Lado B da Cúpula com Eliane Medeiros
Prestes a deixar a Diretoria de Fiscalização da ANS, Eliane Medeiros prepara o lançamento de seu novo livro, Envelhescência 360º, no dia 3 de setembro, em Belo Horizonte
Eliane Medeiros, diretora de Fiscalização da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), é uma daquelas pessoas para quem a máxima “a primeira impressão é a que fica” definitivamente não se aplica. Quem a encontra em uma reunião de trabalho vê uma mulher austera, rigorosa e, por vezes, bastante brava. Quem a conhece em ambiente informal é rapidamente convidado a se sentar ao redor de uma mesa com um bom vinho ou quitutes mineiros. Sua cidade natal é Caratinga, Minas Gerais.
“Caratinga é a terra de Ziraldo, Agnaldo Timóteo, Míriam Leitão. E minha”, costuma dizer séria para, no fim, cair em gargalhadas. A frase revela bem quem ela é. Em Eliane, as duas convivem: recebe qualquer pessoa em sua sala com a hospitalidade mineira, mas não se furta ao combate diante de uma divergência. Encerrada a discussão, é a primeira a convidar a sala inteira para um vinho. Assim nasceram amizades de uma vida inteira.
Com a saída da ANS marcada para setembro, Eliane abriu as portas para o Saúde Insider um dia depois de receber da gráfica os primeiros exemplares de seu novo livro. Envelhescência 360º marca sua estreia na literatura de inspiração, depois de uma trajetória dedicada a publicações técnicas, entre elas a recém-lançada obra coletiva A Fiscalização na Regulação da Saúde Suplementar. “Ainda está com cheiro da impressão”, disse.
É sobre esse lado pouco conhecido que Eliane Medeiros conversou com a coluna Cúpula.
Saúde Insider – Artigos, livros técnicos e, agora, Envelhescência 360º. De onde veio a paixão pela escrita?
Eliane Medeiros – Sempre mantive diários, desde a adolescência. Parei de escrevê-los quando me separei. Parece que a minha voz se calou. Eu escrevia até poesias e acho que, enquanto estava apaixonada, permanecia ligada à escrita. Mas nunca havia escrito um livro.
Envelhescência 360º começou a surgir em 2021, quando passei a colocar no papel os sentimentos provocados pela transição da atividade profissional para a aposentadoria. Vivi uma espécie de baque, talvez “decepção” seja a palavra mais adequada, pela ausência de um rito de passagem. Foram 32 anos de dedicação à Defensoria Pública de Minas Gerais. Quando me aposentei, não houve um rito, um ritual. Eu recebi um carimbo na carteira. Só. Foi desse incômodo que nasceu o livro.
Saúde Insider – Sobre o que fala Envelhescência 360º?
Eliane Medeiros – O livro trata do envelhecimento a partir de uma analogia com a adolescência. Vivemos em uma sociedade na qual o capitalismo reduziu o valor da pessoa humana à sua capacidade de trabalhar. Se você trabalha, tem valor. Se está aposentado, vai para o “aposento”, para um lugar reservado, e permanece lá. A própria palavra “aposentado” me incomoda. Assim como “inativo”, que foi a expressão usada pela minha instituição. Por que inativo? A vida continua.
O que procurei mostrar no livro é que o envelhecimento representa apenas mais uma fase da vida e, como tal, deve ser encarado. Também procuro mostrar que não nos planejamos para o envelhecimento e para a aposentadoria. Planejamos ter filhos, casar, prestar concurso público, fazer vestibular ou comprar uma casa. Por que não fazemos nenhum planejamento para essa fase da vida? Isso decorre da cultura segundo a qual, ao se aposentar, a pessoa deixa de servir e se torna quase inútil.
A antropóloga Mirian Goldenberg diz que hoje devemos falar em “velhices”, no plural. Não existe uma única velhice. A velhice que me serve, que eu visto, pode não servir para outra pessoa. Minha proposta é mostrar que é possível fazer a gestão do próprio envelhecimento. Em alguns capítulos, digo isso diretamente ao leitor: “Este capítulo estou escrevendo para mim”. Foi assim, por exemplo, quando tratei da finitude e das diretivas antecipadas de vontade. Embora estivesse conversando com o leitor, também falava comigo mesma.
Para o prefácio, convidei o doutor Alexandre Kalache [médico e especialista em saúde pública, referência global em envelhecimento]. Mas entregar o manuscrito a uma autoridade que há 40 anos estuda o envelhecimento me deixou insegura. Quando finalmente recebi o prefácio, percebi, pelos comentários, que ele havia lido o livro com atenção. Li e reli o texto muitas vezes. A experiência confirmou o que penso: a literatura de inspiração nos torna mais vulneráveis e, por isso, é mais difícil, mas também muito mais apaixonante.
Saúde Insider – Você começou a escrever o livro antes de chegar à ANS e o publica justamente quando está deixando a agência. A experiência na regulação influenciou a obra?
Eliane Medeiros – Quando cheguei à ANS, em março de 2022, ainda estava terminando de escrevê-lo. À medida que conhecia a saúde suplementar do ponto de vista regulatório, comecei a pensar que talvez faltasse alguma coisa ao texto. Assim, alterei um único capítulo durante minha passagem pela regulação: “O escudo da cidadania”. Abri uma parte para falar sobre saúde pública e saúde suplementar, de maneira leve, mas oferecendo algumas orientações sobre o tema. Os outros capítulos permaneceram inalterados. Eram reflexões que já estavam prontas na minha cabeça, construídas a partir do que vivi e li.
Saúde Insider – O envelhecimento da população é um fenômeno que desperta atenção, mas também preocupação. Como você avalia a maneira pela qual o Brasil está lidando com uma sociedade que se torna cada vez mais velha?
Eliane Medeiros – Nosso sistema de saúde, e aqui falo tanto do público quanto do privado, não está preparado para isso. O modelo ainda é reativo, centrado na doença e marcado por um cuidado fragmentado. Quando se trata de envelhecimento e longevidade, ele está ainda menos preparado. Essa transformação precisaria começar com uma mudança estrutural, mas também cultural.
Hoje, a longevidade é apresentada como um indicador, um dado numérico. Precisamos ir além e falar sobre longevidade de maneira que ela deixe de ser vista como um problema e passe a ser compreendida como uma conquista da sociedade. Se é uma conquista, precisamos olhar para o envelhecimento e para a longevidade sob a perspectiva da dignidade e da cidadania. Mas não é isso que percebo.
No mercado das operadoras, regulado pela ANS, observo uma preocupação com as pessoas idosas principalmente porque são associadas a doenças e despesas. Pouco se fala em prevenção ou na criação de uma linha de cuidado voltada para essa população. E há um detalhe que não está sendo visto: o poder da economia prateada. Há oportunidades aqui.
Saúde Insider – Você mencionou prevenção. A população brasileira aceita assumir esse cuidado ou ainda prefere procurar o médico e o pronto-socorro somente quando a doença aparece?
Eliane Medeiros – Existe uma barreira porque a nossa cultura é marcada pela passividade. A pessoa não se cuida; deixa-se cuidar. Procura o médico apenas quando está doente ou quando percebe alguma alteração no corpo.
É justamente nesse ponto que entra o livro. Tento despertar nas pessoas a consciência de que, se desejam viver mais, preservando a mobilidade e aproveitando a vida, precisam fazer a gestão do próprio envelhecimento.
No livro, faço uma brincadeira: como você quer conduzir a gestão do seu envelhecimento? Prefere seguir o mote consagrado na voz de Zeca Pagodinho, “Deixa a vida me levar”, ou quer ter autonomia e ser protagonista da própria história? São dois caminhos possíveis, e é preciso escolher.
Saúde Insider – Você tem uma trajetória de publicação de textos técnicos e agora lança uma obra que se aproxima de um diário. Qual desses gêneros traz mais desafios?
Eliane Medeiros – Escrever é uma arte e, por isso, sempre é difícil. Mas penso que gestar um livro técnico ainda é mais fácil. Ele exige domínio do tema, rigor técnico, experiência e bagagem jurídica. A partir desses elementos, você constrói a obra.
A literatura de inspiração é diferente. Para mim, ela começa com a caneta do coração, com a alma. É como uma epifania. E isso traz vulnerabilidade, porque muitas vezes falamos sobre nós mesmos sem saber como o leitor receberá aquilo, quais serão as críticas ou os julgamentos. É quase como se nos despíssemos. Isso é muito difícil.
Por tudo isso, considero a literatura de inspiração muito mais difícil. Mas também é muito mais apaixonante.
Saúde Insider – Você tem outros textos ou livros previstos para publicação?
Eliane Medeiros – Tenho alguns trabalhos que serão publicados e que resultaram de convites recebidos ao longo do mandato, que termina em 24 de setembro. Há artigos para a revista da Unidas, para a revista do Instituto Gilmar Mendes, para uma publicação da Universidade de Coimbra, na área de Direito Biomédico, e para a OAB de São Paulo. São vários textos que já enviei.
Em relação a livros, tenho dois projetos. Não acredito que sejam lançados ainda este ano. Um deles é um livro técnico na área de regulação da saúde, escrito com uma pessoa que admiro muito. Na área da fiscalização, especificamente, a literatura ainda é muito escassa. Por isso, é uma oportunidade importante. Serei coautora, mas ainda vou manter o nome do autor em segredo.
O outro projeto também pertence à literatura de inspiração e aprofunda o tema do envelhecimento.
Saúde Insider – Seu mandato termina em setembro. Se tivesse de apontar um legado deixado para a regulação brasileira, qual seria?
Eliane Medeiros – A transformação que promovemos na fiscalização é, para mim, um legado. O novo modelo, do qual a RN nº 623/2024 é uma das bases, atualizou uma estrutura centrada apenas no comando, no controle e na aplicação de multas. Tenho a impressão de que trouxemos a fiscalização para o século atual.
A intenção do regulador não é punir. O que ele deseja é que o problema do beneficiário seja resolvido. A punição deveria ser o último recurso. Queremos resolutividade e que ela comece na origem, dentro da própria operadora.
Esse foi o meu maior legado. Costumo brincar que sou uma “defensora reguladora”. Tenho um carinho muito grande pela RN nº 623/2024 porque reconheço, nas letras dessa norma, a minha atuação como defensora pública. Vejo ali o meu DNA, a minha impressão digital.
Saúde Insider – Você está deixando a ANS. O que pretende fazer a partir de agora?
Eliane Medeiros – O que vou fazer? Estou planejando um “outubro sabático”. Meu mandato termina no fim de setembro, que será um mês muito movimentado.
No dia 3 de setembro, lanço o livro em Belo Horizonte, na Associação das Defensoras e dos Defensores Públicos de Minas Gerais. Nos dias 12 e 13, participarei com o livro da Bienal, em São Paulo. Também pretendo organizar um lançamento no Rio de Janeiro para as pessoas que conheço por lá.
Outubro será sabático. Em novembro, tenho palestras e fui convidada para a FISWeek. Minha quarentena termina em março de 2027. Antes disso, não posso assumir uma nova função. Tenho convites para continuar trabalhando no governo e estou avaliando o que poderá surgir na iniciativa privada.
A saúde sempre me encantou e continua me encantando. Gosto muito dessa área. Vamos ver o que acontecerá.
