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Entrevistas

Edson Rogatti, presidente da Fehosp: “Recurso tem. Precisamos é de gestão”

Presidente da federação que reúne Santas Casas e hospitais filantrópicos em São Paulo diz que tabela criada pelo governo estadual muda a realidade do setor, mas ainda espera solução para tabela nacional do SUS

Em 1997, Edson Rogatti tinha se aposentado pelo antigo Banespa (Banco do Estado de São Paulo) e planejava pescar. Já tinha até comprado propriedade em Mato Grosso do Sul. Mas foi convidado pelo prefeito, ou praticamente convocado, para assumir a direção da Santa Casa de Palmital (“Sou da roça”), município de 20 mil habitantes a 400 quilômetros da capital paulista. Ninguém queria. “Tinha 300 títulos [protestados]”, afirmou Rogatti. “Vai lá hoje ver como está. Parece uma Santa Casa enorme. É pequena, mas está toda reformadinha.” Tem 43 leitos, 29 destinados ao SUS, e mais de 20 especialidades. No final de julho, prefeitura e hospital palmitalenses realizaram mutirão de consultas oftalmológicas que atenderam 800 pessoas da região, durante quatro dias.

Qual foi a mudança? Ele resume em uma palavra: gestão. “Sem gestão, não tem jeito. Pode colocar o dinheiro que for que vai embora”, disse o presidente da Fehosp (Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado de São Paulo), que assumiu seu quinto mandato em abril – comanda a entidade há 12 anos (ela tem 75). “Estamos num momento muito bom”, disse. Mas nem sempre foi assim. “Quando entrei, não tinha dinheiro para 13º.” Rogatti atribuiu o momento positivo, que permite, por exemplo, contratar oito empresas e investir em R$ 1 milhão em cursos, à criação do SUS Paulista, programa lançado em 2024 pelo governo estadual.

Saúde Insider – Esse bom momento pelo qual o setor está passando…
Edson Rogatti –
Aqui em São Paulo, viu…

Saúde Insider – A que se deve? À regionalização?
Edson Rogatti –
Um dos fatores é a regionalização. Mas o que mais ajudou é a tabela SUS Paulista [que remunera os hospitais acima da tabela nacional do SUS]. Foi um gol de placa. Agora é produção. Produziu, ganhou.

Saúde Insider – Por exemplo…
Edson Rogatti –
Não produziu, perde. Vou dar um exemplo, do Pio XII, de Barretos. Em 2024, com a Tabela SUS paulista, recebeu R$ 52 milhões a mais. Em 2025, 142 milhões. [Volume] que outras Santas Casas de outros estados não recebem. Então, se tiver uma gestão boa, dá para fazer a fila andar.

Saúde Insider – De que maneira?
Edson Rogatti –
Dá para atender mais. Dá para melhorar o atendimento. Dá para humanizar. Dá para fazer um monte de coisas porque tem recurso. O que precisa ter agora é gerenciamento. E administrar com mão de ferro. O cara que administra bem a Santa Casa, depois dessa Tabela SUS, não pode reclamar. Tem a dívida para trás. Mas isso é outra coisa. De 2024 para cá, só melhorou.

Saúde Insider – A situação está melhor, mas o déficit ainda é alto?
Edson Rogatti –
No total, R$ 21 bilhões. Mas as Santas Casas estão pagando. Eu vi Araçatuba, que pediu recuperação judicial. Estive lá agora, faz uns dez dias. O provedor é um advogado. Ele está por 20 anos para pagar. O que ele está fazendo? Entra um dinheirinho, está sobrando um dinheirinho com a Tabela SUS, ele chama um desses devedores. Ah, eu devo R$ 500 mil, dou R$ 200 mil, quer?

Saúde Insider – Negocia a dívida. Isso que aconteceu no estado de São Paulo, com a tabela local, é uma solução que o senhor vê como definitiva?
Edson Rogatti –
Não tem mais volta. Porque se voltar…

Saúde Insider – O que acontece?
Edson Rogatti –
Você vê, a gente tem 46 Santas Casas sob intervenção. Por quê? É que ela tinha condições. O município vai lá e intervém. Isso aí é ruim. Depois fica cabide de emprego de prefeito. Isso aí não serve para nada. O certo era terminar com essa intervenção logo. Porque agora, se produzir certinho, dá para fazer um monte de coisas. Dá para investir. Dá para reformar. Dá para comprar. Porque tem procedimento [em que a tabela estadual é] cinco vezes a tabela [nacional].

Saúde Insider – Também será preciso atualizar?
Edson Rogatti –
Tem uma parte da tabela nacional [paulista] que não está na tabela SUS. Essa parte tem que entrar. Porque se você pegar, por exemplo, ambulatório, pegar urgência, emergência, continua R$ 10 a consulta, R$ 2 um raio-x. Isso aí não tem condição.

Saúde Insider – A gente consegue falar numa média, em valores?
Edson Rogatti –
Por exemplo, parto: R$ 400, R$ 500. [Com] Tabela SUS [paulista], R$ 2.500. Hoje mesmo saiu o pagamento. Está pagando em dia. Todo mundo. Você pega, por exemplo, Ourinhos. Mais R$ 2,5 milhões por mês a mais que ele não recebia. Pega Marília, R$ 3 milhões. Limeira, R$ 4,5 milhões a mais para fazer a mesma coisa que fazia antes de 2024. [Na atual versão da tabela nacional, uma operação cesariana, atendimento classificado como de média complexidade, paga R$ 545,73. Com a complementação estadual (R$ 1.637,19), o valor sobe para R$ 2.182,92 – quatro vezes mais.]

Saúde Insider – A questão, agora, é gerencial?
Edson Rogatti –
Se o cara tiver um pouquinho de gestão, dá certo. É preciso aumentar a produção. Mas não é simples aumentar, porque o Ministério da Saúde não aumenta o teto. Então, se ele fizer a mais, vai receber na tabela paulista. Mas na tabela nacional, nada muda.

Saúde Insider – Isso pode ser negociado com o governo federal?
Edson Rogatti –
Eu conversei com o Padilha [o ministro da Saúde, Alexandre Padilha]. Ele falou que vai mudar. Falou que agora, em 2027…

Saúde Insider – A tabela SUS?
Edson Rogatti
– A tabela nacional. Ele falou que não tem jeito de pagar mais pela tabela. Vai precisar ter outra forma de pagar.

Saúde Insider – Que forma?
Edson Rogatti –
Ele já montou um grupo de estudos. Está estudando já faz dois meses, três meses. Para fazer um modelo de remuneração diferente. Talvez por DRG [metodologia de classificação de pacientes]. Não sei. Falou que está estudando porque ele acha que pela tabela não tem jeito.

Saúde Insider – Por quê?
Edson Rogatti –
Porque é muita coisa.

Saúde Insider – É uma reivindicação antiga.
Edson Rogatti –
Desde quando nós estamos aí. Sempre. Eu fui presidente da CMB [Confederação das Santas Casas de Misericórdia e Hospitais Filantrópicos] durante seis anos. Desde a minha época. Porque o que eles estão dando é 3,5%, 3% por ano [de reajuste]. Você divide para todo mundo, não dá nada. Qual médico vai trabalhar num lugar para fazer consulta por R$ 10? Nenhum. É fazer de conta que faz.

Saúde Insider – Estamos falando de quantas Santas Casas em São Paulo?
Edson Rogatti –
De 407. Quase 33 mil leitos. Uma coisa que melhorou também foi que o governo estadual tinha 7 mil, 8 mil leitos desativados e ativou esses leitos. Se você dividir por hospital de 200 leitos, dava 35 a 40 hospitais novos. Fez sem gastar nada. Colocou para funcionar. [Segundo a CMB, confederação nacional do setor, são 1,8 mil estabelecimentos no país, representando a única estrutura hospitalar em 821 municípios, e responsáveis por 61% das internações de alta complexidade do SUS.]

Saúde Insider – Fechavam por falta de recurso?
Edson Rogatti
– Foram fechando leitos, foram diminuindo. Para ver se mantinha a porta aberta. Porque se não tivesse essa Tabela SUS Paulista, em São Paulo, nós estaríamos, acredito, com metade das Santas Casas fechadas.

Saúde Insider – E a Tabela SUS nacional cobre quanto do custo?
Edson Rogatti –
Quando eu fui presidente da CMB, fiz um estudo com a Câmara e o Senado. Cobria 60 por 40. Pagava 60, e 40 o hospital tinha de procurar. Rifa, leilão, essas coisas. Agora, está 50/50.

Saúde Insider – Só metade, então.
Edson Rogatti –
Eu estava falando hoje na reunião de diretoria. Fiz 15 reuniões no interior agora. Com dez, 15, 20 Santas Casas. O que eu comprei de rifa… Fui ao Gpaci [hospital de tratamento do câncer infantil] em Sorocaba, comprei cinco camisetas. Fui lá a Marília e pediram R$ 1 mil. Tem de fazer essas coisas para poder sobreviver.

Saúde Insider – A tabela estadual paulista é um caminho que deveria ser seguido por outros estados?
Edson Rogatti –
O Rio Grande do Sul está fazendo. É uma tabela menor, mas está fazendo. O Espírito Santo, como tem 19 ou 20 hospitais, fez outro sistema, com DRG. Mas também botou mais dinheiro. Está funcionando bem também.

Saúde Insider – E o que precisa mexer?
Edson Rogatti –
Eu tenho falado pro secretário [Eleuses Paiva, secretário estadual da Saúde em São Paulo]: o que tem que fazer na tabela SUS também é pontuar, quem produz com qualidade, com resultados. Menos tempo internado, não ter reinternação, atender bem o paciente, o senhor dá 10%, 20% a mais. Fazer um negócio assim.

Saúde Insider – Remunerar pela qualidade do atendimento?
Edson Rogatti –
Para premiar quem atende bem. Aí a coisa vai fluir melhor. Sobra mais leito na UTI. Porque UTI é a coisa mais difícil para arrumar leito, que está sempre cheio.

Saúde Insider – A saúde digital pode ajudar também?
Edson Rogatti
– Ajuda muito. Já foi feito. E deu resultado. Acho que o estado vai continuar [essa digitalização]. Porque eles estão vendo uma melhora muito grande.

Saúde Insider – O programa Agora Tem Especialistas pode ter impacto positivo?
Edson Rogatti –
Eu andei discutindo com o ministro. O que ele fez? Fez dois, três mutirões.

Saúde Insider – O que você disse para o ministro?
Edson Rogatti –
O que eu falei para ele? O senhor não pode obrigar. Cada hospital tem de analisar o que é melhor para si. Se achar que o Mais Especialistas é bom, assina e entra.

Saúde Insider – Existe também ação no STJ relativa à revisão da tabela SUS.
Edson Rogatti –
Bom, isso daí também. Pode ser mais cedo ou mais tarde. Porque não é justo o mesmo procedimento no plano de saúde pagar uma coisa e no SUS pagar outra. Não tem cabimento.

Saúde Insider – As Santas Casas têm uma importância histórica no país. Isso foi negligenciado pelos governos, independentemente de partido ou governante?
Edson Rogatti –
Concordo plenamente. Independentemente de partido, quem esteve lá não olhou para a saúde como devia olhar.

Saúde Insider – E dos lados dos hospitais? Há um problema de gestão?
Edson Rogatti –
Tem caso de gestão. Aí não tem jeito. Você pode dar o dinheiro que for, vai embora. Quem tem gestão agora vai pra frente. Não vai precisar de empréstimo, não vai precisar de mais nada.

Saúde Insider – Ainda falta governança?
Edson Rogatti –
Nós estamos fazendo curso de governança. Eu sei, porque fui provedor de Palmital por 14 anos. Então, discutir com médico é duro. É a coisa mais difícil que tem. Brigam entre eles nos hospitais, por ordem de leito, por hora de fazer cirurgia. Você tem de estar preparadíssimo para discutir com eles.

Saúde Insider – E para reduzir custos, como faz?
Edson Rogatti –
Vou dar um exemplo de Ourinhos, onde trabalhei por nove anos na gestão. A mesma cirurgia de apendicite. Tem médico que gasta R$ 3 mil, outro gasta R$ 2 mil, outro gasta R$ 1 mil. Então, o gestor tem de ter olho clínico. Não pode ter desperdício.

Saúde Insider – Tem muito?
Edson Rogatti –
Tem bastante. Tem muito.

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