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Entrevistas

Gustavo Ribeiro, da Abramge: “Pequenas e médias operadoras têm de ter tratamento diferenciado”

Presidente da entidade apoia demanda do setor, encampada pelo ministro da saúde, para criar diretoria voltada aos planos menores dentro da ANS

Rui Barbosa, em discurso de paraninfo para os formandos de 1920 da Faculdade de Direito de São Paulo, tratou do tema da desigualdade. “Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real”, disse na ocasião o escritor, jurista, diplomata e filólogo. O conceito da mensagem de Barbosa foi citado por Gustavo Ribeiro, presidente da Abramge (Associação Brasileira dos Planos de Saúde), ao defender a criação de uma diretoria específica da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) para atender às demandas das pequenas e médias operadoras. “Tem que ter esse olhar diferenciado. Não pode tratar todos os players da saúde de maneira igual. Existem muitas peculiaridades”, disse Ribeiro, sobre o movimento obtido com exclusividade pelo Saúde Insider junto a fontes do Ministério da Saúde. O ministro apresentou a ideia durante uma reunião com representantes do segmento na sede da entidade e disse que a levará à direção da ANS para discussão.

Ribeiro falou ainda sobre outro avanço do setor, relacionado à compra de medicamentos, que representam 7% das despesas assistenciais das operadoras, segundo estudo da Interfarma. De um lado, a Abramge tem conversado com a indústria farmacêutica para negociar melhores preços, inclusive sobre a possibilidade de pagar pelos medicamentos por etapas, de acordo com a eficácia dos tratamentos, como ocorre na Europa e nos Estados Unidos. De outro, discute-se também a possibilidade de o SUS (Sistema Único de Saúde) fazer megacompra de medicamentos e repassá-los, com ágio, aos planos de saúde, para baratear os produtos. Confira abaixo a entrevista em que o presidente da Abramge discorre ainda sobre os desafios da sustentabilidade financeira do setor, que registrou receita de R$ 173,2 bilhões no primeiro semestre deste ano, e temas como judicialização, inovação, rol taxativo, juros e fusões e aquisições.

Saúde Insider – Como a Abramge chega aos 60 anos de atividades?
Gustavo Ribeiro –
A Abramge chega aos 60 anos como um retrato vivo da história do setor de saúde suplementar. Teve uma importância fundamental em sua fundação, de dar voz ao setor diante dos vários stakeholders, e hoje segue nessa jornada, e tem um papel importantíssimo dentro do desenho do setor de saúde suplementar. Como qualquer outro setor, existem empresas grandes que são importantíssimas, grandes geradoras de emprego, grandes recolhedoras de tributos, estão na vanguarda da tecnologia. E, mesmo que apresentem mais tecnologia, nem sempre conseguem baratear, porque, na saúde, a lógica é um pouco diferente quando se fala de incremento e inovação. Mas temos todo um ecossistema que precisa atender a um país de dimensão continental como o nosso. Para isso, é preciso capilaridade. Não tem capex, não tem investimento que faça com que uma empresa esteja em todos os lugares do Brasil ao mesmo tempo.

Saúde Insider – Qual o reflexo desse cenário?
Gustavo Ribeiro –
Nesse aspecto, entra a importância das pequenas e médias operadoras, que atuam em todas as regiões do Brasil e são os principais associados da Abramge. São elas as fundadoras da entidade, seis décadas atrás, que começaram a dar suporte ao atendimento privado de saúde e hoje trazem essa cobertura nacional. Temos um olhar muito atencioso para a questão do impacto dos custos, o impacto da regulação, a questão do Rol da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), a incorporação de tecnologias. Todos esses são temas muito sensíveis para nossas empresas.

Saúde Insider – Além de garantir acesso do usuário ao sistema de saúde, a busca pela sustentabilidade financeira do setor é o principal desafio?
Gustavo Ribeiro –
Sim. No fundo, quando falamos de seguro-saúde, de prestação de serviço de saúde suplementar, é muito diferente do seguro de um carro ou de um imóvel, que as pessoas fazem para não usar. O seguro-saúde a pessoa adquire para usar. O equilíbrio de um plano de saúde está entre aquilo que você junta e administra, que é o dinheiro do usuário, que paga a mensalidade, e o que vai ser gasto no momento em que ele precisar. Existem inúmeras outras pautas, mas essa é a principal, porque, sem a sustentabilidade financeira, nada mais existe. Se não tivermos um ambiente regulatório e legislativo propício a manter o equilíbrio, as empresas não vão conseguir entregar ao cidadão o que está expresso no contrato.

Saúde Insider – Temos acompanhado algumas agendas de entidades do setor privado e do próprio Ministério da Saúde, algumas inclusive em conjunto. Há uma compreensão por parte da sociedade de que a saúde suplementar está de um lado e o SUS de outro. É uma visão distorcida?
Gustavo Ribeiro –
O sistema de saúde é único, como estabelece a Constituição de 1988. O SUS é algo inimaginável no mundo. Nenhum país de dimensão continental, com o número de habitantes do Brasil, conseguiu chegar perto de ter um sistema tão bom como o SUS. É um sistema integral, que acolhe a todos. Mas, como ele é único, tem dois prismas: o público propriamente dito e o da saúde suplementar, que é a oportunidade que o constituinte deu para o ente privado poder trabalhar nesse setor e oferecer esse atendimento, esse seguro. A verdade é uma só: um sistema não vive sem o outro.

Saúde Insider – Um formato completo?
Gustavo Ribeiro –
O constituinte foi muito inteligente, pois sabe que o recurso público é finito e sabe que o ente privado tem uma capacidade de geração de força de trabalho muito grande. Ele previu que haveria um sistema público muito robusto que, com o tempo, iria encarecer. Assim, seria preciso arejar para que quem tenha capacidade econômica pudesse ser atendido em outro modelo. Esses sistemas são interdependentes. Quanto mais brasileiros estiverem na saúde suplementar [hoje são 53,1 milhões], mais se desafoga o uso do recurso público dentro do SUS.

Saúde Insider – E pelo lado da saúde suplementar?
Gustavo Ribeiro –
A saúde suplementar, por sua vez, acaba tendo no SUS um contrapeso, com o ressarcimento dos atendimentos de beneficiários de planos que usam o sistema público. Esses sistemas são vasos comunicantes, fundamentais um para o outro. Não se pode tirar da equação, por exemplo, os hospitais filantrópicos e as Santas Casas. Muitos deles, para encontrar equilíbrio e sustentabilidade, atendem o SUS em 60%, 70% de sua capacidade instalada. E têm ali 30% para atender o plano de saúde local, que acaba oxigenando e trazendo receita diferente. Outro exemplo importantíssimo é o programa Agora Tem Especialista.

Saúde Insider – A Abramge vê com bons olhos esse programa?
Gustavo Ribeiro –
Com muitos bons olhos.

Saúde Insider – Por quê?
Gustavo Ribeiro –
Todo e qualquer projeto que traga simbiose e aproveite o parque de saúde que existe é muito bem-vindo. Porque acaba existindo alguma ociosidade no sistema. Estamos falando de um conglomerado enorme de hospitais, ambulatórios e clínicas, tanto públicos quanto privados. Quando falamos de um projeto de país, um projeto de nação, temos que olhar para o todo. É muito inteligente encontrar e preencher essas lacunas. Podemos, inclusive, aprimorar.

Saúde Insider – De que maneira?
Gustavo Ribeiro –
Mencionei que, se um usuário do plano de saúde é atendido no hospital do SUS, o plano de saúde ressarce o sistema público por esse atendimento. Temos que trazer outras mecânicas em que o contrário também possa acontecer. Porque pode acontecer de um usuário que não tem plano de saúde, ou está em carência, ser atendido pelo plano. Poderia se buscar alguma forma de compensação pelo mesmo ressarcimento. Existem muitas mecânicas que ainda podem ser incorporadas, mas todas sempre muito bem-vindas e bem-vistas em benefício de quem interessa, que é o paciente. Se o paciente é público ou privado, ele tem que ser bem atendido, com qualidade e rapidez.

Saúde Insider – Após um período de cinco anos consecutivos de prejuízos, o setor voltou a registrar resultados positivos como um todo. Como avalia essa retomada do setor?
Gustavo Ribeiro –
A pandemia foi algo inesperado, uma situação extrema. Ninguém estava de fato preparado para isso. Quando começa a pandemia e todo mundo fica em casa, os planos de saúde tiveram um desempenho econômico-financeiro muito bom, na medida em que os serviços de saúde não foram utilizados. E, obviamente, as pessoas estavam preocupadas e assustadas com a pandemia. Esse período de uns quatro meses gerou um caixa muito grande, sem sinistralidade. Criou-se uma falsa impressão de que esse momento teria sido muito bom para os planos de saúde e teria favorecido o setor, o que também é uma ilusão.

Saúde Insider – Por que uma ilusão?
Gustavo Ribeiro –
Porque, quatro meses depois, quando os atendimentos eletivos começam a voltar ao normal, essa curva de sinistralidade aumentou por muitos motivos. Até porque, depois da pandemia, muita gente voltou a olhar para sua saúde. Um dos ensinamentos da pandemia foi justamente esse: o olhar para a saúde. Isso aumentou a utilização dos planos de saúde. No ano seguinte, 2021, e nos praticamente três anos seguintes à pandemia, até 2024, houve um aumento muito grande da utilização dos planos, o que acabou pressionando demais o setor.

Saúde Insider – Houve mais fatores, além da pandemia, para o aumento dessa pressão sobre o setor?
Gustavo Ribeiro –
A isso se somam legislações muito permissivas, que inclusive favoreceram o incremento de muitas fraudes no setor. Uma regulação que também acabou, ora por conta da pandemia, ora por conta de alguns clamores sociais que talvez não tenham tido o tratamento técnico muito adequado, promovendo um abrandamento que acabou favorecendo o descontrole. O que acabou gerando impacto muito grande naquele equilíbrio tão essencial.

Saúde Insider – Apesar de o setor como um todo gerar resultados positivos, 30% das cerca de 700 operadoras em atividade permanecem registrando resultados negativos. A que se deve esse quadro? Há uma pressão maior sobre as médias e pequenas, por exemplo?
Gustavo Ribeiro –
Arrisco dizer que, entre as pequenas e médias empresas, mais de 40% fecham sem lucro operacional.

Saúde Insider – O que acontece?
Gustavo Ribeiro –
Em um país com uma taxa de juros tão alta — Selic a 14% ao ano —, todas essas empresas, das maiores às menores, por fornecerem um tipo de seguro, precisam ter lastro. A regulação e a legislação exigem lastro. Elas têm ativos garantidores, reservas técnicas, dinheiro guardado. Esse dinheiro, a juros altos, rende um lucro grande. Só que a empresa não tem que ser medida por isso. O lucro operacional, a operação, não se paga. Circunstancialmente, como os juros estão altos, isso acaba dando uma mascarada.

Saúde Insider – De certa forma, um resultado enganoso.
Gustavo Ribeiro –
Tem um lucro, mas ele é financeiro, não operacional. Significa dizer que, se daqui a dois ou três anos a taxa de juros reduzir, voltar para o patamar histórico de 4% ou 5%, e essas empresas fecharem com prejuízo operacional, elas não vão ter lucro financeiro. Então, vão fechar no prejuízo. Quando falamos de sustentabilidade, não estamos olhando muito para o operacional. E aí existe uma infinidade de ofensores.

Saúde Insider – Quais?
Gustavo Ribeiro –
Tem fraude, tem judicialização predatória. E aqui a gente não fala do direito que a pessoa tem de acesso à Justiça. Não é isso. Hoje existe uma indústria de judicialização que acaba atacando o plano de saúde de maneira muito feroz. E isso gera impacto no equilíbrio, na sustentabilidade. Afeta principalmente as médias e pequenas operadoras. E existe uma importância muito grande delas, porque são elas que estão nos rincões do Brasil. Chegam aonde ninguém chega. Precisam ser preservadas também.

Saúde Insider – Até por conta dessas peculiaridades da atuação das médias e pequenas pelo interior do país, está se discutindo a criação de uma diretoria específica dentro da ANS para atender a suas demandas. Em que pé está essa discussão?
Gustavo Ribeiro –
Fizemos um encontro com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, na Abramge, em que ele suscitou a ideia de se criar uma diretoria ou atribuir a uma diretoria da ANS esse olhar mais atento para pequenas e médias operadoras, dada a relevância e a importância delas no setor de saúde. Acredito que ele vai levar a cabo porque trata com muita seriedade esses temas e sempre com olhar muito atento a quem mais precisa. Essa é uma marca do Padilha. Acredito que vai andar.

Saúde Insider – Como o setor observou essa ideia?
Gustavo Ribeiro –
Com muito bons olhos. Sentiram-se extremamente prestigiados e acolhidos pelo ministro. Isso vai ser algo inédito. Tem que ter esse olhar diferenciado. Não pode tratar todos os players da saúde de maneira igual. Existem muitas peculiaridades. Por exemplo, uma empresa que vende mais plano de saúde individual tem que ter um olhar diferenciado, porque é um produto importante para a população. Uma pequena ou média empresa tem que ter um olhar diferenciado dentro de suas peculiaridades, porque atende uma determinada região onde vai ser muito difícil outro player chegar. Sempre que temos esse olhar pela especificidade, é muito importante. É como Rui Barbosa dizia: tratar os desiguais de maneira desigual, na medida de sua desigualdade. Isso é igualdade, porque não se pode tratar todo mundo da mesma maneira.

Saúde Insider – A Abramge está junto para fazer isso virar?
Gustavo Ribeiro –
Com certeza absoluta. Conta com o total apoio da Abramge.

Saúde Insider – Vimos recentemente grandes movimentações de fusões e aquisições. Isso deve ser acentuado nos próximos anos ou deve arrefecer?
Gustavo Ribeiro –
O mercado de saúde se reinventa. Sem tocar em nenhum caso específico, quando a gente fala de equilíbrio, falamos em sustentabilidade. Para termos isso, falamos muito em sinergia. Um exemplo de sinergia que não necessariamente envolve um M&A é a contratação de uma grande operadora por uma pequena ou média para atender o cliente naquela regionalidade. Isso é uma simbiose. Vai ter hora que essa simbiose vai ser uma fusão, uma aquisição. O mercado busca sinergia para buscar equilíbrio, para buscar sustentabilidade. São ciclos econômicos, cada um tem a sua especificidade, mas acho que isso é uma busca constante do setor: sinergia para ter sustentabilidade e rentabilidade.

Saúde Insider – Os juros altos atrapalham as fusões e aquisições? Porque, com eles, as empresas buscam outros investimentos, não?
Gustavo Ribeiro –
Não é que atrapalhe, mas existe um desestímulo ao investimento. Isso não é bom em nenhum setor, nem na saúde, nem na infraestrutura, nem no agro. Obviamente, questão de juros, macropolítica, momento econômico, momento político, guerra, eleição, são muitos fatores que influenciam. Agora, sim, juros altos inibem investimentos. Há que se buscar um equilíbrio. A área da saúde precisa de investimento constante. Porque sofre daquele paradigma: é uma das raríssimas áreas do conhecimento humano em que, quanto mais tecnologia você põe, em vez de baratear, às vezes encarece.

Saúde Insider – Envelhecimento da população e inovação médica, seja de medicamentos, equipamentos ou terapias, tornam a operação do setor mais desafiadora em que medida?
Gustavo Ribeiro –
Aí a gente chega em mais um paradigma. É o setor dos paradigmas. A expectativa média de vida no começo do século anterior não passava dos 42 anos. A inovação tecnológica, principalmente a farmacêutica, trouxe uma longevidade maior. Isso é muito bom, mas é um desafio. Não só da saúde, é um desafio previdenciário, por exemplo. Mas qual é o paradoxo da saúde? Sim, a humanidade chegou aqui por conta do desenvolvimento de medicamentos, remédios, exames. Só que tudo isso é muito caro. Estamos falando sempre nesse mantra. Quais são as mecânicas que vão possibilitar essa incorporação?

Saúde Insider – E quais são?
Gustavo Ribeiro –
Alguns anos atrás, quando falávamos em farmacologia, era algo para muitos, de uma maneira massificada. Agora, estamos entrando na fase dos medicamentos biológicos. É o remédio tailor-made, feito para você. Alguns são feitos com o seu DNA. Não vai servir de nada para mim. E isso não gera escala. E encarece mais ainda.

Saúde Insider – O que fazer?
Gustavo Ribeiro –
Encontrar mecânicas de incorporação dessas tecnologias, desses medicamentos, desses exames, que possibilitem que o custo seja absorvido pelo nosso sistema. Como é que você faz isso? Compartilhamento de risco, por exemplo, que é algo que acontece no mundo inteiro. Na Inglaterra, nos Estados Unidos, paga-se determinado tipo de medicamento, principalmente esse que tem características de ser imunobiológico, praticamente feito para você, é caríssimo, custa milhões de dólares, [a operadora] paga pelo desfecho [do tratamento], se funcionar.

Saúde Insider – Como funciona esse modelo?
Gustavo Ribeiro –
Criam-se etapas: paga uma parcela, usa o medicamento, ele surte efeito, paga a segunda parcela, aplica de novo o medicamento. Na medida em que ele surte efeito, vai entregando o que promete, vai sendo pago. Isso vai sendo amortizado. O que não dá é pagar um medicamento multimilionário e ele não fazer efeito. Isso não é mais aceitável no mundo moderno. No mundo em que vivemos, existe esse contraste entre a abundância do que ele vai te entregar, se funcionar, e a escassez de recursos que existe para pagar um medicamento desse.

Saúde Insider – Como a Abramge tem se posicionado sobre isso?
Gustavo Ribeiro –
É fundamental um diálogo, com construção, junto à indústria [farmacêutica]. A Abramge tem um papel relevante. Afinal, 40% de todas as vidas que existem na saúde suplementar estão dentro das associadas à Abramge [21,2 milhões de beneficiários, de um total de 53,1 milhões]. É importante esse diálogo com a indústria, com o legislador, com o regulador, com a Anvisa, com a Conitec [Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS], com o SUS.

Saúde Insider – Qual o risco se esse diálogo travar?
Gustavo Ribeiro –
Se a gente não evoluir nessas mecânicas de aquisição desse material de uma maneira muito clara e muito afirmativa, corremos o sério risco de que todos os desenvolvimentos tecnológicos sejam maravilhosos, mas não sejam utilizáveis. É dar o tiro contrário, pois começa a excluir as pessoas de ter esse tipo de acesso, o que é muito ruim. Isso não é bom para ninguém, todos perdem. Ninguém aqui defende que a indústria farmacêutica não tenha retorno. Não é isso. Mas precisamos adequar as mecânicas de aquisição e incorporação, sob pena de inviabilizar o próprio sistema.

Saúde Insider – Mas a indústria já está com esse pensamento também? Está virando a chave?
Gustavo Ribeiro –
No Brasil, ainda não. Precisamos avançar com essa agenda, uma agenda prioritária para o próprio SUS. Senão, corremos o sério risco de excluir o Brasil dos maiores e mais importantes avanços dos últimos anos no que diz respeito à saúde.

Saúde Insider – Ainda falando sobre medicamentos, a Abramge tem estreitado a relação com a indústria farmacêutica, responsável por 7% das despesas assistenciais das operadoras, para poder negociar melhor o valor dos produtos. O que tem sido conquistado com esse movimento?
Gustavo Ribeiro –
A busca de diálogo constante é necessária. É algo que a Abramge pratica muito. Temos muitos desafios. Por exemplo, começa-se a discutir questões, algo que existe muito no Reino Unido, que é a compra do poder público com o valor silenciado. Veja, não é uma questão de o modelo ser bom ou ruim. Ele só não pode ser excludente. Isso é o que não pode acontecer. A compra não pode ser silenciada pelo ente público e essa diferença de um eventual desconto dado para depois ser cobrado em cima da saúde suplementar.

Saúde Insider – Como isso está?
Gustavo Ribeiro –
Buscamos evoluir nessas pautas, mas elas ainda estão aquém do que deveriam estar. O SUS é o maior comprador de saúde do Brasil. É importante que o SUS e a saúde suplementar caminhem juntos, inclusive nessa agenda, que é fundamental para as pequenas e médias operadoras. Isso define o poder de compra delas, o que vai ajudar depois na questão do equilíbrio e da sustentabilidade de cada uma dessas operadoras.

Saúde Insider – E também existe um debate para que as operadoras comprem alguns medicamentos do SUS. O SUS compraria e revenderia para as empresas do setor. É possível implementar esse mecanismo?
Gustavo Ribeiro –
O SUS realmente pode ser o comprador único desses produtos para a saúde suplementar. A lei permite isso. Inclusive, permite que o SUS coloque até um ágio para poder vender. Seria algo que vemos com muitos bons olhos, porque protege o sistema como um todo. Afasta um pouco essas iniquidades, em que é possível soltar muito a mão de um lado e pesar do outro. Um desenho que seria importante considerar, se o tema da compra silenciada caminhar, é a oportunidade que o setor suplementar tem de adquirir do SUS esses medicamentos. Isso é bom para o Brasil. Isso é bom para o usuário do SUS, é bom para o usuário do plano de saúde. É um ganha-ganha.

Saúde Insider – Está muito longe de acontecer?
Gustavo Ribeiro –
Vai exigir muita construção para se chegar a um grau de maturidade que ainda não existe. Até porque a própria compra silenciada para o SUS ainda é um pouco embrionária. Ainda não é algo que esteja com uma maturação grande. Mas é melhor que a gente comece a construir isso juntos do que deixar que haja toda uma construção para o SUS e, depois, o setor suplementar pensar no assunto. Se pudermos fazer essa construção em conjunto, fica muito mais adequado, muito melhor para o usuário.

Saúde Insider – Judicialização é sempre um tema complexo, em um setor que já é muito regulado. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que, apenas nos cinco primeiros meses deste ano, mais de 302 mil ações contra a saúde ingressaram no Judiciário brasileiro. O recém-lançado Concilia+Saúde marca um novo momento para o setor? Vai ser capaz de minimizar o problema?
Gustavo Ribeiro –
Temos um ambiente muito propício à judicialização. É um país em que se judicializa praticamente tudo, e geralmente esse gasto não está previsto. Há alguns fatores que impactam. Existe uma insegurança jurídica muito grande na área da saúde por gaps legislativos e regulatórios. A gente não pode acreditar que uma lei de 1998 esteja apta a reger o setor de saúde de 2026, cujas tecnologias são outras. A sociedade é outra, tudo é diferente. Precisamos avançar nisso. E a regulação tem que estar adequada à legislação.

Saúde Insider – E o momento atual é totalmente distante disso, não?
Gustavo Ribeiro –
Estamos muito atrás. Temos que buscar fomentar toda e qualquer iniciativa que ajude a apaziguar a nossa população. E uma das formas de apaziguar é sair do Poder Judiciário. Há de se ter maturidade para que as pessoas tratem os seus problemas sem ter que recorrer a um terceiro, a um ente estatal ou ao Judiciário para arbitrar. Quando judicializa, é uma fraude, uma judicialização abusiva ou algo que não está no contrato. Não estou entrando aqui no aspecto humano, porque, em sã consciência, é muito difícil alguém negar um tratamento, negar um medicamento. Estou discutindo se tem o direito ou não tem direito.

Saúde Insider – Qual o maior reflexo desse contexto de insegurança judicial?
Gustavo Ribeiro –
O que acaba acontecendo? Bilhões e bilhões de reais de recursos que deveriam estar no sistema, ajudando a fomentar a prevenção na saúde, tratamentos e o desenvolvimento e a incorporação de medicamentos mais caros estão indo pelo ralo. Esse é um problema que talvez nunca deixe de existir, mas ele tem que voltar para um patamar civilizatório. Hoje é uma guerra em que todos perdem. Tem um custo de administração judiciária enorme. Então, falamos de conciliação, que é muito bem-vinda. Quando falamos em fomentar um NatJus [Núcleo de Apoio Técnico do Poder Judiciário, para que a decisão do juiz seja mais técnica do ponto de vista da medicina], é extremamente válido. Qualquer forma de sair da judicialização, desde que traga segurança para as partes e ninguém seja lesado, é sempre muito bem-vinda.

Saúde Insider – Rol taxativo e Rol exemplificativo. Como a Abramge observa essa discussão?
Gustavo Ribeiro –
Isso foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal na ADI [Ação Direta de Inconstitucionalidade] 7.265, em setembro do ano passado. O rol é taxativo ou exemplificativo? É uma discussão que não tem a menor lógica.

Saúde Insider – Por quê?
Gustavo Ribeiro –
Ele não pode ser exemplificativo por um simples ponto. Um plano de saúde é o acesso a uma rede de hospitais que tem um preço. E, para precificar, existem parâmetros, com regras de incorporação de tecnologias [medicamentos] nesse Rol. Isso também está na equação. Ao longo dos anos, vamos medindo e aplicando reajustes condizentes com a realidade do Rol. E ele tem de ser taxativo porque temos que ter um valor, um preço. Se o rol é qualquer coisa, se é um mero exemplo, como é que eu defino o preço? Esse rol é de R$ 1 bilhão ou de R$ 100 bilhões?

Saúde Insider – Como se fosse navegar às escuras…
Gustavo Ribeiro –
Essa é a insegurança jurídica que permeia o setor e que justifica esse número de judicialização astronômico. Então, quando o Supremo decide que o Rol é taxativo, ele tem uma regra clara, que vai ditar como esse jogo funciona. Fixa que é taxativo e existem regras para usar tecnologias, medicamentos, exames e produtos que não estão no Rol. Tem regra de utilização, com cinco itens que se somam, são cumulativos, para que você tenha aquilo que não está no Rol. É uma forma de trazer um pouco de transparência e ajudar o plano de saúde a precificar.

Saúde Insider – E quem mais perde, é o beneficiário?
Gustavo Ribeiro –
Quando você assina contrato do seu plano, é preciso saber a regra clara daquilo a que tem direito e daquilo a que não tem direito. Para você pagar por aquilo a que tem direito e não desejar que o outro tenha direito a algo que não está naquele contrato. Porque é do seu dinheiro que vai sair. Essa lógica do mutualismo é importantíssima. Ela tem que ser mais difundida. Temos que trazer mecânicas, ajudar. É o papel da Abramge fomentar, fazer o advocacy para que as regras sejam claras, para que o juiz possa aplicá-las de maneira clara e sabendo exatamente o que está fazendo.

Saúde Insider – Pesquisas clínicas tiveram um avanço importante nos últimos dois anos. Qual a contribuição das operadoras nesse processo e no que o Brasil pode se transformar com esses estudos?
Gustavo Ribeiro –
Pesquisa clínica é fundamental, é avanço tecnológico. Mas, de novo, tem que ter regra clara. Não adianta achar que vai investir em pesquisa clínica, em prevenção à saúde, sem que a regra seja muito clara da utilização e depois da incorporação disso. Como será usado esse substrato? Existe fomento? Sim. Poderia ser melhor? Com certeza absoluta. Precisa de um ambiente que permita isso. Hoje, da maneira como estão pressionadas, as empresas, sem lucro operacional, não conseguem focar o olhar para aquilo que deveriam. Estão mais olhando para corrigir a rota, corrigir os problemas, do que para olhar para frente e avançar. É desse estado de coisas que a gente precisa tirar um pouco o setor, puxar um pouco o setor para fora.

Saúde Insider – O SUS tem sido palco de estudos e referência para outros países do mundo, inclusive os mais desenvolvidos. O que a saúde suplementar brasileira pode oferecer ao debate global de saúde?
Gustavo Ribeiro –
Participo de fóruns de discussão no exterior. O Brasil tem o melhor sistema de saúde do mundo. Tem a melhor rede de hospitais do mundo. Tem as melhores tecnologias, assim como as que existem lá fora. O cuidado e a atenção do médico brasileiro, da enfermeira brasileira, são muito diferenciados. O brasileiro é acolhedor, é extremamente cuidadoso, é aquele sangue latino mais quente.

Saúde Insider – O que falta?
Gustavo Ribeiro –
O que falta? Falta ambiente regulatório, ambiente legislativo, ambiente judicial melhores. Porque todo o resto a gente tem. Fazemos a medicina melhor do que qualquer lugar do mundo. Obviamente, você tem grandes potências que investem muito dinheiro em pesquisa e desenvolvimento. O Brasil ainda não está na vanguarda, embora faça, mas ainda não está na vanguarda. A saúde suplementar pode ajudar muito, o SUS pode ajudar muito, o Ministério da Ciência e Tecnologia pode ajudar muito na parte de desenvolvimento. Isso é algo em que temos que avançar.

Saúde Insider – Há esse espaço de avanço?
Gustavo Ribeiro –
O Brasil tem potencial. O Brasil tem pesquisadores maravilhosos. Mas o ambiente é tão complexo que ficamos ajustando e não estamos olhando para frente. Temos uma saúde suplementar, centros de pesquisa e desenvolvimento maravilhosos. E, no Brasil, pela dimensão geográfica gigantesca, temos várias etnias que formam a população. Temos aqui um substrato do que é o planeta Terra. Aqui se consegue fazer pesquisa de tudo, com tudo. É algo em que a gente pode ajudar.

Saúde Insider – Como imagina e como espera que a saúde suplementar esteja daqui a dez anos?
Gustavo Ribeiro –
Tem que estar melhor. Não tem no easy way out [não existe saída fácil]. Tem que avançar nesse tema da sustentabilidade. É um ativo importantíssimo para o Brasil, para o futuro do país. A gente vai viver mais. Precisamos avançar para ser melhor, achar formas de financiar isso. Temos desafios enormes. Não vejo, daqui a dez anos, a saúde suplementar senão em outro lugar que não o da sustentabilidade. Temos que fazer.

Saúde Insider – Caso contrário…
Gustavo Ribeiro –
Se não fizermos, vai colapsar. Esse sistema não aguenta mais dez anos da maneira como está hoje. As famílias ficarão desassistidas, as empresas quebrarão e o SUS vai ficar ainda mais sobrecarregado, com orçamento menor. Não tem volta, não tem outro caminho, a não ser buscar sustentabilidade. Trabalhar essas mecânicas de incorporação, diminuir a judicialização, fazer acordos com as farmacêuticas dentro daquilo que é bom para a população.

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