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Entrevistas

“Saúde suplementar tem de criar a Atenção Básica de Saúde”, diz Drauzio Varella

Para ele, o maior problema da saúde no país ainda é o acesso. "Porque a tecnologia fundamental para atendimento nós temos"

Crédito: Divulgação

Conceito formulado há mais de seis décadas aponta que a Atenção Básica é capaz de resolver em torno de 85% dos problemas de saúde da população. O percentual, frequentemente citado em relatórios do Ministério da Saúde, consta em estudo de autoria dos pesquisadores Kerr L. White, T. Franklin Williams e Bernard G. Greenberg, publicado em 1961 no New England Journal of Medicine. Virou uma espécie de mantra entre os especialistas. Vale para iniciativas públicas e torna-se cada vez mais necessário para as empresas privadas do setor de saúde. Em entrevista exclusiva ao Saúde Insider, Drauzio Varella, médico oncologista, escritor e comunicador, ressaltou a importância da implementação da medicina preventiva pelas operadoras, seja para ganhos na saúde dos beneficiários, seja pela própria saúde financeira das empresas. “A saúde suplementar tem de criar a Atenção Básica de Saúde”, disse Varella. “Os planos estão começando a entender isso agora.”

Dados da ANS mostram que até junho havia 53,1 milhões de beneficiários de plano de saúde no Brasil. Para Drauzio Varella, apesar da alta recente, a relativa estabilidade da cobertura ao longo de mais de uma década mostra que o mercado chegou a um limite de expansão. De acordo com a FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar), há pouco mais de uma década a taxa de cobertura dos planos está estagnada em cerca de 25% da população brasileira. Em 2014, eram 25,2% da população com plano, e hoje são 24,8%. Enquanto isso, as despesas por beneficiário crescem em ritmo mais acelerado do que as receitas por beneficiário desde 2001. Nesta entrevista, Drauzio Varella lança um grande olhar sobre todas as pontas da saúde no país, do segmento privado ao SUS (Sistema Único de Saúde). Confira a seguir.

Saúde Insider – Qual é a maior transformação da saúde das últimas décadas?
Drauzio Varella
– É o Sistema Único de Saúde, o SUS. Eu não tomei nenhuma vacina, pois não se vacinava criança naquela época (nasci em 1943). Não tive pediatra. Nem eu nem a molecada que jogava bola comigo na rua. Não havia nenhuma assistência médica. Eu pratiquei medicina 20 anos antes da existência do SUS e depois vi a transformação que aconteceu.

Saúde Insider – Um marco.
Drauzio Varella
– A geração atual não vai viver a revolução da medicina brasileira que a minha geração teve o privilégio de viver, que foi o aparecimento do SUS. Nas gravações que passei a fazer pelo Brasil, especialmente pela TV Globo, mas não só, deram-me uma noção mais completa da importância do Sistema Único de Saúde no País. E isso transformou a minha vida.

Saúde Insider – De que maneira?
Drauzio Varella –
Eu sempre tive clínica particular, uma clínica grande, movimentada. Chegou um momento da carreira em que disse: “Daqui a pouco eu faço 80 anos [ele tem 83] e preciso pensar que a minha expectativa de vida não é mais tão longa. Tenho que tentar usar esse tempo da melhor forma possível”. Fechei o consultório, o que não é fácil na oncologia, pois havia pacientes de 20 anos que eu acompanhava, para passar a me dedicar a explicar e mostrar o que é o Sistema Único de Saúde. O Brasil tem tudo o que precisa para fazer o SUS funcionar.

Saúde Insider – Quais características?
Drauzio Varella –
É o único país do mundo que tem um sistema único para mais de 100 milhões de habitantes. Temos o maior programa de saúde pública do mundo, que é uma estratégia de Saúde da Família. Para onde vocês forem no Brasil, para a menor cidade que existe, vão encontrar uma UBS (Unidade Básica de Saúde). São 44 mil espalhadas pelo Brasil inteiro.

Saúde Insider – Com reflexos diretos no setor como um todo.
Drauzio Varella – Quando esse sistema funciona bem, as internações hospitalares caem entre 80% e 90%. Esse sistema está sendo copiado em vários países, inclusive na Inglaterra, e apresentado como um encaminhamento de solução para a crise que o NHS (National Health Service) vive hoje. E as agentes comunitárias de saúde são as pessoas mais importantes do sistema. A gente ainda tem aquela ideia de que a figura mais importante é o médico, mas ele sozinho não faz nada. Já as agentes, as enfermeiras e as auxiliares de enfermagem estão em contato direto com os pacientes. Elas propõem soluções que um médico nunca proporia.

Saúde Insider – Pode dar um exemplo?
Drauzio Varella
– Produzimos um documentário em que entrevistamos uma agente no Ceará. Ela disse o seguinte: “Doutor, a mulher tem que fazer exercício. Mas como fazer ela colocar um calção, uma camiseta e sair para correr? Os homens não deixam, são machistas e não querem que a mulher faça isso, e os outros homens ficam olhando para as pernas delas”. Isso na periferia de Tauá, cidade no sertão cearense.

Saúde Insider – E qual foi a saída?
Drauzio Varella – Ela pegou um equipamentozinho de som, levou para uma casa no meio do centro comunitário, onde tem apenas uma prateleira com a imagem de uma santa, e fez um forró de mulheres. Só mulheres. Não pode entrar homem de jeito nenhum. Elas chegam rindo porque, sem homem por perto, fica mais divertido entre elas. Na hora de começar o forró, vem a primeira providência: alguém coloca uma toalha e cobre a santa. E aí começa o baile. Passam horas dançando.

Saúde Insider – Isso é diferente…
Drauzio Varella –
Quando é que um médico ou uma médica ia pensar numa solução dessa? Esse sistema aponta o caminho que a saúde tem que seguir no país. E, para isso, temos de educar o povo, educar os prefeitos, porque esse sistema todo acontece no município. Nós temos 260 mil agentes de saúde e 140 mil agentes dedicados às endemias rurais. São 400 mil profissionais que atendem quase 70% das casas do Brasil, batendo de porta em porta.

Saúde Insider – Mas quais são os desafios neste momento?
Drauzio Varella
– O desafio maior que nós temos hoje é o acesso. Existe uma demanda muito grande e isso é um problema mundial. A Suécia tem esse problema, os Estados Unidos nem se fala. E o Brasil, é claro, tem uma tremenda desigualdade regional e uma desigualdade de distribuição de renda. Temos um número muito grande de pessoas muito pobres que vivem em condições muito difíceis. Conseguir dar acesso à saúde é complicado. Esse é o principal desafio.

Saúde Insider – Estamos evoluindo?
Drauzio Varella
Muito. Estamos melhorando. Hoje não tem uma criança sem pediatra, por exemplo. E temos determinadas áreas que são ilhas de excelência. Por exemplo, os transplantes de órgãos. O Brasil é o país que mais transplanta órgãos. Não em número, os Estados Unidos transplantam mais. Mas lá você paga pelo procedimento. Aqui, não. Nós temos o resgate que atinge todas as cidades brasileiras. Enfim, houve uma mudança. O que falta é justamente garantir o acesso a todos e impedir que as pessoas só existam para o sistema de saúde quando ficam doentes. Porque aí você não consegue atender todo mundo.

SAÚDE INSIDER – Como a saúde suplementar entra nesse jogo?
DRAUZIO VARELLA
– A saúde suplementar tem um problema. Nos últimos anos, o número de beneficiários está ao redor de 50 milhões de brasileiros. Um pouquinho mais, um pouquinho menos, não aumenta. Quer dizer que esse mercado está esgotado. Os que podem pagar plano de saúde são esses, e não tem variado. Por outro lado, existe um custo. A medicina é uma das únicas áreas da economia em que a incorporação de tecnologia aumenta os custos, não barateia. Não existia ressonância magnética, agora existe. Está mais caro. 

Saúde Insider – Buscar esse equilíbrio é importante.
Drauzio Varella
– Claro. Na saúde suplementar, o plano de saúde é obrigado a atender às questões contratuais. Agora, se você tem pressão alta, não controla a pressão alta, vai ter um infarto. Olha quanto isso vai custar para o sistema. Ou, se tem um AVC (Acidente Vascular Cerebral), vai ficar dependente de ajuda de fisioterapia, de exames médicos. Não pode ser assim.

Saúde Insider – O que deve ser feito?.
Drauzio Varella – A saúde suplementar tem de criar a Atenção Básica de Saúde. Os planos estão começando a entender isso agora. É uma medicina mais preventiva. Se alguém tem pressão alta, tem de ser acompanhado. Não pode deixar a pressão descontrolada.

Saúde Insider – Como o senhor avalia a formação de médicos no Brasil?
Drauzio Varella
– Nós abrimos faculdades de medicina pelo país inteiro. Isso não depende só de um critério técnico. Por quê? Porque uma faculdade de medicina hoje custa, em média, R$ 12 mil por mês. E isso dá uma receita grande para a universidade. Além disso, quando uma universidade consegue a aprovação para ministrar o curso de medicina, o valor de mercado dela aumenta. Então, esses foram os critérios para abrir tantas faculdades. Hoje nós só temos menos faculdades de medicina do que a Índia, que tem 1,4 bilhão de habitantes [são 55 mil vagas anuais de medicina no Brasil, segundo estudo da USP]. Tem alguma coisa de errado aí, não é? Claro que tem. Não podemos formar gente de bom nível, porque não tem gente de bom nível para ensinar aquelas pessoas em cidades que às vezes possuem 40 mil, 50 mil habitantes.

Saúde Insider – E como vê o uso da inteligência artificial na saúde?
Drauzio Varella – Eu vejo um impacto da inteligência artificial muito positivo.

Saúde Insider – Por quê?
Drauzio Varella –
A plataforma que acesso me fornece as referências bibliográficas das revistas de primeira linha quando vou estudar um caso. Era tudo o que eu queria saber quando comecei a fazer medicina. Talvez seja o caminho. Se as faculdades ensinarem os alunos, pelo menos, a entender o que os recursos de IA podem oferecer, nós podemos vencer essa dificuldade geral.

Saúde Insider – E fora do ambiente acadêmico?
Drauzio Varella – Na própria organização dos serviços médicos, a inteligência artificial pode fazer muito. É claro que você pode ter exageros, pode ter erros de interpretação, mas isso sempre foi assim. Com o tempo, as coisas vão caminhar melhor. Você pega uma radiografia, uma tomografia computadorizada, uma ressonância. A descrição que elas [ferramentas de IA] fazem é muito melhor do que aquela que o radiologista faz na rotina. Não quer dizer que ela vai interpretar. Vai depender do radiologista a interpretação daqueles dados, mas a descrição está ali.

Saúde Insider – Em relação às inovações, novas tecnologias, como o Brasil se posiciona em relação ao mundo? Estamos no mesmo patamar de países desenvolvidos?
Drauzio Varella
– O problema ainda é o acesso. Porque a tecnologia fundamental para atendimento em saúde nós temos no Brasil hoje.

Saúde Insider – E o que o Brasil pode agregar a outros países?
Drauzio Varella
– É o SUS. É atenção básica à saúde, atenção primária, que impede que tenhamos gastos astronômicos [para diagnósticos e tratamentos tardios].

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