podemos ter cirurgião vascular que não tenha esse olhar. Não podemos ter ortopedista que não tenha. O ortopedista, o cardiologista e o cirurgião vascular também vão cuidar de idosos na prática diária. É uma disciplina transversal entre os médicos e transdisciplinar. O geriatra precisa muito do fisioterapeuta, do fonoaudiólogo, do farmacêutico, da enfermeira e do psicólogo.

Saúde Insider – Como isso se faz na prática?
Gil Junior
– Antes mesmo da especialização, nas faculdades, a gente precisa falar cada vez mais sobre o cuidado ao idoso. Nas faculdades de enfermagem, de psicologia, de medicina. Todos os profissionais de saúde precisam entender um pouco mais sobre o idoso. Depois da formação, quem está lidando com essa população precisa se capacitar.

Saúde Insider – Quais os diferenciais para o profissional e para o setor?
Gil Junior
– Ele é capaz de olhar de forma diferenciada para o indivíduo idoso e vai conseguir captar uma população que é cada vez maior. Vai ser identificado como aquele cardiologista que cuida diferentemente do idoso. E diminui o impacto dentro do próprio hospital. Reduz a chance de uma série de intercorrências que o idoso tem numa internação. Isso economiza e evita dano.

Saúde Insider – Se tivesse de escolher um investimento para as instituições se adequarem a essa realidade, qual seria?
Gil Junior
– Eu escolheria capacitação.

Saúde Insider – Por quê?
Gil Junior –
É bom ter tecnologia. Pois com ela conseguimos fazer um monte de monitoramento e observação. Mas a capacitação dos profissionais, com o olhar diferenciado, é o foco que faz a maior diferença no cuidado dessas pessoas. São as pessoas que vão identificar os riscos, que vão interagir com os familiares, com os cuidadores. Se estiverem adequadamente capacitadas, poderemos trazer um cuidado de excelência para quem está sendo cuidado.

Saúde Insider – O que a experiência do pronto-atendimento geriátrico especializado, que tem avançado no país, demonstra em termos de serviço e de negócio?
Gil Junior
– O pronto-atendimento é um local inóspito para o idoso.

Saúde Insider – Por qual motivo?
Gil Junior –
Você entra num ambiente de saúde novo, vai ser furado, vai ser levado daqui para lá para fazer exame.

Saúde Insider – Não há nada de positivo?
Gil Junior –
Por outro lado, ele pode ser a porta de entrada para o sistema de saúde e para a identificação do que está acontecendo, não só do quadro agudo. Ter um olhar diferenciado ali faz com que a gente identifique o risco mais rapidamente, tome medidas que reduzam o risco e direcione o indivíduo mais rapidamente de volta para casa ou para uma internação com os riscos já identificados.

Saúde Insider – O envelhecimento da população está sendo tratado com a prioridade que merece?
Gil Junior
– Ainda temos muito a caminhar.

Saúde Insider – O que devemos fazer?
Gil Junior –
Atuar tanto em políticas públicas quanto em políticas de saúde e de transporte. O país como um todo carece de um olhar diferenciado para o idoso. O Brasil teve um envelhecimento muito rápido, um dos mais rápidos do mundo. O país passou de uma população predominantemente jovem, até pouco tempo, para uma população que envelhece cada vez mais rápido. Está envelhecendo tão rápido que, por mais que a gente aumente o número de geriatras, vai continuar faltando.

Saúde Insider – Quais inovações têm mudado a realidade da geriatria no Brasil?
Gil Junior
– Nos ambientes em que atuo, os sistemas que avaliam o idoso de forma integral. Hoje temos a possibilidade de fazer uma avaliação geriátrica sistematizada e a estratificação de risco desses indivíduos.

Saúde Insider – E o que faltaria?
Gil Junior –
Uma coisa de que sinto falta, e que conversei recentemente com colegas de outros países, é que ainda não temos um prontuário universalizado. Seria muito importante para a população. Isso é uma falha. Outro ponto de avanço, da pandemia em diante, é a telemedicina e o monitoramento remoto.

Saúde Insider – Como as instituições têm gerido os dados desses pacientes e como isso afeta o cuidado?
Gil Junior
– A gestão dos dados ainda é muito compartimentalizada, assim como o cuidado. A gente tem uma influência americana forte.

Saúde Insider – De que maneira?
Gil Junior –
Se você tem dor no pé, vai a um médico. Dor na mão, vai a outro. Dor na barriga, vai a outro. O geriatra é o contrário. É quem integra. Ele acaba sendo a figura de vínculo e de centralização do cuidado.

Saúde Insider – Que saída o senhor enxerga?
Gil Junior
– Tenho estimulado meus pacientes a fazer uma coisa que gosto de chamar de currículo de saúde. Você faz o seu currículo, e o currículo é seu. Em 1960, operei o apêndice. Em 1980, fiz outra cirurgia. O currículo é dele e ele leva para onde quiser. No mundo perfeito, isso deveria ser centralizado no governo. Assim como, no pós-pandemia, as vacinas estavam num banco de dados único, o prontuário do paciente ideal poderia ser também um documento único.

Saúde Insider – E a telemedicina, o que ela já resolve?
Gil Junior
– Hoje a gente pode ofertar cuidado a distância. Num dos locais em que trabalho, tenho a oportunidade de atuar como geriatra interconsultor para um médico de um posto de saúde do interior da Bahia. Consigo levar minha experiência para os rincões mais profundos do país. Tem também os dispositivos vestíveis e os lembretes por assistentes de voz, que auxiliam menos do que a gente gostaria, mas já auxiliam no cuidado.

Saúde Insider – O que falta para extrair mais dessas tecnologias?
Gil Junior
– Os idosos ainda não conseguem extrair todas as potencialidades dos aparatos que a gente tem. São de outras gerações. Com o tempo, vamos poder extrair mais para o cuidado da saúde.

Saúde Insider – Existem iniciativas que usam tecnologia para enfrentar a solidão. Como o senhor vê isso?
Gil Junior
– A solidão é um problema de saúde e daria outra reportagem. Quanto mais tecnologia a gente tem, mais isso impacta na saúde das pessoas. Por outro lado, a gente poderia aproveitar melhor a tecnologia para integrar. O que traz propósito para o idoso é a participação comunitária.

Saúde Insider – E a inteligência artificial, o que ela muda na geriatria?
Gil Junior
– Bem utilizada, ela potencializa o funcionamento de todo mundo, do enfermeiro e do médico. Não estamos longe de ter os sinais vitais do idoso num smartwatch em casa e algoritmos que observem esse indivíduo de forma sistematizada, identificando quando ele pode ter uma intercorrência.

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