Pular para o conteúdo

Tecnologia

Primeira telecirurgia robótica de longa distância do SUS abre caminho para expansão nacional

Hospital de Amor já realizou 25 procedimentos entre Barretos (SP) e Porto Velho (RO) e pretende ampliar o modelo para toda a rede

Ilustração de Saúde Insider
Ilustração de Saúde Insider Crédito: Divulgação

Um paciente com neoplasia maligna no reto foi operado em Porto Velho (RO) por uma equipe médica que estava a 2.700 quilômetros de distância, em Barretos (SP). Realizada em 30 de junho deste ano, a cirurgia foi a primeira telecirurgia robótica de longa distância realizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), conectando duas unidades do Hospital de Amor. Até o final de julho, 25 procedimentos similares já haviam sido realizados. A perspectiva é de que o modelo seja levado para suas outras sete unidades da rede até o ano que vem e, num futuro próximo, para outros grupos de hospitais do SUS. “A ideia é levar como um benefício para o SUS. É um caminho sem volta”, disse o médico-cirurgião e diretor de Inovação do Hospital de Amor, Luis Romagnolo.

A cirurgia robótica convencional é realizada pelo SUS desde 2012. No setor privado, desde 2008. Nessa técnica, o cirurgião utiliza um console, e os comandos são reproduzidos pelo robô na mesma sala de cirurgia, proporcionando maior precisão aos movimentos. A telecirurgia segue o mesmo princípio, com a diferença de que o console e o robô estão em locais diferentes.

Na rede privada, a primeira telecirurgia robótica não experimental da América Latina foi realizada em outubro de 2025, entre o Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre (RS), e o Hospital Nove de Julho, em São Paulo (SP). O procedimento só foi aprovado para realização no SUS em 2026. Além do robô e do console, a operação exige uma infraestrutura com rede dedicada de fibra óptica, redundância de internet 5G e recursos de segurança para garantir estabilidade e baixa latência, ou seja, ausência de atraso significativo no tempo de resposta do robô ao comando do cirurgião. A diferença máxima permitida é de 300 milissegundos.

Essa conectividade é considerada o principal desafio para a difusão da prática. No caso da ligação entre Porto Velho e Barretos, a linha foi desenvolvida em parceria com o Ministério da Saúde e o Ministério das Comunicações, em uma iniciativa batizada de Rede de Conectividade Saúde Brasil de Alta Performance e Segurança, que recebeu R$ 2 milhões em investimentos. A conexão com o Norte do país é mais complexa em razão da escassez de redes de fibra óptica. Nas demais regiões, essa infraestrutura possui mais ramais. “Nós fizemos o mais difícil primeiro”, disse Romagnolo.

Acessibilidade a tratamentos. Para realizar os procedimentos a distância, o Hospital de Amor utiliza o sistema Toumai, uma plataforma robótica multibraços para cirurgia laparoscópica minimamente invasiva com capacidade integrada de telecirurgia. Fabricado pela MicroPort, o equipamento é distribuído no Brasil pela Hospcom. Conforme a empresa, ao ser incorporada pelo SUS, a telecirurgia poderá ampliar o acesso a tratamentos de alta precisão.

O CEO da Hospcom, Gabriel Coelho, destacou que, anteriormente, pacientes eram obrigados a se deslocar por grandes distâncias ou a se submeter a procedimentos mais invasivos e com menor chance de sucesso. “Um paciente não deveria correr risco por não ter condição de pagar. É uma questão de saúde pública”, disse o executivo. Para ele, uma mudança recente na dinâmica do mercado brasileiro tem contribuído para a expansão da oferta e uma tendência de redução dos custos da tecnologia.

Em 2008, foi realizada a primeira cirurgia robótica no Brasil e, por 14 anos, o segmento teve apenas uma plataforma disponível: o sistema Da Vinci, da Intuitive Surgical, distribuído no país pela Strattner. Essa realidade começou a mudar em 2022, com a entrada de outros players. Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) indica que o número de robôs cirúrgicos mais que dobrou no Brasil entre 2018 e 2023, passando de 51 para 111. A maior concorrência resultou em uma redução de 30% a 50% no custo de utilização dos equipamentos. Ainda assim, o número é pequeno. “Depois de 20 anos, atingimos 160 robôs em um país com 220 milhões de habitantes”, disse Coelho, destacando que nos Estados Unidos (340 milhões de habitantes) existem cerca de 6 mil robôs. Em maio de 2026, o governo federal anunciou a criação de financiamento permanente da cirurgia robótica para câncer de próstata no SUS, com investimento de R$ 50 milhões.

Embora a telecirurgia robótica exija investimentos em equipamentos e conectividade, o que torna o procedimento mais caro em relação a uma cirurgia tradicional, a Hospcom defende que a tecnologia pode resultar em economia para o SUS no longo prazo. O gerente nacional de Educação em Cirurgia Robótica da Hospcom, Eder Mattos, destacou que a cirurgia robótica reduz os índices de complicações, resultando em menor tempo de recuperação e menos dias de internação. “A cirurgia pode até ter um custo mais alto, mas o pós-operatório acaba sendo muito mais barato”, afirmou Mattos.

Formação profissional. Poucos meses antes da operação a longa distância, a FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) realizou a primeira telecirurgia robótica do SUS, conectando o Promin (Centro de Treinamento em Procedimentos Minimamente Invasivos) ao centro cirúrgico do HU-USP (Hospital Universitário da USP), a cerca de 15 quilômetros de distância. A iniciativa integrou o Projeto Telecirurgia Robótica da FMUSP, que visa consolidar parâmetros que possam servir de referência para a implementação do procedimento no SUS. O projeto é coordenado por José Pinhata Otoch, também professor titular do Departamento de Cirurgia da FMUSP e superintendente do HU-USP.

Segundo Otoch, a oferta está em fase de expansão gradual e descentralização para hospitais públicos de referência e centros de alta complexidade habilitados em oncologia pelo país. Além da conectividade, ele citou como entrave para a maior difusão da prática o preparo dos profissionais envolvidos em todas as etapas do cuidado. “Não existem cirurgiões em número adequado para esses procedimentos em maior escala. Nossa responsabilidade é pensar em estruturar essa demanda”, disse, acrescentando que a iniciativa de formação e capacitação está intimamente associada à difusão da cirurgia robótica pelo SUS.

Algumas iniciativas já estão sendo desenvolvidas no país. Em maio, o Hospital de Amor apresentou, em Barretos, o projeto do Centro de Pesquisa Clínica e Cirurgia Robótica, que visa ampliar a capacidade da instituição de integrar assistência oncológica, inovação médica, produção científica, formação profissional e acesso a tratamentos de alta complexidade. Em julho, a Hospcom inaugurou, em Goiânia, um centro de simulação voltado à capacitação prática de profissionais da área no uso de soluções tecnológicas, como cirurgia robótica, inteligência artificial e monitoramento remoto. A empresa investiu R$ 10 milhões na estrutura.

A expectativa é capacitar 1,7 mil profissionais por ano, sendo 1 mil na capital goiana e 700 em São Paulo, entre médicos, enfermeiros, engenheiros clínicos e outros profissionais da saúde. O objetivo é acelerar e tornar mais acessível a certificação para operar equipamentos como plataformas de cirurgia robótica, já que anteriormente era necessário buscar cursos no exterior, disse o CEO da Hospcom. “Antes o médico tinha que ir pros Estados Unidos ou para a Europa”, afirmou Coelho. “Essa oferta de treinamento local reduz o custo do desenvolvimento de médicos no nosso país.”

Questões essenciais

O que é uma telecirurgia robótica?

É um procedimento realizado com auxílio de um robô cirúrgico em que o cirurgião controla o equipamento a distância, a partir de um console localizado em outro local.

Qual foi a primeira telecirurgia robótica de longa distância do SUS?

O procedimento foi realizado em 30 de junho de 2026, conectando uma equipe médica em Barretos (SP) a um paciente operado em Porto Velho (RO), a cerca de 2.700 quilômetros de distância.

Qual é a vantagem da telecirurgia robótica para o SUS?

A tecnologia pode permitir que pacientes de regiões com menor oferta de especialistas tenham acesso a procedimentos de alta complexidade sem a necessidade de deslocamento para grandes centros.

Mais lidas

Mais em Tecnologia