Interoperabilidade: troca de dados tem um desafio (custos) e uma oportunidade (novas soluções)
Bionexo Tasy e MV, que estão entre as maiores empresas do setor, analisam projeto de lei que tramita há 13 anos para dar clareza regulatória ao trânsito de dados de pacientes
Duas das maiores fornecedoras de Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP) do Brasil olham para o projeto de lei que pretende regulamentar a troca de dados de saúde e enxergam uma oportunidade, embora reconheçam que os custos para novos entrantes possam ser um desafio. Para a Bionexo Tasy, o PL da Interoperabilidade (5.875/2013) pode multiplicar os negócios decorrentes da troca de informações. “Um ambiente regulatório claro estimula a inovação e beneficia todo o ecossistema”, afirmou Solange Plebani, CEO da companhia. A MV também vê o cenário como uma oportunidade para ampliar seus projetos.
Na avaliação da executiva da Bionexo, por um lado, o projeto aumenta os custos de compliance regulatório, o que pode elevar a barreira de entrada para novas empresas. “Por outro, a interoperabilidade permite a criação de soluções que podem ser benéficas para novas empresas e negócios”, afirmou Plebani.
A companhia desembolsou cerca de R$ 1 bilhão na aquisição do Tasy, software de gestão hospitalar e prontuário eletrônico que pertencia à Philips. O sistema possui atualmente cerca de 11 mil clientes e 1,2 milhão de usuários ativos na América Latina. A conclusão da negociação foi anunciada em fato relevante divulgado em 30 de abril deste ano.
Plebani afirmou que a consolidação do mercado é um movimento natural do amadurecimento tecnológico e que, quanto mais completo o ecossistema, maior é a necessidade de interoperabilidade. “Hospitais buscam parceiros capazes de oferecer plataformas mais completas, que integrem diferentes processos e apoiem decisões baseadas em dados”, disse.
A executiva citou ainda a iniciativa Tasy OpenAPI, plataforma unificada da companhia, como tradução técnica dessa estratégia. A solução tem arquitetura aberta e permite a integração entre diferentes sistemas e com o governo, possibilitando que hospitais construam ecossistemas tecnológicos cada vez mais conectados.
Para Plebani, o projeto, que prevê a obrigatoriedade de sistemas públicos e privados se conectarem à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) em um padrão único definido pelo Ministério da Saúde, pode viabilizar avanços na saúde digital, como a redução da repetição de exames, a criação de um histórico clínico unificado, a continuidade do cuidado em qualquer lugar do país e um prontuário eletrônico único para o paciente.
“Nós avançamos na direção de integrar sistemas, facilitar a circulação segura das informações e oferecer mais liberdade aos nossos clientes”, afirmou Plebani.
Geração de valor. Segurança e possibilidade de ampliar projetos também guiam a aposta da MV, uma das líderes do mercado de PEP, no cenário proposto pelo PL da Interoperabilidade. Jeferson Sadocci, diretor de Mercado e Cliente da companhia, afirmou que a empresa não vê riscos no projeto de lei. “Não enxergamos um impacto negativo ou disruptivo para o nosso negócio”, disse, ao observar que a MV sempre defendeu a interoperabilidade por acreditar que ela amplia a continuidade do cuidado e apoia a decisão clínica.
Sadocci afirmou que a base de clientes só tem a ganhar com o modelo proposto, desde que haja uma troca efetiva de informações entre os diferentes atores do sistema de saúde, gerando valor para quem está na ponta do atendimento: o paciente. A avaliação é de que um ambiente de troca segura de informações dá a hospitais, clínicas e gestores mais recursos para qualificar o cuidado e abre espaço para novos projetos. O foco em pesquisa e desenvolvimento, disse o diretor, é criar soluções que preservem a qualidade e o contexto das informações clínicas.
A expectativa é que a interoperabilidade nacional contribua para enriquecer esse ecossistema. Segundo dados da MV, suas soluções alcançam mais de 10 milhões de pessoas na saúde pública, estão presentes em dois terços das Unimeds e apoiam a gestão de 66 milhões de vidas. “Essa experiência nos dá uma visão concreta dos desafios e das oportunidades envolvidos na implementação da interoperabilidade em larga escala”, disse Sadocci.
As plataformas da empresa já são projetadas para atender às exigências de portabilidade dos dados dos pacientes e de substituição tecnológica previstas na versão atual do projeto de lei. O texto substitutivo em tramitação torna a interoperabilidade obrigatória para todos os sistemas utilizados por entes públicos e privados na área da saúde, conforme padrão único definido pelo Ministério da Saúde. A espinha dorsal do projeto é a RNDS, criada em 2020, à qual os sistemas privados também passariam a ter de se conectar.
O texto preserva a custódia dos dados no sistema de origem e veda a comercialização das informações. Antes de virar lei, o projeto ainda precisa avançar nas comissões de Saúde; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça, além de passar por votação em plenário da Câmara dos Deputados.
Questões essenciais
O que é interoperabilidade na saúde?
É a capacidade de diferentes sistemas e instituições de saúde trocarem e utilizarem informações de maneira estruturada e segura.
O que é o PL da Interoperabilidade?
É o projeto de lei que estabelece regras para a integração e a troca de dados entre sistemas públicos e privados de saúde, tendo a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) como parte central da estrutura proposta.
O que é a RNDS?
A Rede Nacional de Dados em Saúde é uma plataforma do Ministério da Saúde criada para permitir o compartilhamento de informações de saúde entre diferentes sistemas e serviços.
