Com 5 bilhões de registros, SUS Digital avança na integração de dados públicos e privados
País evolui na visão geral do paciente. Desafio é canalizar informações em um único ambiente
Saúde Digital é agenda de Estado, e não apenas uma iniciativa tecnológica. É com esse conceito que o Ministério da Saúde tem conduzido o programa SUS Digital, conjunto de soluções voltadas à transformação digital do Sistema Único de Saúde. As ações estão a pleno vapor. Integração de sistemas, oferta de serviços digitais e uso de tecnologias são algumas delas. Atualmente, são 5 bilhões de registros enviados tanto pelo setor público quanto pelo privado que estão na plataforma do ministério, com possibilidade de chegar a próximo de 10 bilhões até o fim do ano.
Com o tratamento adequado desses dados, o Brasil evolui na visão geral do paciente, para uma oferta mais bem direcionada de políticas de saúde e tratamentos. O desafio fica por conta da integração e do cruzamento das informações vindas dos segmentos público e privado. “Informação em Saúde é um patrimônio do Brasil”, disse Paula Xavier dos Santos, diretora do Departamento de Informação e Informática do SUS (DataSUS), vinculado à Secretaria de Informação e Saúde Digital, criada em 2023 pelo Ministério da Saúde.
A integração das informações é feita pela Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), plataforma de interoperabilidade entre os mais diversos sistemas existentes nos 5.571 municípios brasileiros, nos 26 estados e no Distrito Federal. É por lá que transita toda a base de referências de cidadãos, profissionais e gestores da saúde. “O país passa, de fato, a ter uma visão nacional para a informação pensada para a saúde”, afirmou a executiva.
Nos últimos anos, o Brasil saiu de um sistema muito precário e fragmentado de informações para uma montagem de estrutura de dados. Apesar da evolução em termos tecnológicos, os dados seguem dispersos. São milhares de softwares diferentes utilizados para acompanhar desde a jornada do paciente, passando por notificações de nascimento, vacinação e óbito, até a gestão epidemiológica ou a administração de empresas de saúde propriamente ditas.
Antes de colocar o SUS Digital de pé, o Ministério da Saúde promoveu um estudo para conhecer a realidade das estruturas tecnológicas da saúde brasileira. Com o Índice Nacional de Maturidade em Saúde Digital, a pasta avaliou a transformação digital do SUS nos estados, municípios e no Distrito Federal. “Para desenhar uma política de transformação digital do SUS, precisamos conhecer a realidade”, disse Paula Xavier.
Com o diagnóstico feito, um plano de ação foi montado para colocar em prática a integração de sistemas de informação pela RNDS, a avaliação dos equipamentos disponíveis, incluindo conectividade, ações de telessaúde e sustentabilidade tecnológica, além da governança e da competência digital para medir a capacidade de gestão dos órgãos locais e o preparo das equipes para utilizar as ferramentas.
Crescimento. De 2023 para cá, o salto foi de 800 milhões para 5 bilhões de registros na plataforma, crescimento de 525%. O avanço não ocorreu apenas em números, mas também em escopo, maturidade e relevância nacional, segundo a diretora do DataSUS. “Estamos promovendo uma visão integrada, com olhar mais holístico da saúde digital.” Até o início deste ano, o setor privado tinha enviado 2 bilhões de registros.
Um movimento importante para ampliar o data lake de informações foi a ampliação das notificações obrigatórias na plataforma, que antes eram restritas a resultados de exames de Covid-19 e algumas epidemias, priorizados por conta dos surtos recentes. Atualmente, são 43 doenças com notificação obrigatória por parte de laboratórios públicos e particulares.
Com as informações unificadas, são colocados holofotes em situações que antes estavam escondidas em números dispersos ou eram tratadas como achismos. Agora, sabe-se com precisão, por exemplo, que crianças e jovens indígenas têm três vezes mais risco de morrer por desnutrição e 14 vezes mais risco de morte por desidratação. “São dados importantes, principalmente em um país como o nosso, em que a saúde é um determinante social.”
Informações que transitam entre a atenção primária e os níveis de média e alta complexidades permitem que a parametrização ocorra em vários níveis, seja por controle do paciente, atuação médica, nível de atendimento e estrutura regionalizada, prevenção e combate a doenças e epidemias. “A integração de dados vem como respostas”, afirmou Paula Xavier. Bases anteriores serão aos poucos carregadas no sistema, como as do Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado há 53 anos.
Aplicativo. O aplicativo Meu SUS Digital é considerado o mais baixado da categoria saúde no Brasil, com 69 milhões de downloads e 29 milhões de usuários ativos. São mais de 30 funcionalidades disponíveis, entre exames, carteiras de vacinação, agendamentos e outros serviços. Uma das ferramentas mais acessadas é a Caderneta Digital da Criança, que registrou mais de 1 milhão de acessos desde seu lançamento, em abril de 2025.
Há ainda outras duas vertentes de aplicativos disponibilizados pelo Ministério da Saúde. O SUS Digital Profissional, como o nome sugere, é voltado aos trabalhadores do setor nos mais diversos níveis. Permite acesso ao histórico clínico do paciente, com acompanhamento contínuo do atendimento ao cidadão, independentemente da unidade de saúde. Eram 1,6 milhão de profissionais integrados ao aplicativo em 2025. Em 2023, eram apenas 9,4 mil. Além disso, havia 60,8 mil estabelecimentos integrados no ano passado, salto de 30 vezes em relação aos 2 mil de 2023, e 4 mil municípios registrados em 2025, 31,5 vezes em comparação com as 127 cidades de 2023.
Já o SUS Digital Gestores, que ainda está sendo aperfeiçoado, oferece uma ampla base de dados para tomada de decisão em saúde e vigilância para líderes em prefeituras e governos estaduais de todo o Brasil. Nesse caso, os dados são agregados e não individualizados, o que permite ao gestor público ter uma visão macro da saúde em sua administração.
Nuvem Soberana. O Ministério da Saúde realizou no dia 11 de agosto a Jornada para a Nuvem Soberana do SUS, estratégia desenvolvida em parceria com o Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro). Com isso, pela primeira vez os dados do sistema de saúde serão armazenados e processados em território nacional, submetidos exclusivamente à legislação brasileira. Com a Nuvem Soberana, há menor risco de interrupção de serviços, com mais proteção aos dados, aumento da governança, controle e continuidade do cuidado e integração federativa das informações.
Questões essenciais
O que é o SUS Digital?
O SUS Digital é um conjunto de iniciativas e soluções tecnológicas do Ministério da Saúde voltadas à transformação digital do Sistema Único de Saúde.
O que é a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS)?
A RNDS é a plataforma de interoperabilidade utilizada para integrar informações de diferentes sistemas de saúde e permitir o compartilhamento seguro de dados.
Quantos registros estão no SUS Digital?
Segundo o Ministério da Saúde, a plataforma reúne atualmente 5 bilhões de registros, ante 800 milhões em 2023.
