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Entrevistas

Dagir Junior, da Abimo: “Tensão geopolítica dá ao Brasil condições de ganhar mercado”

Presidente da entidade diz que país tem oportunidade de deixar de ser apenas um grande mercado consumidor e avançar como fornecedor global de tecnologias para a saúde

Crédito: Divulgação

Presidente da Abimo (Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos), Jamir Dagir Junior avalia que a indústria do país tem condições de ampliar sua presença internacional e, ao mesmo tempo, fortalecer sua autonomia produtiva em tecnologias essenciais para a saúde. Em entrevista ao Saúde Insider, o dirigente diz que o atual cenário global de tensões comerciais, instabilidade política e reorganização das cadeias de fornecimento traz oportunidades para a indústria brasileira se apresentar como fornecedora confiável e com capacidade de resposta em cenários de crise. “O Brasil reúne características importantes para ocupar esse espaço.”

Para Dagir Junior, o país possui um mercado interno relevante, com parque industrial consolidado e experiência exportadora. “O próximo passo é transformar esses ativos em uma estratégia nacional.” Segundo o executivo, entre os principais desafios estão o custo de produção, a complexidade tributária, o acesso ao financiamento para inovação e a dependência externa em alguns segmentos estratégicos. Dados da entidade indicam que, no primeiro semestre de 2026, as exportações do setor somaram US$ 499 milhões, enquanto as importações atingiram US$ 5,9 bilhões. O dirigente entende que a alteração desse quadro exige uma política industrial de longo prazo. Confira a entrevista:

Saúde Insider – Quais são as principais oportunidades e os principais desafios para a indústria de dispositivos médicos do Brasil?
Jamir Dagir Junior –
A indústria brasileira vive momento de importantes oportunidades. A reorganização das cadeias globais de saúde vem criando uma nova disputa por fornecedores confiáveis, capacidade produtiva e segurança de abastecimento. Em um cenário marcado por tensões comerciais, instabilidade geopolítica e preocupação com a concentração da produção em poucos países, o Brasil tem condições de ampliar sua presença internacional e, ao mesmo tempo, fortalecer sua autonomia produtiva em tecnologias essenciais para a saúde.

Saúde Insider – Qual o tamanho desse mercado?
Jamir Dagir Junior –
O mercado brasileiro de dispositivos médicos movimentou R$ 85,4 bilhões em 2025, com crescimento de 13,9% em relação ao ano anterior, o que demonstra a força e a relevância econômica do setor.

Saúde Insider – E os principais desafios?
Jamir Dagir Junior –
Entre os principais estão o elevado custo de produção, a complexidade tributária, o acesso ao financiamento para inovação, a dependência externa em alguns segmentos estratégicos e a necessidade de maior previsibilidade para os investimentos. O Brasil já possui capacidade industrial, competência tecnológica e experiência exportadora. O próximo passo é transformar esses ativos em uma estratégia nacional de longo prazo.

Saúde Insider – Com a capacidade instalada atual, como aproveitar esse momento geopolítico a favor do Brasil?
Jamir Dagir Junior –
O atual cenário internacional abre uma janela estratégica para a indústria brasileira. Estados Unidos, Europa e outras economias vêm revisando suas políticas industriais para reduzir vulnerabilidades em áreas consideradas críticas. O mundo está buscando fornecedores confiáveis, capazes de garantir qualidade, segurança de abastecimento, conformidade regulatória e capacidade de resposta em cenários de crise.

Saúde Insider – O que falta?
Jamir Dagir Junior –
Para aproveitar essa oportunidade, precisamos ampliar os mecanismos de promoção comercial, apoiar a internacionalização das empresas, reduzir barreiras de acesso a mercados e fortalecer acordos de cooperação e reconhecimento regulatório.

Saúde Insider – A tensão comercial e a aplicação de tarifas entre Estados Unidos e Brasil preocupam o setor?
Jamir Dagir Junior –
Qualquer medida que eleve tarifas ou crie novas barreiras comerciais preocupa o setor. Os Estados Unidos estão entre os principais destinos das exportações brasileiras de dispositivos médicos, e mudanças nas condições de acesso a esse mercado podem reduzir a competitividade de produtos nacionais e afetar contratos, investimentos e decisões de produção.

Saúde Insider – Existe uma estimativa de possíveis impactos?
Jamir Dagir Junior –
Varia de acordo com o segmento, o produto e o grau de dependência de cada empresa em relação ao mercado norte-americano. Por isso, a Abimo acompanha os dados e mantém diálogo com o governo para avaliar os efeitos das medidas e defender instrumentos de apoio às empresas afetadas.

Saúde Insider – E o que o setor pode fazer para não depender apenas do governo?
Jamir Dagir Junior –
Esse cenário também reforça a necessidade de diversificação. A indústria brasileira precisa continuar presente nos Estados Unidos, mas também ampliar sua participação e em outros mercados. Quanto mais diversificada for a presença internacional das empresas brasileiras, menor será sua exposição a decisões comerciais tomadas por um único país, embora esse processo seja muito complexo e não aconteça no curto prazo.

Saúde Insider – Qual é a avaliação do ambiente regulatório e tributário do setor?
Jamir Dagir Junior – O Brasil possui uma estrutura regulatória robusta para dispositivos médicos, conduzida pela Anvisa, com requisitos de boas práticas de fabricação, controle de qualidade, validação de processos e rastreabilidade. Esse ambiente é fundamental para garantir a segurança, a qualidade e o desempenho dos produtos utilizados na assistência à saúde.

Saúde Insider – Existem agendas que necessitam de avanço?
Jamir Dagir Junior –
É necessário avançar continuamente na previsibilidade dos processos, na convergência com as melhores práticas internacionais e na construção de modelos regulatórios capazes de acompanhar tecnologias que evoluem rapidamente, como softwares clínicos e sistemas baseados em inteligência artificial.

Saúde Insider – E no campo tributário?
Jamir Dagir Junior –
A principal preocupação é garantir que a implementação da Reforma Tributária não comprometa a competitividade da indústria brasileira nem provoque aumento dos custos dos dispositivos médicos. Esse impacto não fica restrito às empresas: ele pode chegar aos hospitais, às clínicas, ao SUS e, em última instância, ao paciente. A discussão sobre o setor, portanto, deixou de ser apenas regulatória ou tributária. Ela passou a integrar as agendas de desenvolvimento econômico, inovação, segurança sanitária e soberania produtiva.

Saúde Insider – A balança comercial do setor mostra um desequilíbrio em favor das importações. Qual é a avaliação da entidade sobre esse cenário?
Jamir Dagir Junior –
O desequilíbrio da balança comercial demonstra que o Brasil ainda depende fortemente de importações em segmentos estratégicos. Em 2025, o déficit da balança comercial de dispositivos médicos alcançou US$ 9,9 bilhões, com importações superiores a US$ 11 bilhões. Essa dependência não deve ser analisada apenas sob a perspectiva econômica.

Saúde Insider – Deve ser avaliada sob qual óptica também?
Jamir Dagir Junior –
A experiência recente mostrou que a concentração da produção em poucos países e a dependência excessiva de fornecedores externos podem comprometer o abastecimento e a capacidade de resposta dos sistemas de saúde em momentos de crise sanitária, conflitos internacionais ou interrupções logísticas.

Saúde Insider – Como está o lado das exportações?
Jamir Dagir Junior –
O Brasil já demonstra capacidade para competir internacionalmente. Entre janeiro e maio de 2026, as exportações do setor alcançaram US$ 407,4 milhões. Produtos brasileiros estão presentes em mercados altamente exigentes, como Alemanha, Bélgica, Estados Unidos, Países Baixos e Suíça. Isso comprova que a indústria nacional possui qualidade, tecnologia e conformidade regulatória. O desafio é ampliar a escala das exportações, diversificar destinos e transformar a capacidade produtiva brasileira em uma estratégia mais consistente de inserção nas cadeias globais de saúde.

Saúde Insider – Que tipos de iniciativas são necessárias para reduzir a dependência do setor por insumos importados?
Jamir Dagir Junior –
A redução da dependência externa exige uma política industrial de longo prazo, construída com articulação entre governo, indústria, academia, centros de pesquisa e instituições de financiamento. As compras públicas também podem exercer papel importante, desde que considerem não apenas o menor preço imediato, mas o custo total da contratação, a qualidade, a segurança, a assistência técnica, a capacidade de abastecimento e o impacto sobre o desenvolvimento produtivo nacional.

Saúde Insider – E como está essa pauta?
Jamir Dagir Junior –
Existem avanços na discussão sobre o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, mas essas iniciativas precisam ter continuidade, previsibilidade e instrumentos concretos de implementação. Não se trata de produzir tudo no Brasil, mas de identificar quais tecnologias e produtos são estratégicos para reduzir vulnerabilidades e garantir maior segurança ao sistema de saúde.

Saúde Insider – A política industrial do atual governo está de acordo com as demandas do setor?
Jamir Dagir Junior –
A Abimo avalia positivamente a retomada de uma agenda voltada ao fortalecimento da produção nacional, à inovação e à redução de vulnerabilidades em áreas estratégicas para a saúde. A discussão sobre dispositivos médicos deixou de ser apenas uma pauta de comércio exterior e passou a integrar as agendas de desenvolvimento econômico, segurança sanitária e soberania produtiva. Esse reconhecimento é importante, especialmente porque a indústria nacional demonstrou, nos últimos anos, sua relevância para a capacidade de resposta do país. O principal desafio é transformar diretrizes em instrumentos efetivos. As políticas precisam ter continuidade. A indústria de dispositivos médicos demanda planejamento de longo prazo.

Saúde Insider – O investimento da indústria em desenvolvimento e inovação está em patamares adequados e em condições de competitividade com os principais concorrentes?
Jamir Dagir Junior –
A indústria brasileira investe em pesquisa, desenvolvimento e inovação, e temos empresas capazes de desenvolver produtos competitivos e conquistar mercados altamente regulados. Ao mesmo tempo, as condições de investimento no Brasil ainda são mais desafiadoras do que em muitos países concorrentes.

Saúde Insider – E nisso historicamente o Brasil mais pesa que ajuda, não?
Jamir Dagir Junior –
O custo do capital, a complexidade tributária, o acesso limitado a financiamento e a menor previsibilidade das políticas públicas reduzem a capacidade de algumas empresas de sustentar projetos de longo prazo. Desenvolver um dispositivo médico exige pesquisa, testes, validações, certificações e registros regulatórios. Em alguns casos, são necessários anos de investimento antes que o produto chegue ao mercado.

Saúde Insider – Ainda assim o Brasil se mostra um destino atrativo para investimentos estrangeiros no setor?
Jamir Dagir Junior –
Temos um dos maiores mercados de saúde do mundo, demanda crescente, uma ampla rede assistencial, capacidade industrial instalada e uma estrutura regulatória consolidada. Também contamos com empresas nacionais inovadoras e um ecossistema que envolve universidades, centros de pesquisa, hospitais e profissionais altamente qualificados.

Saúde Insider – O que falta, então?
Jamir Dagir Junior –
Para transformar esse potencial em novos investimentos, no entanto, é necessário ampliar a previsibilidade regulatória e tributária, garantir segurança jurídica, melhorar o acesso à infraestrutura e criar condições para que projetos de pesquisa, desenvolvimento e produção tenham continuidade.

Saúde Insider – Quais são as projeções do setor para fechar 2026?
Jamir Dagir Junior –
O setor mantém uma trajetória de crescimento, impulsionada pela expansão da demanda por saúde, pelo envelhecimento da população, pela incorporação de novas tecnologias e pela necessidade permanente de modernização da infraestrutura assistencial. No entanto, vivemos um cenário de crescimento acompanhado por maior cautela nos investimentos.

Saúde Insider – Por quê?
Jamir Dagir Junior –
A indústria enfrenta aumento de custos, inadimplência, incertezas tributárias e um ambiente internacional mais instável. Esses fatores afetam a capacidade das empresas de ampliar investimentos, contratar e desenvolver novos projetos. A expectativa ainda é que 2026 termine com resultado positivo, mas o desempenho pode ficar abaixo do potencial da indústria brasileira.

Saúde Insider – E qual o motivo?
Jamir Dagir Junior –
Para que esse crescimento seja sustentável, precisamos de um ambiente que ofereça previsibilidade, acesso ao crédito, estímulos à inovação e melhores condições de competitividade.

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