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Entrevistas

“Inovação radical tem de ser com dinheiro privado”, diz Nelson Mussolini, do Sindusfarma

Executivo critica comércio irregular de produtos para emagrecimento. Indústria farmacêutica deve crescer entre 10% e 14% este ano

Presidente do Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos) há 17 anos, Nelson Mussolini lidera um setor que movimentou R$ 230 bilhões em 2025, 8,6% a mais do que o registrado no ano anterior, segundo levantamento da IQVIA em parceria com o Sindusfarma. Em número de caixas de medicamentos, foram 6,6 bilhões, 4,4 % de crescimento ano a ano. Nesta entrevista ao Saúde Insider, ele tratou de todos os temas que impactam e preocupam o setor. De canetas emagrecedoras e farmácias de manipulação até Reforma Tributária e inovação. Nesse ponto, aliás, ele é muito clato. “Não é com financiamento governamental que a gente faz inovação radical”, disse. “Tem de ser feita com dinheiro privado. No mundo inteiro funciona assim, tirando épocas de pandemia, quando governos financiam.”

Outra preocupação de Mussolini está relacionada ao boom de canetas emagrecedoras. As vendas online movimentaram R$ 6,1 bilhões no primeiro semestre deste ano, segundo o relatório Da Compra à Confiança — Panorama do E-commerce Brasileiro no Primeiro Semestre de 2026, elaborado pela Confi, por meio da Neotrust e da Aftersale, em parceria com o E-Commerce Brasil. O avanço foi de 213% em relação ao mesmo período do ano passado. O executivo defende “uma fiscalização mais apurada” para enfrentar a “batalha muito dura” contra esse cenário, evitar a concorrência desleal e prevenir um problema de saúde pública.

O Sindusfarma, que reúne empresas nacionais e internacionais que respondem por 95% do mercado de medicamentos no Brasil, tem feito reiteradas denúncias às autoridades, segundo Mussolini, que reconhece a dificuldade de combater o problema. Sobre inovação radical, o presidente do Sindusfarma afirma que esse é um papel das empresas, pois o setor público não é capaz de gerar novas tecnologias disruptivas sozinho. “No mundo inteiro é assim.” . Confira abaixo a entrevista completa com o presidente da entidade, que aborda também o otimismo do segmento, que projeta crescimento de 10% a 14% neste ano, as consequências dos juros altos, o fim da escala 6×1 e o impacto da Reforma Tributária no preço dos remédios.

Saúde Insider – O senhor está à frente do Sindusfarma desde 2009. Quais os principais avanços conquistados pela entidade nos últimos anos?
Nelson Mussolini
– Cheguei aqui com um objetivo muito claro dentro da minha cabeça, não sei se tão claro para a diretoria, de transformar o Sindusfarma em uma prestadora de serviço. Tínhamos imposto sindical, mas muitos associados não contribuíam. E eu sempre defendi o fim desse imposto sindical. Acredito que as entidades de classe têm de se manter pela prestação de serviços que oferecem, não por uma imposição de contribuição compulsória. Nós tínhamos 128 associados, uma arrecadação na casa dos R$ 5 milhões por ano com imposto sindical.

Saúde Insider – Qual a situação hoje?
Nelson Mussolini – Transformamos em uma entidade que hoje tem 660 associados, com uma arrecadação mais de dez vezes maior, mantendo mais ou menos o mesmo número de colaboradores. Mudou a filosofia. O problema de uma empresa hoje é problema do setor amanhã. Tínhamos um prédio caindo aos pedaços e hoje temos ótima estrutura, um imóvel de 2.400 metros quadrados de área, distribuído em seis andares, com arquitetura diferenciada na Vila Olímpia, em São Paulo. Temos dinheiro em caixa para fazer projetos.

Saúde Insider – Existe uma vertente de educação importante, não?
Nelson Mussolini
– Estamos começando a tirar do papel o Instituto Sindusfarma de Educação, Desenvolvimento e Inovação. Entendemos que educação é a única coisa que entregamos para a sociedade e temos retorno imediato. Somos a primeira entidade a ter os manuais técnicos escritos, e hoje temos todos eles em formato virtual. Temos acordos com grandes universidades para fazer cursos, como a ESPM, EPD, FIA Business School e ESEG – Faculdade do Grupo Etapa. Com tudo isso, trouxemos muitos associados.

Saúde Insider – O Sindusfarma bate muito na tecla da inovação radical. Em que momento estamos e o que podemos avançar mais?
Nelson Mussolini
– É uma questão muito complexa. Não é com financiamento governamental que a gente faz inovação radical. A inovação radical tem que ser feita com dinheiro privado. No mundo inteiro funciona assim, tirando épocas de pandemia, quando governos financiam.

Saúde Insider – Por que é assim?
Nelson Mussolini – Porque existe um baita risco de não dar certo. Então tem de ser o dinheiro privado. E é por causa desse dinheiro privado que a gente tem que dar alta rentabilidade. Pois, sem isso, ninguém vai querer apostar no nosso negócio de alto risco. Alto risco, alta rentabilidade, é assim que funciona no mundo. E não adianta falar que esse é o mundo capitalista. É no mundo em geral. O governo está criando no Brasil, com o Ministério da Saúde muito focado nisso, instrumentos em que tanto a universidade quanto o setor privado tenham apetite para aplicar em inovação radical.

Saúde Insider – Como está o Brasil no cenário global?
Nelson Mussolini – O Brasil é muito importante na área de saúde. Tem o maior sistema público de saúde do mundo, e nós devemos muito ao SUS. A pandemia mostrou o quão importante ele é. Já o mercado farmacêutico representa menos de 2% do mercado mundial. Nós não podemos querer ser um grande player achando que só o nosso Sistema Único de Saúde vai ser a mola propulsora disso. Precissmos ampliar esse mercado. E custa caro.

Saúde Insider – Qual o caminho?
Nelson Mussolini
– Se eu quero desenvolver um produto que seja global, uma inovação radical que seja global, terei de fazer estudos clínicos espalhados pelo mundo inteiro.Ter estudos clínicos, no mínimo de fase 3, na América do Norte, na Europa, na Ásia, na África, na América do Sul… Vemos que há um incentivo. Tivemos uma lei recém-aprovada que trata a saúde como estratégica. Muito bom. Vai nos ajudar a fazer isso. Agora a gente vai regulamentar a lei e sabe onde mora o diabo? Ele mora no detalhe. Mas o governo brasileiro está se capacitando para isso. Dez anos atrás, se você entrasse numa faculdade de medicina ou numa universidade pública e falasse que teria investimento privado lá dentro, você apanhava. Imagina: capital privado? Não pode entrar dentro da universidade.

Saúde Insider – Isso está mudando…
Nelson Mussolini
– Está mudando. As grandes universidades fora do Brasil vivem dos royalties recebidos daquilo que descobrem como inovação. E a mesma coisa tem que acontecer aqui no Brasil. Estamos começando a fazer isso. A Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo) é um exemplo disso. Temos que começar a olhar isso como algo que não seja um monstro. Não é que o capital privado vai corromper a academia, muito pelo contrário. A gente vai trabalhar junto para um bem final, que é o desenvolvimento de um produto que vai salvar vidas.

Saúde Insider – O senhor percebe a mudança, então?
Nelson Mussolini – Estamos começando a ver essa questão da inovação radical no Brasil de uma forma diferente. Nenhum país do mundo tem 70% das suas necessidades de saúde produzidas no próprio território. O mundo está globalizado. Mas temos de melhorar a nossa participação, pois 95% de dependência externa é muita coisa. E isso demora. Em menos de dez anos não se faz. Por isso, a necessidade de ter uma política de Estado, e não uma política de governo. Na área de saúde, as coisas só são perenes quando são políticas de Estado. O PNI, nosso Programa Nacional de Imunizações, é exemplo. O nosso programa de tratamento da Aids virou política de Estado.

Saúde Insider – Ainda estamos longe do ideal?
Nelson Mussolini
– A chave está começando a virar. Vemos a universidade muito mais aberta do que era no passado. Temos programas governamentais. Não é só financiamento. O governo tem de mostrar que, se a indústria desenvolver algo, ele vai comprar. Nosso negócio é movido por três coisas básicas. Primeira, a segurança jurídica. A gente demora de oito a 12 anos para colocar um produto no mercado. Imagine se não tiver segurança jurídica? Começa a fazer uma coisa, de repente muda tudo e eu jogo tudo fora. Não dá. Segunda, a previsibilidade. Vamos produzir e vamos ter para quem vender. O governo está falando: “Faça que eu compro”. E a terceira é transparência. Precisamos saber exatamente como estão acontecendo as coisas. A engrenagem desse tripé está começando a funcionar.

Saúde Insider – Em recente levantamento do Sindusfarma, as empresas projetam crescimento de 2,97% do Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2026 e de 3,42% em 2027. A mediana do relatório Focus fala em 1,99% para este ano. Qual é o motivo do otimismo do setor?
Nelson Mussolini
– Vemos a saúde como a mola propulsora, e ela vai ajudar o PIB a crescer. O sistema geral de saúde é muito importante. Quando você tem uma população que tem saúde, ela é muito mais produtiva. Sendo mais produtiva, gera mais riqueza. Isso se torna um círculo virtuoso de crescimento. Quando eu nasci, em 1958, a expectativa de vida do brasileiro era de 48 anos. Eu tenho 48 anos de profissão e estou aqui produzindo, pagando impostos, um monte de impostos. Eu não sou dos que reclamam de pagar impostos. Gostaria de pagar muito mais do que eu pago. Porque, se estou pagando imposto, estou sendo remunerado para isso. Mas o nosso imposto é mal aplicado, isso é outro problema. Acreditamos efetivamente que, se melhorar a saúde das pessoas, conseguimos contribuir muito mais para o crescimento do nosso país.

Saúde Insider – Nesse mesmo levantamento, os participantes também demonstraram confiança em fatores como avanço tecnológico, recuperação do emprego, expansão econômica e evolução do ambiente regulatório. Qual a evolução esperada no campo da regulação?
Nelson Mussolini
– Temos uma agência, a Anvisa, que recentemente foi reconhecida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como sendo de primeira linha. Isso é muito importante. Nós somos um dos poucos setores da economia que não reclamam da regulação. Quanto mais alta for a régua, melhor é. Porque a gente está trabalhando com vida. Queremos uma regulação melhor e estamos trabalhando muito com isso. Temos conversado com a Anvisa para aumentar essa régua não só nas nossas fábricas, não só no registro do produto, mas na dispensação do produto. Queremos que o brasileiro adquira o produto que faz bem para a saúde, e não o produto que a vizinha falou que é bom.

Saúde Insider – Como está o papel da Anvisa?
Nelson Mussolini – Temos uma agência sanitária muito bem posicionada mundialmente. É uma das mais novas do mundo. A FDA (Food and Drug Administration, dos Estados Unidos) é centenária — recebeu o nome atual em 1930, mas teve início em 1906 — e a Anvisa tem 25 anos. Tem um quarto de vida da FDA e já está se posicionando como agência robusta.

Saúde Insider – Falta algo?
Nelson Mussolini – Vamos precisar fazer investimento nela. Sem dúvida, melhorou um pouco, pois estava defasada. Estamos vendo um empenho da nova diretoria da agência de conseguir mais verba, melhorar seus processos, aplicar inteligência artificial sem abandonar a inteligência humana. E nós, como indústria, nos capacitamos muito para ter um produto de altíssima qualidade. É o movimento da agência sanitária, que nos fiscaliza de forma dura, e a gente não reclama disso. Precisamos ter uma fiscalização mais efetiva na dispensação. Isso nos preocupa bastante.

Saúde Insider – Temos uma discussão ampla no país sobre a presença do princípio ativo da tirzepatida, das canetinhas emagrecedoras, em produtos comercializados no Paraguai. Entidades, inclusive o Sindusfarma, alertaram que a presença do princípio ativo não comprova segurança, eficácia nem regularidade sanitária. Como o senhor vê essa discussão?
Nelson Mussolini
– Tem de haver uma fiscalização mais apurada disso. Nossa preocupação é muito grande, porque está havendo um completo desentendimento desse negócio. Farmácia de manipulação está virando indústria farmacêutica não regulada. Tivemos uma época em que a indústria farmacêutica não era muito bem regulada. Com a chegada da Anvisa, melhoramos muito a qualidade, a eficácia e a segurança dos nossos produtos. Mas essa questão da canetinha emagrecedora está pegando mesmo. Quando pega o produto que não está registrado no Brasil, que está entrando de forma que ninguém sabe como é, que não está seguindo nem a logística de cadeia fria que deveria seguir, e tem gente aplicando isso no seu organismo, vai acabar matando gente. Então, estamos em uma batalha muito dura.

Saúde Insider – Mas farmácia de manipulação é importante, não?
Nelson Mussolini
– É extremamente importante. Mas para aquela produção do produto que é individualizado, que é feito para uma pessoa específica, e a prescrição é personalizada. Mas a gente vê por aí farmácia de manipulação fazendo propaganda, usando influencers, de produtos como o chip da beleza, que está mutilando mulheres, causando problemas de saúde, ou de produtos para emagrecer que ninguém sabe o que têm lá dentro. A nossa canetinha, quando sai de uma fábrica nossa, sai com a quantidade necessária de tirzepatida para você se cuidar. Caneta emagrecedora não é para emagrecer, é um efeito colateral de tratamento para diabetes, para uma proteção cardiológica. Então, tem que ter um cuidado muito grande.

Saúde Insider – Cuidado que na sua visão inexiste.
Nelson Mussolini – Primeiro, tem uma concorrência desleal, porque esses caras não cumprem as regras sanitárias que nós estamos cumprindo. Tem problema de saúde pública, porque os produtos não têm a qualidade, a eficácia e a segurança que a gente é obrigado a demonstrar. Discutimos muito isso com a Anvisa. O Sindusfarma faz denúncias reiteradas com relação a essas farmácias de manipulação. Essas pessoas estão cometendo crime contra a saúde pública. Difícil combater.

Saúde Insider – A perspectiva de crescimento para a indústria farmacêutica é de 10%, segundo levantamento da IQVIA. A que se deve essa expectativa?
Nelson Mussolini
– O envelhecimento da população é uma delas. As pessoas estão ficando mais velhas e precisam tomar mais medicamentos. É uma questão mundial. Estamos ampliando o acesso, até pela redução de preço, por causa da participação de genéricos e tudo mais. Prevemos crescimento entre 10% e 14%. O número do Sindusfarma é um pouco maior do que o da IQVIA. Isso em valor. Em unidades, está crescendo um pouco menos, em torno de 6%. Está crescendo em valores porque há lançamentos e um preço um pouco melhor. Temos espaço para crescimento em unidades também. O Brasil tem esse espaço. A participação de genéricos em unidades é muito alta, mas pode aumentar. E genérico amplia acesso, a gente sabe disso.

Saúde Insider – Como ampliar o mercado em unidades, então?
Nelson Mussolini
– Quando diminui o preço, amplia o mercado em unidades. A competição ajuda a aumentar o mercado em unidades e é nisso que a gente tem apostado.

Saúde Insider – Juros altos e inflação atrapalham?
Nelson Mussolini
– Juros nos atrapalham por uma questão de investimento. Vi recentemente um business plan para produzirmos alguns insumos farmacêuticos ativos (IFAs) no Brasil. E a conclusão final é que, pelo retorno, seria melhor aplicar em letras do Tesouro Nacional, que rendem muito mais. Então, o grande problema dos juros é que deixam caro o investimento. E a inflação nos atrapalha porque diminui o poder de compra da população. Nosso preço é controlado. Normalmente, o reajuste fica abaixo da inflação, mas há aumento e atrapalha.

Saúde Insider – Outro debate amplo é sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 no Brasil. O senhor inclusive discursou no Senado sobre essa proposta, pedindo para que seja debatida após as eleições de outubro. Qual a posição do Sindusfarma?
Nelson Mussolini
– A escala 6×1 pode ser inflacionária. Não é o nosso caso em específico, porque grande parte dos nossos colaboradores já trabalha 40 horas semanais. Mas vai ser ruim para o nosso negócio porque vai tirar o poder de compra da população. O pior imposto que existe é o inflacionário. Já passamos por hiperinflação. É muito ruim. Isso nos preocupa em relação ao mercado. Estamos com um desarranjo fiscal no país.

Saúde Insider – Na sua avaliação, o fim da escala 6×1 vai diminuir o salário do trabalhador?
Nelson Mussolini
– Não diminui salário, aumenta custo. Essa é a questão. Aquilo que você compra hoje não vai conseguir comprar amanhã. É uma discussão que devemos fazer, mas não é o momento. Estamos em um momento eleitoral para uma questão de mudanças radicais. Nós negociamos aqui 40 horas semanais para o nosso trabalhador da indústria farmacêutica das fábricas de São Paulo. Tivemos ganho de produtividade bom, pois houve um ganho de automação nas nossas fábricas e conseguimos fazer isso sem grandes impactos. Isso tem de ser discutido? Sim, tem de discutir. Mas no momento certo, após as eleições.

Saúde Insider – Como avalia o impacto da Reforma Tributária no setor? Vai interferir no preço dos medicamentos?
Nelson Mussolini
– Teremos redução da carga tributária no setor. Hoje temos algo perto de 35% de impostos sobre medicamentos e, a depender de algumas categorias, teremos redução de 60% na alíquota. Mas, mesmo se chegar a 15% ou 16%, ainda continua sendo uma das maiores cargas tributárias sobre medicamentos do mundo. Hoje é a maior. Com a redução, vai dar ao consumidor o poder de cobrar muito mais, porque vai saber exatamente o que ele paga de imposto. Isso é uma questão que acontece no mundo inteiro e funciona. A segunda questão é que ajuda muito o investimento.

Saúde Insider – De que maneira?
Nelson Mussolini
– Quando estávamos na pandemia, tive uma conversa com o embaixador da Índia, pois o país gostaria muito de investir na produção farmacêutica aqui no Brasil. Mas ele disse que era impossível fazer isso porque a nossa carga tributária impedia. Quando traz o dinheiro para o Brasil, paga o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Quando contrata um projeto para fazer sua fábrica, paga imposto. Quando compra um terreno, paga imposto. Quando compra uma máquina, paga imposto. Nisso tudo tem ITBI, IPTU, IPI, ICMS… Antes de a fábrica ser montada, já pagou um monte de imposto. Em outros lugares do mundo, isso não acontece.

Saúde Insider – E a Reforma Tributária ajudará nisso?
Nelson Mussolini – Com ela, tudo isso vai ser postergado para frente. Isso vai ajudar o desenvolvimento. No primeiro momento, será inflacionária, porque todo mundo vai querer repassar tudo para o preço, o que pode trazer uma consequência negativa. Mas precisava ser feito. Vai ser a dor que vamos ter de sofrer. A dor do crescimento. E recentemente conseguimos, por meio de uma nova PEC (Proposta de Emenda à Constituição), excluir da cobrança de impostos de alguns produtos para tratamentos específicos, como diabetes, hipertensão arterial, doenças raras, oncologia… São sete categorias.

Saúde Insider – Na ponta, diminui o valor do medicamento ao consumidor?
Nelson Mussolini
– Sim, porque o nosso preço é controlado pelo imposto. Aumentou o imposto, aumenta o preço; diminui o imposto, diminui o preço. Esse é um fato. Com isso [redução de imposto], aumenta o poder de investimento da indústria. É um ganha-ganha.

Saúde Insider – Já tem algum valor definido de aumento dos investimentos?
Nelson Mussolini
– Ainda não. É muito recente tudo isso. Estamos analisando como a reforma vai se ajustar de fato.

Saúde Insider – O que se pode esperar de evolução com o novo marco regulatório para a pesquisa clínica no país, a partir da entrada em vigor da Lei nº 14.874/2024?
Nelson Mussolini
– Tem um estudo da Interfarma que aponta que o Brasil saltou da 18ª para a 12ª posição em investimentos em pesquisas clínicas no mundo. Pesquisa clínica é investimento na veia no país. Nós temos centros maravilhosos para fazer pesquisas não só no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas no Rio Grande do Sul, com o Complexo Conceição, e na Bahia, com a Beneficência Portuguesa…

Saúde Insider – Haverá, em resumo, um grande avanço?
Nelson Mussolini – Isso vai nos ajudar a trazer conhecimento para o Brasil. E conhecimento é um negócio que fica. Fábrica é um negócio que não fica. Você constrói uma fábrica, destrói a fábrica, vai embora, leva a fábrica embora ou simplesmente vende a fábrica. Conhecimento, não. Conhecimento fica, e pesquisa clínica traz conhecimento para o país. Com ela, formamos pesquisadores dentro do país que vão entender aquela doença, vão entender melhor aquele produto, vão entender melhor o tratamento. Aplaudimos muito o projeto de lei que foi discutido durante dez anos. São mais de US$ 1 bilhão em investimentos em pesquisas clínicas no Brasil só em 2025. Estamos calculando que deve vir algo acima de US$ 2 bilhões a partir de agora.

Saúde Insider – Entre os pontos defendidos pelo Sindusfarma na Carta aos Presidenciáveis 2026 está a modernização do setor farmacêutico e da política industrial. Qual é a demanda do setor nesses temas?
Nelson Mussolini
– Tem de haver muita clareza e segurança jurídica no que estamos tratando de política industrial. Eu sempre fui uma pessoa muito crítica das PDPs (Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo), e o governo defende. Eu falava que não tinha uma política industrial por trás. Era simplesmente uma carta de intenções, e não uma efetividade. Agora não. Agora existe uma lei da Estratégia Nacional de Saúde, que cuida de PDPs. Sempre falei para as autoridades governamentais que fazer uma política industrial com base em portaria e decreto não vai funcionar. Portaria qualquer um muda. Decreto muda. Quando você faz lei, traz um pouco mais de segurança jurídica e, com isso, cresceu o apetite de investimento. É isso que uma política industrial faz.

Saúde Insider – Há ainda sugestão para consolidação do Programa Farmácia Popular. Pode avançar mais?
Nelson Mussolini
– O programa Farmácia Popular precisa melhorar, precisa ampliar o número de produtos que estão lá dentro. A sociedade exige, por exemplo, eventualmente colocar anti-inflamatório dentro da Farmácia Popular. Precisa trazer produtos um pouco mais modernos. E precisa remunerar melhor. O programa foi criado em 2004, no primeiro governo Lula.

Saúde Insider – E como estão?
Nelson Mussolini – Os valores de referência desde então não são corrigidos. São esses valores que remuneram a farmácia, que, por sua vez, compra os produtos da indústria. Tem que tomar muito cuidado com esse programa. Senão, ele desaparece. A nossa defesa é de que o programa tem de receber mais investimento. Cada real investido no Farmácia Popular gera o benefício de não internação da pessoa. Quando você trata, por exemplo, com produtos para diabetes, evita que o paciente seja internado para fazer a amputação do membro inferior, evita que deixe de ser contribuinte da Previdência e vire usuário da Previdência. Defendemos muito que Farmácia Popular não é despesa de saúde, é investimento em trabalho.

Saúde Insider – Sobre a instalação de farmácias dentro de supermercados, muda o ponteiro de resultado da indústria farmacêutica?
Nelson Mussolini – Acredito que não. Muito se falou, quando se criou aquele negócio de farmácia em posto de gasolina, que iria mudar tudo. É uma questão muito cultural. Pode ser que daqui a algum tempo isso mude, mas ninguém vai entrar no supermercado só para comprar medicamento. E quem está comprando comida não vai ter cabeça de comprar medicamento. Pode ser uma compra de oportunidade, mas a pessoa não vai sair do médico agora com uma receita na mão e ir para o supermercado.

Saúde Insider – O que vocês defendem?
Nelson Mussolini – Nós sempre defendemos o seguinte: quer vender, venda, mas tem de vender como na farmácia. Com área segregada, ter um depósito segregado, ter um farmacêutico responsável, com cuidados na armazenagem. Não pode virar uma bagunça de vender antiácido com cerveja, isso não dá certo. Ou o produto para emagrecer com o salgadinho do lado. Esse negócio não vai funcionar. Sempre fomos contrários a essa mistura de coisas. Nosso objetivo é entregar boa saúde para a população, não sair vendendo de qualquer forma.

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