Nortec Química entra na briga com China e Índia para produção de moléculas sob demanda no Brasil
Empresa de Duque de Caxias (RJ) amplia atuação e se coloca como alternativa aos grandes mercados globais
Com investimentos na casa de R$ 170 milhões nos últimos 10 anos, a Nortec Química se preparou para o momento atual, em que amplia de forma significativa sua atuação no mercado farmoquímico. A partir dos avanços na capacidade produtiva, o plano é dobrar o faturamento, para R$ 500 milhões, em cinco anos. O mais recente aporte da empresa de Duque de Caxias (RJ) é de R$ 32 milhões, por meio de uma linha de financiamento para inovação em saúde contratada junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). “Nos preparamos para ter uma estrutura customizável, quase artesanal, para atender os laboratórios em escala menor”, disse o CEO da Nortec, Marcelo Mansur, ao Saúde Insider.
A companhia está de olho no desenvolvimento de medicamentos sob demanda para farmacêuticas que não pretendem montar estrutura própria. O modelo é o de CDMO (Contract Development and Manufacturing Organization), empresas contratadas para desenvolvimento e fabricação, na sigla em inglês. O modelo combina expertise em desenvolvimento de medicamentos e capacidade de produção em um único contrato. É um mercado dominado por China e Índia, que concentram cerca de 80% da produção mundial de IFAs (insumos farmacêuticos ativos).
O setor de IFAs movimenta US$ 200 bilhões por ano, com expectativa de crescimento de 60% até 2028, mas apenas 1,6% da indústria global está na América Latina, segundo a Abiquifi (Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos). Em 2025, a balança comercial brasileira de medicamentos registrou o maior déficit da série histórica. A diferença entre importações e exportações foi de R$ 13,1 bilhões, aumento de 19% em um único ano, de acordo com o Grupo FarmaBrasil.
Para tentar mudar esse cenário, uma das iniciativas do governo é a Estratégia Nacional de Saúde do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Ensceis), sancionada com alguns vetos pela Presidência da República em 21 de julho. Ao estimular a produção nacional de medicamentos, vacinas, equipamentos e outros produtos e tecnologias de saúde, a proposta busca reduzir a dependência do país em relação a produtos e insumos de saúde importados.
Patentes. A Nortec é um dos players que atuam para mudar esse quadro, com mais testes, estudos e pesquisas para o segmento, especialmente voltados a patentes futuras. Atualmente, o trabalho é focado em medicamentos que terão a patente expirada nos próximos três anos e se tornarão genéricos. A mudança de cenário é notória, segundo Mansur. “Tem aumentado o interesse da indústria brasileira por descobertas, desde startups até empresas gigantes”, disse o executivo, que mantém parcerias estratégicas com a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e a Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), entre outras entidades.
Para a Nortec, o movimento representa aumento da geração de negócios. Para o Brasil, significa maior segurança em propriedade intelectual, evitando que o conhecimento saia do país para ser produzido em larga escala em mercados internacionais. “Queremos ser uma opção local que dê segurança e tempo de resposta”, afirmou o CEO. “Com garantia de atendimento aos requisitos da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).”
O movimento observado na Nortec abrange diversos segmentos de saúde, segundo Mansur, desde doenças cardiovasculares até áreas oncológica e respiratória. Uma das moléculas em estudo avançado é de um medicamento inédito, com inovação radical, voltado ao tratamento de varizes dos membros inferiores. A proposta é reduzir os sintomas e diminuir a progressão da doença.
O desenvolvimento é conduzido por uma joint venture formada pela Science Biotech, voltada a estudos clínicos e biotecnologia médica, e pela Stin Pharma, especializada em inovação, tecnologia e qualidade em dermatologia, metabologia e terapias de reposição hormonal. Os ensaios clínicos da nova molécula, com desenho de cocristal, estão sendo executados pela Nortec.
Além de viabilizar as inovações no mercado nacional, a Nortec pretende também exportá-las. “Para poder realmente ter o retorno do investimento de quem está desenvolvendo”, disse Mansur. A empresa fluminense é uma das poucas fabricantes de IFA do Brasil qualificadas pela FDA (Food and Drug Administration), agência reguladora dos Estados Unidos. “Temos condições de fornecer para qualquer mercado do mundo”, afirmou o CEO.
Questões essenciais
O que é uma CDMO farmacêutica?
CDMO é a sigla em inglês para Contract Development and Manufacturing Organization. São empresas contratadas por farmacêuticas para desenvolver e fabricar medicamentos ou seus componentes, sem que o cliente precise manter toda a estrutura produtiva própria.
Por que a Nortec quer atuar no mercado de medicamentos sob demanda?
A empresa pretende atender farmacêuticas que precisam desenvolver ou fabricar medicamentos em menor escala sem montar uma estrutura própria para isso.
Por que China e Índia são importantes no mercado de IFAs?
China e Índia concentram grande parte da produção mundial de insumos farmacêuticos ativos, cerca de 80% do mercado, e são importantes fornecedores da indústria farmacêutica global.
