CEO da SulAmérica, Raquel Reis: “Flexibilização pode reduzir custos de planos em até 25%”
Executiva propõe alternativas para criação de produtos usados em outros países, como pagamento de franquia, para ampliar o número de beneficiários
Altos custos operacionais e margens apertadas fazem executivos de operadoras de saúde quebrarem a cabeça para encontrar alternativas que melhorem os resultados das empresas sem comprometer o atendimento. Raquel Reis, CEO da SulAmérica Saúde e Odonto, sugere algumas alternativas para alcançar o equilíbrio necessário. A executiva vê espaço para oferecer planos com preços até 25% menores, a partir da corresponsabilidade entre os diferentes elos da cadeia e de uma maior participação dos usuários da saúde suplementar.
O modelo sugerido implica flexibilização das regras e prevê que o beneficiário pague uma espécie de franquia, a exemplo do seguro de automóvel, pelos atendimentos ambulatoriais. “Temos que pensar em fazer diferente. Cada vez mais precisamos de flexibilidade”, afirmou a executiva, que também é presidente da FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar). A CEO da SulAmérica comanda uma carteira de 2,4 milhões de vidas em planos médico-hospitalares e 2,5 milhões de beneficiários de planos odontológicos, segundo dados da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) referentes a junho. Reis concedeu a entrevista ao Saúde Insider em São Paulo, durante o ConaRH, considerado um dos maiores eventos de recursos humanos e gestão de pessoas do Brasil.
Saúde Insider – Qual é o retrato do benefício de saúde nas empresas hoje?
Raquel Reis – Em primeiro lugar, hoje temos 80% dos beneficiários de planos de saúde ligados a contratos coletivos empresariais. A pujança desse segmento é inegável e entra na questão de atração e retenção de talentos. Dependendo do ramo de atividade, ainda que não por obrigação sindical, é preciso ter um bom benefício, senão não se consegue atrair ou reter determinadas pessoas.
Saúde Insider – Como observa a participação do setor no país?
Raquel Reis – A participação da saúde suplementar no país é muito tímida. Ela poderia ser maior, até no sentido de desafogar um pouco o SUS. Mas, para isso, precisamos de mais flexibilidade na formação de produtos, olhar um pouco mais para fora, entender o que existe em outros países e o que podemos desenhar aqui.
Saúde Insider – Que tipo de solução?
Raquel Reis –A questão da franquia, por exemplo, como funciona no automóvel. Se você bate um carro hoje, sabe que até determinado valor é responsável por aquela franquia. Na saúde, hoje isso não existe. A coparticipação, ou até mesmo a franquia, é limitada a um percentual, a um pedacinho do valor total do procedimento. Estou falando de procedimentos ambulatoriais. Para procedimentos de altíssimo custo, com internação prolongada, isso não faz sentido. Mas é o tipo de situação que temos de avaliar. Pensar em fazer diferente, porque o Brasil tem uma população muito diversa, as regiões são muito distintas e, cada vez mais, precisamos de flexibilidade para isso.
Saúde Insider – Isso ajudaria a aumentar a base de beneficiários?
Raquel Reis – Vemos um pequeno aumento da base, chegando a quase 26% da população brasileira atendida. Já passamos por períodos que tiveram inclusive redução. Mas a sustentabilidade está totalmente atrelada ao engajamento de 100% dos stakeholders. A operadora precisa estar engajada, a empresa que fornece o benefício precisa estar engajada, o beneficiário precisa estar engajado, utilizar de forma consciente, investir em prevenção, usar um socorro quando de fato for urgência, emergência. Não pode ficar usando para atendimento episódico. Se há alguma queixa, vá a um especialista, faça uma investigação e depois, se houver algum tipo de tratamento, tem que ser feito. As pessoas precisam se empoderar mais da própria saúde.
Saúde Insider – Como a franquia e a maior coparticipação seriam viabilizadas?
Raquel Reis – É uma flexibilização do modelo de regulação atual, pensando em novos mercados. E nada disso é para substituir o tipo de produto que temos hoje. É para termos uma cartela cada vez mais ampla de opções para a pessoa escolher.
Saúde Insider – E sobre o uso consciente?
Raquel Reis –A questão do uso consciente passa por explicarmos, por nos comunicarmos melhor. É uma falha do mercado como um todo, e me incluo. Tanto como FenaSaúde quanto SulAmérica, temos que nos comunicar melhor, dar mais transparência, falar em termos mais claros.
Saúde Insider – Como se explica isso ao beneficiário?
Raquel Reis – Ouvi uma coisa na faculdade, mais de 20 anos atrás, que vale para agora. O seguro é baseado no princípio do mutualismo. Você fala isso para uma pessoa que não é desse mercado: o que isso diz? Não muito. Então vamos transformar em termos mais claros.
Saúde Insider – Por exemplo?
Raquel Reis – O princípio do mutualismo nada mais é do que você ter uma bacia, cada um vai colocando sua contribuição lá dentro, que é seu pedacinho de prêmio, para quando alguém precisar, se precisar, fazer a utilização daquilo dentro dos limites contratuais. Se sobra dinheiro dentro dessa bacia, teremos um reajuste muito menor, ou eventualmente não haverá reajuste. Se falta, dependendo do montante, vamos precisar de um volume maior. Não existe um vale ilimitado. Esse vale tem fundo, essa bacia tem fundo, e as pessoas precisam entender que o reajuste, ou a precificação, é consequência direta da utilização.
Saúde Insider – Onde entram os outros elos da cadeia?
Raquel Reis – Volto à questão do engajamento de todos os stakeholders, de toda a cadeia produtiva. Tem a questão dos prestadores, hospitais, médicos, laboratórios. Tem a questão da indústria farmacêutica, que é fundamental. A evolução tecnológica é maravilhosa, mas precisa vir com responsabilidade. Estamos vendo medicamentos de altíssimo custo, R$ 5 milhões, R$ 8 milhões por dose, de R$ 15 milhões que ainda não foi incorporado.
Saúde Insider – Nesse tema, o que deveria ser feito?
Raquel Reis – Isso é ótimo, dá perspectiva de vida para as pessoas e muitas vezes representa quase que um verdadeiro milagre. Só que deve estar atrelado, primeiro, à sobrevivência da pessoa. Segundo, à evolução da pessoa conforme previsto em bula. Não estou reinventando a roda. Isso existe nos Estados Unidos, na Inglaterra e em diversos outros países da Europa. É isso que pedimos. A indústria farmacêutica precisa vir para essa mesa.
Saúde Insider – Quanto um modelo com participação maior do beneficiário aliviaria essa carga?
Raquel Reis – É difícil estimar, teríamos que fazer a conta exatamente do que seria proposto. Mas podemos chegar a modelos de até 20% a 25%, de produtos com características diferentes, com participação maior do beneficiário em procedimentos ambulatoriais que poderiam ter um custo mais baixo.
Saúde Insider – A taxa de informalidade é um desafio para o setor?
Raquel Reis – Cada vez mais temos modelos de contratação para varejo que estão absolutamente pujantes. Tem para CNPJ [empresas], tem para MEI [microempreendedor individual], para pessoa física. Conseguimos atender um público cada vez maior de pessoas que não necessariamente são CLT [Consolidação das Leis do Trabalho].
Saúde Insider – E a capilaridade?
Raquel Reis – O Brasil é muito grande. Do Oiapoque [AP] ao Chuí [RS], é muito difícil, ou praticamente impossível, encontrar uma operadora que tenha rede em 100% dos municípios brasileiros. Mas, particularmente no caso da SulAmérica, vejo uma evolução cada vez maior dessa capilaridade, com crescimento da base de beneficiários que saem do óbvio, do eixo Rio-São Paulo, e se espalham cada vez mais Brasil afora.
Saúde Insider – A verticalização é uma tendência?
Raquel Reis – Não vejo a verticalização como uma tendência. Existem modelos possíveis. Para a realidade da SulAmérica, acreditamos em liberdade de escolha, e a livre escolha do nosso beneficiário sobre qual prestador vai atendê-lo é uma coisa da qual não abrimos mão. Para algumas empresas, a verticalização pode funcionar, mas não é a nossa crença por aqui.
