“Entre 10% e 20% dos pacientes de injetáveis não terão efeito benéfico no tratamento”, diz Canavarros, da SBCBM
Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica afirma que já há “efeito rebote” de pacientes que tentam emagrecer com canetas e retornam à busca por intervenção cirúrgica
Desacelerou a quantidade de cirurgias bariátricas realizadas no Brasil. Em 2024, foram 75.264, enquanto, em 2025, foram 76.348, aumento de apenas 1,44%. Bem diferente do ritmo registrado entre 2020 e 2024, quando a quantidade de intervenções cirúrgicas para o combate à obesidade avançou 83,1%, de 41.101 para pouco mais de 75,2 mil operações. Os dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) mostram, porém, que as cirurgias no setor privado caíram de 2024 para 2025, de 64.014 para 62.220, enquanto as intervenções no setor público aumentaram de 11.250 para 14.128. Reflexo da invasão das canetas emagrecedoras no mercado brasileiro. “Não existe milagre no tratamento da obesidade, seja ele medicamentoso ou cirúrgico”, disse Juliano Canavarros, presidente da SBCBM, em entrevista ao Saúde Insider.
Já são mais de 20 medicamentos injetáveis agonistas do receptor de GLP-1 (classe de medicamentos que ajudam no controle do diabetes tipo 2 e da obesidade) autorizados pela Anvisa a serem comercializados no Brasil. Esses produtos movimentaram R$ 6,1 bilhões apenas em vendas online no primeiro semestre deste ano, segundo dados do relatório Da Compra à Confiança – Panorama do E-commerce Brasileiro no Primeiro Semestre de 2026, elaborado pela Confi, por meio da Neotrust e da Aftersale, em parceria com o E-Commerce Brasil. No país, 34,6% da população adulta tem sobrepeso: 31,4 milhões de pessoas avaliadas pelo Sisvan (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional), do Ministério da Saúde. Ele chama a atenção, inclusive, para o que chama de efeito rebote, já que de 10% a 20% de usuários dos injetáveis não terão sucesso no tratamento. Confira a seguir a entrevista com Juliano Canavarros:
Saúde Insider – Qual o tamanho do problema da obesidade no Brasil?
Juliano Canavarros – No mundo, quase 1 bilhão de pessoas sofre com essa condição. No Brasil, cerca de 30% das pessoas têm o problema da obesidade.
Saúde Insider – Quais são as barreiras de acesso à cirurgia bariátrica?
Juliano Canavarros – Esse é um tema extremamente interessante. Comecei a visitar muitos estados, e muitos deles tinham realidades diferentes. São muitos Brasis dentro do Brasil. Tive a oportunidade de conhecer como era o sistema no Pará. Sistema extremamente bem elaborado. O governo ajuda a fazer uma espécie de fila zero. Os serviços de cirurgia, que antes só faziam praticamente procedimentos privados, engajaram nessa batalha e começaram a constituir filas, fazer avaliações pré-operatórias muito bem elaboradas. Já o Amapá tem médicos extremamente comprometidos com a saúde pública também, mas que só conseguiram realizar uma ou outra cirurgia com emendas parlamentares [verbas são incorporadas ao caixa do SUS do município ou do estado para financiar mutirões de cirurgias eletivas ou comprar equipamentos cirúrgicos para os hospitais].
Saúde Insider – Ou seja, mesmo em estados próximos há uma diferença…
Juliano Canavarros – Em alguns, é programa de Estado. Em outros, programa de governo. E em outros, funciona com emenda parlamentar. Em cima dessas dificuldades de acesso do paciente, existe a realização de exames preliminares, uma avaliação médica, mas, às vezes, espera-se meses, até anos, para conseguir acesso a esse tratamento. De uma maneira geral, era muito disperso, muito dificultoso esse acesso. Então, nós, da entidade, começamos a discutir mais profundamente o assunto para tentar implementar os centros de tratamento de obesidade nos estados.
Saúde Insider – Qual o ganho?
Juliano Canavarros – Isso vai impactar o custo para o estado? Não! Entendemos que o estado vai economizar na medida em que vai otimizar o atendimento desses pacientes.
Saúde Insider – A partir desses centros, é possível uma visão 360º do paciente, como a instituição defende?
Juliano Canavarros – Já houve situações em que pacientes relatam que foram à unidade básica perto da sua casa e o médico se limitou a falar que ele deveria fechar a boca e fazer caminhada. Uma pessoa de 160 quilos, que tinha artrose dos dois joelhos. Como é possível? É até uma irresponsabilidade e desrespeitoso. E, às vezes, o paciente só tem acesso ao alimento de uma cesta básica, mal tem acesso a uma verdura, uma proteína.
Saúde Insider – Esse tipo de situação levou à criação do Centro?
Juliano Canavarros – Quando criamos o conceito de Centro de Tratamento de Obesidade, foi no intuito de atender o paciente de forma ampla. O paciente recebe o pré-atendimento pelo médico da família ou da unidade básica mais próxima de sua casa. Constatada a obesidade, é remetido para esse elo entre a medicina terciária e a unidade básica, que é o CTO. E isso não significa que vai operar. A cirurgia é o último recurso. Vai ser tratado por uma equipe multidisciplinar, com fisioterapia, médico, psicólogo, nutrólogo, endocrinologista… Todo mundo vai olhar esse paciente de maneira mais completa.
Saúde Insider – Existe até uma defesa de políticas de prevenção da obesidade, inclusive?
Juliano Canavarros – Exatamente. É o que a gente preconiza. Mas sabemos que todos os tratamentos, clínicos ou de prevenção, às vezes não são cumpridos à risca. Alguns estudos mostram que, em mais de 95% das vezes em que há apenas tratamento clínico, o paciente obeso não consegue, a longo prazo, ter sucesso. Justamente por ser uma doença crônica, por outros mecanismos que são multifatoriais.
Saúde Insider – Questões culturais do brasileiro também influenciam?
Juliano Canavarros – Muito. As causas são multifatoriais. Tem um trabalho de medicina pública inglesa que mostra um mapa extremamente elaborado de causas da obesidade. Desde a parte genética até a cultural, passando pelo hábito de sentar à mesa, ter horário para comer ou não e pelo tipo de alimento consumido. Mostra que as pessoas têm o hábito mais de desembrulhar do que de descascar.
Saúde Insider – O fator socioeconômico tem forte interferência também, não?
Juliano Canavarros – Também. Porque, muitas vezes, a família não tem recurso para um equilíbrio no prato, para ter aquela quantidade de verdura, de proteína, ter aquele prato colorido, como os nutricionistas gostam de falar. Sem proteína de qualidade para colocar no prato, a pessoa acaba abusando tanto de alimentos ricos em amido, em carboidratos.
Saúde Insider – Significa que a população em classes socioeconômicas inferiores tem mais propensão à obesidade?
Juliano Canavarros – No sentido de escolha alimentar, talvez. Mas a obesidade não escolhe cor, não escolhe classe social. Vemos pessoas extremamente bem financeiramente que são portadoras dessa condição e que chegam angustiadas ao consultório, pois já tentaram de tudo.
Saúde Insider – Existem alguns estudos internacionais que validam uma estratégia para avaliar e diagnosticar a obesidade além do IMC. O Brasil está inserido nisso?
Juliano Canavarros – Até tivemos um brasileiro que fez parte dessa comissão de especialistas de um estudo que foi publicado no jornal científico The Lancet Diabetes & Endocrinology, em 2024, e endossado por 75 organizações médicas ao redor do mundo. Ele apresenta uma nova forma de abordar e diagnosticar a obesidade. O IMC nasceu por meio de um matemático que usava esse índice de massa apenas e tão somente para fazer triagem. Ponto. Mas classificar o paciente como obeso ou não obeso só pelo IMC incorre em erros.
Saúde Insider – Por exemplo?
Juliano Canavarros – Se pegar o Mike Tyson no seu auge como boxeador, campeão mundial, ele tinha 32 de IMC. É um absurdo você olhar para um cidadão daquele e falar que era um obeso grau 1. Então, esse estudo estabelece alguns critérios melhores para avaliação. Quando o paciente tem mais de 40 de índice de massa corporal, já é o suficiente para classificá-lo como obeso e grave. Quando tem menos de 40, existem índices antropométricos para avaliar melhor, como a cintura abdominal, relação cintura-quadril, relação cintura-altura ou até mesmo o uso de equipamento de radiologia de dupla imagem, que é padrão-ouro. Isso tudo já está inserido na classe médica brasileira.
Saúde Insider – Se houve queda das cirurgias no setor privado, no setor público houve aumento. As cirurgias pelo SUS aumentaram de 3.768 em 2020 para 11.250 em 2024 e para 14.128 em 2025. Por que isso ocorreu?
Juliano Canavarros – O que temos percebido agora é um efeito rebote, do pessoal que tentou medicamento e não foi efetivo. Tive uma aula recente com o doutor John Morton [vice-presidente de Qualidade e chefe da Divisão de Cirurgia Bariátrica e Minimamente Invasiva da Faculdade de Medicina de Yale, em Connecticut, nos EUA], em que ele deixou de maneira muito clara: de 5% a 10% dos pacientes não vão ter resultado nenhum [com as canetas emagrecedoras], muitas vezes por conta da formação de anticorpos antidroga.
Saúde Insider – Por quê?
Juliano Canavarros – Porque há uma engenharia peptídica, juntando duas moléculas, o GLP-1 [peptídeo semelhante ao glucagon-1] e o GIP [polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose], e insere um aminoácido que não tem no seu corpo. Quando injeta alguma coisa que não é do seu corpo, seu sistema imunológico reconhece e tenta trabalhar contra. Em outra situação, de 5% a 10% dos pacientes vão ter efeito colateral. Então, de 10% até 20% dos pacientes terão uma situação que vai impedir efeito benéfico do medicamento. Esses casos são encaminhados realmente para a cirurgia, porque, até hoje, não existe tratamento para obesidade grave e eficaz igual à cirurgia. Tem casos em que o medicamento vai ser eficaz e tem casos que a cirurgia vai ser eficaz.
Saúde Insider – O mercado vai se equilibrar?
Juliano Canavarros – Vai se equilibrar. Esse é exatamente o termo correto. Quando há uma medicação nova entrando, gera aquela sensação de luxo. Como se algo milagroso existisse. A gente sabe que não existe milagre no tratamento da obesidade, seja ele medicamentoso ou cirúrgico.
