Alan Donnelly, do G20-G7 Health: “Saúde é questão de economia e segurança nacional”
O maior erro dos governos é "tratar a saúde como custo em vez de reconhecê-la como investimento em crescimento econômico, resiliência e prosperidade nacional"
Alan Donnelly é um entusiasta. Aquele tipo de pessoa que ama desafios – e encara todos com mangas arregaçadas. ‘Todos’, nesse caso, não é uma palavra aleatória. Ex-político inglês com assento no Parlamento Europeu, quando a Inglaterra ainda não havia concluído o Brexit (2020), foi também presidente do corpo de comissários da Fórmula 1 e conselheiro do presidente da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) por dez anos, além de conselheiro da Premier League, a liga inglesa de futebol. Atualmente, é chairman e dono da consultoria Sovereign Strategy e preside e coordena as parcerias do G20&G7 Health Development. Como ele mesmo disse, “possuo uma ampla rede de contatos governamentais, regulatórios e corporativos em nível global”.
Baseado nessa última cadeira, a de parcerias na área de saúde do G20, Donnelly concedeu, com exclusividade, a entrevista a seguir ao Saúde Insider. Ele tratou de temas que envolvem desde o futuro da saúde até a geopolítica da saúde. Este, aliás – num momento de explosão da biomedicina e da crescente presença de modelos de inteligência artificial no dia a dia do setor –, deve se tornar a mais decisiva agenda de poder entre as nações. “A saúde não é apenas política social. É questão de resiliência econômica, segurança nacional e influência geopolítica”, afirmou.
Saúde Insider – Durante muito tempo, a saúde foi vista como responsabilidade dos ministérios da Saúde. Hoje, está na agenda dos ministros da Fazenda, da Indústria e das Relações Exteriores. O que mudou?
Alan Donnelly – A pandemia alterou de forma profunda o modo como os governos enxergam a saúde. Mostrou que saúde não é apenas política social. É questão de resiliência econômica, segurança nacional e influência geopolítica.
Saúde Insider – Por qual motivo, essencialmente?
Alan Donnelly – Populações saudáveis são mais produtivas.
Saúde Insider – O que gera riqueza…
Alan Donnelly – Sistemas de saúde robustos protegem o crescimento econômico. A produção doméstica de medicamentos, a fabricação de vacinas, a tecnologia médica e cadeias de suprimento resilientes se tornaram ativos estratégicos nacionais. A presidência francesa do G7 neste ano e a recente presidência brasileira do G20 refletiram essa ligação entre populações saudáveis e crescimento econômico.
Saúde Insider – Os governos têm essa compreensão?
Alan Donnelly – A saúde é hoje um dos temas que definem a competitividade econômica. Ministros da Fazenda entendem que a prevenção reduz o gasto público de longo prazo. Ministros da Indústria veem a inovação em saúde como um grande setor de crescimento. Chanceleres reconhecem cada vez mais que a cooperação global em saúde é um instrumento relevante de diplomacia e de soft power. A saúde se tornou responsabilidade de todo o governo.
Saúde Insider – Na prática, qual país está mais preparado para transformar saúde em vantagem competitiva?
Alan Donnelly – Não existe um modelo único. Cingapura integrou com sucesso saúde, tecnologia e planejamento econômico. A Dinamarca construiu clusters de ciências da vida de liderança mundial. A Alemanha combina manufatura avançada e inovação médica. O Reino Unido reúne forças excepcionais em ciências da vida, genômica, inteligência artificial e pesquisa clínica.
Saúde Insider – De certa maneira, os países ricos, então?
Alan Donnelly – Os países que vão liderar na próxima década não são necessariamente os que mais gastam. São os que integram saúde, pesquisa, tecnologia digital, política industrial e educação em uma única estratégia nacional coerente.
Saúde Insider – Nesse contexto, como o senhor avalia o papel da OMS (Organização Mundial da Saúde)?
Alan Donnelly – A OMS segue indispensável. Nenhuma outra organização tem a legitimidade ou o alcance global necessários para coordenar emergências sanitárias internacionais, definir padrões e apoiar países de baixa renda. Mas a OMS não pode resolver sozinha os desafios de saúde atuais. O futuro depende de parcerias mais fortes entre governos, setor privado, academia, sociedade civil e instituições financeiras internacionais. O desafio não é substituir a OMS. É construir um ecossistema mais forte ao redor dela.
Saúde Insider – Caminhamos para um mundo mais cooperativo ou mais fragmentado na área da saúde?
Alan Donnelly – Infelizmente, vivemos as duas coisas ao mesmo tempo.
Saúde Insider – Por qual motivo?
Alan Donnelly – A colaboração científica nunca foi tão forte. Pesquisadores compartilham conhecimento com velocidade inédita.
Saúde Insider – Por outro lado…
Alan Donnelly – Do ponto de vista geopolítico, porém, o mundo ficou mais fragmentado, com competição crescente por tecnologia, cadeias de suprimento e setores estratégicos. O desafio dos líderes globais é impedir que a competição geopolítica corroa a cooperação em saúde. Vírus, resistência antimicrobiana e doenças crônicas não reconhecem fronteiras nacionais.
Saúde Insider – O maior desafio da saúde global hoje é dinheiro ou governança?
Alan Donnelly – Governança. O mundo já gasta somas enormes com saúde. O problema é que boa parte desse gasto ocorre tarde demais, depois que as pessoas adoecem. Continuamos a premiar o tratamento em vez da prevenção. Uma governança melhor redirecionaria o investimento para diagnóstico precoce, hábitos de vida mais saudáveis, monitoramento digital e atenção primária mais forte. Isso melhoraria os resultados e tornaria os sistemas de saúde financeiramente sustentáveis.
Saúde Insider – Há espaço para novos instrumentos financeiros voltados à prevenção e à inovação?
Alan Donnelly – Sem dúvida. O setor financeiro transformou infraestrutura, energia renovável e tecnologia por meio de modelos inovadores de investimento. A saúde deve ser a próxima.
Saúde Insider – Com quais ferramentas?
Alan Donnelly – Precisamos de títulos de prevenção, de finanças mistas, de modelos de investimento baseados em resultados e de parcerias público-privadas mais fortes, que premiem melhorias mensuráveis na saúde da população em vez de apenas ampliar o gasto com saúde. Se a prevenção pode ser medida, também pode ser financiada.
Saúde Insider – Qual o papel do G20-G7 Health and Development Partnership nessa frente?
Alan Donnelly – O G20-G7 Health and Development Partnership lidera um trabalho importante no desenvolvimento de um novo arcabouço comum de financiamento sustentável da saúde.
Saúde Insider – A inteligência artificial terá impacto maior no cuidado médico ou na gestão dos sistemas de saúde?
Alan Donnelly – No início, o maior impacto da IA deve ocorrer na gestão dos sistemas de saúde. A IA pode aprimorar o planejamento da força de trabalho, otimizar a capacidade hospitalar, reduzir custos administrativos, prever surtos de doenças e apoiar uma alocação melhor de recursos.
Saúde Insider – E depois?
Alan Donnelly – Com o tempo, também vai transformar a prática clínica, com diagnóstico mais precoce, medicina personalizada e apoio à decisão dos profissionais. A maior oportunidade está na combinação das duas frentes.
Saúde Insider – Quais tecnologias devem transformar o setor na próxima década?
Alan Donnelly – A inteligência artificial certamente lidera, mas várias tecnologias vão atuar em conjunto.
Saúde Insider – Quais?
Alan Donnelly – Medicina de precisão baseada em genômica, diagnósticos digitais e dispositivos vestíveis, robótica e automação, gêmeos digitais e modelagem preditiva, biotecnologia avançada e terapias celulares, plataformas seguras de dados em saúde. A transformação real virá da integração dessas tecnologias, não da adoção isolada de cada uma.
Saúde Insider – O que o senhor aprendeu na política que continua útil no setor privado?
Alan Donnelly – Relações importam. A liderança bem-sucedida se apoia em confiança, credibilidade e capacidade de compreender pontos de vista diferentes. A política ensina que mudanças duradouras exigem reunir pessoas de interesses distintos em torno de objetivos comuns.
Saúde Insider – E isso vale para os negócios?
Alan Donnelly – O mesmo princípio vale para os negócios. Os líderes mais bem-sucedidos dedicam mais tempo a construir parcerias do que a vencer discussões. Nos últimos dez anos, o G20-G7 HDP teve enorme sucesso como articulador. É curioso: quando começamos essas iniciativas, parte dos envolvidos desconfiava, porque se sentia mais confortável no próprio silo profissional. Passada uma década, tenho a satisfação de dizer que existe hoje um nível muito maior de diálogo e de parceria.
Saúde Insider – Onde os governos costumam errar no diálogo com o setor privado?
Alan Donnelly – Governos às vezes tratam as empresas apenas como fornecedoras, e não como parceiras estratégicas. O setor privado costuma desenvolver inovação mais rápido do que os governos conseguem regular.
Saúde Insider – E como ajustar isso?
Alan Donnelly – O diálogo construtivo deveria começar bem antes, ainda na formulação das políticas. Com minha sócia, Hatice Beton, criei o Global Diplomacy Institute, com bases no Bahrein, na Arábia Saudita e na Inglaterra. Hoje trabalhamos com governos e com o setor privado das áreas de ciências da vida, inteligência artificial e serviços financeiros para ampliar as parcerias público-privadas. É importante que governos entendam o ambiente de investimento e de negócios necessário para que as empresas tragam investimento externo ao país.
Saúde Insider – E qual o posicionamento necessário para que ocorra o avanço?
Alan Donnelly – É importante que empreendedores construam parcerias de longo prazo nesses países. Essas relações não se constroem da noite para o dia. A confiança pública exige transparência e prestação de contas. A inovação exige parceria. Defendo com firmeza que os governos reconheçam que os enormes desafios de saúde enfrentados pelo mundo hoje, alguns ligados à mudança climática, têm no setor privado um agente essencial.
Saúde Insider – E pelo que o senhor conhece da classe política, essa sensibilidade existe?
Alan Donnelly – É lamentável que alguns líderes políticos queiram retratar o setor privado como pouco confiável e voltado apenas ao lucro. Não é essa a minha experiência. E é um erro estratégico que lideranças políticas tentem ganhar visibilidade ao custo da confiança nas empresas que investem em novos diagnósticos e tratamentos essenciais para a saúde futura.
Saúde Insider – Como o Brasil é visto hoje nos debates internacionais de saúde?
Alan Donnelly – O Brasil desfruta de considerável respeito.
Saúde Insider – Por quais fatores, em especial?
Alan Donnelly – Pela comunidade científica, capacidade de produção de vacinas, experiência em saúde pública e o protagonismo em iniciativas globais. Isso tudo traz credibilidade internacional significativa. Como grande economia do G20 e voz de destaque do Sul Global, o Brasil tem uma oportunidade importante de moldar os debates futuros sobre acesso equitativo à saúde e financiamento sustentável do setor.
Saúde Insider – O SUS é frequentemente estudado no exterior. Quais características merecem atenção?
Alan Donnelly – A escala, por si só, é extraordinária. Oferecer cobertura universal em um país de dimensões continentais produz lições que poucas nações conseguem igualar. A ênfase em atenção primária, agentes comunitários de saúde e acesso universal demonstra que equidade e eficiência podem se reforçar quando há compromisso político de longo prazo. Muitos países poderiam aprender com a experiência brasileira de levar assistência a regiões e populações diversas.
Saúde Insider – Se o senhor tivesse de indicar apenas três prioridades ao governo brasileiro para posicionar o país como líder global em saúde até 2035, quais seriam?
Alan Donnelly – Primeiro, tornar-se líder global em prevenção, com investimento muito maior em intervenção precoce e no enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis. Segundo, consolidar o Brasil como principal centro da América Latina em inovação em saúde, inteligência artificial, biotecnologia e manufatura de ciências da vida. Terceiro, posicionar o país como liderança diplomática, com parcerias internacionais mais fortes que conectem saúde, desenvolvimento econômico e resiliência climática. Essas prioridades fortaleceriam a prosperidade nacional e a influência internacional do Brasil.
Saúde Insider – A maior ameaça à saúde global hoje é…
Alan Donnelly – A carga crescente de doenças crônicas não transmissíveis evitáveis, combinada com o aumento das desigualdades em saúde.
Saúde Insider – O país que mais impressiona nas políticas de saúde pública é…
Alan Donnelly – Cingapura, porque integrou prevenção, inovação e planejamento estratégico de longo prazo.
Saúde Insider – A tecnologia mais transformadora da próxima década será…
Alan Donnelly – A inteligência artificial, sobretudo quando combinada com genômica e medicina preditiva.
Saúde Insider – O maior erro dos governos é…
Alan Donnelly – Tratar a saúde como custo em vez de reconhecê-la como investimento em crescimento econômico, resiliência e prosperidade nacional.
Saúde Insider – A principal oportunidade do Brasil é…
Alan Donnelly – Tornar-se o principal exemplo mundial de como uma grande economia emergente pode combinar saúde universal, excelência científica e inovação para impulsionar o desenvolvimento econômico sustentável.
