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Colunista. “Na saúde, a informação virou grátis. A confiança, não.” Por Rodrigo Rocha

A inteligência artificial torna infinitos os dados, os conteúdos e até os protocolos de saúde. Ela não destrói o valor do setor. Expõe que ele passou 25 anos vendendo a coisa errada

Ilustração de Saúde Insider
Ilustração de Saúde Insider Crédito: Divulgação

Desde que as lojas de aplicativos surgiram, em 2008, mais de 1 milhão de apps de saúde foram criados. Dois terços já desapareceram do mercado. A IQVIA, que acompanha o setor, resume o motivo em uma frase: a maioria dos desenvolvedores não conseguiu se diferenciar. Guarde essa frase, porque ela vale para muito além dos aplicativos. Ela antecipa o que a inteligência artificial está prestes a fazer com boa parte da indústria de saúde e bem-estar.

Em 2008, o pensador Kevin Kelly escreveu que, quando as cópias se tornam superabundantes e gratuitas, elas perdem valor, e o que não pode ser copiado se torna escasso e caro. Tim Ferriss recuperou a tese em 2026, agora sob a lógica da IA. O argumento é simples e incômodo: a máquina não apenas reproduz informação, ela cria versões competentes de quase tudo em segundos. Num mundo assim, a pergunta deixa de ser “como vendo meu conteúdo” e passa a ser “que valor existe ao redor do conteúdo que a máquina não consegue reproduzir”.

Não há setor onde essa pergunta seja mais dura do que a saúde. Hoje, cerca de um terço dos adultos já recorre a ferramentas de IA para tirar dúvidas de saúde, número que quase dobrou em dois anos, segundo o instituto americano KFF. Existem 337 mil aplicativos de saúde disponíveis. ChatGPT e Amazon lançaram produtos que leem exames, explicam diagnósticos e montam recomendações. A informação de saúde, que já era abundante, tornou-se infinita e praticamente gratuita.

E aqui está o desconforto que o setor precisa encarar. Boa parte do que médicos, clínicas, coaches, consultorias e marcas de wellness cobram hoje é, no fundo, recuperação e síntese de informação. Exatamente o que a máquina faz de graça. E faz de um jeito que agrada: na mesma pesquisa, 92% dos usuários se disseram satisfeitos com as respostas de saúde da IA. Essa satisfação é a armadilha. Porque, ao mesmo tempo, apenas 18% de quem não usa confia nessas ferramentas, e 56% dos adultos admitem não saber distinguir o verdadeiro do falso numa resposta de IA. A máquina entrega respostas que satisfazem na superfície e em que quase ninguém confia de fato. O abismo entre “satisfatório” e “confiável” é a oportunidade inteira.

Porque a informação nunca foi o problema da saúde. Os dados brasileiros ilustram isso melhor do que qualquer argumento. Entre 2009 e 2024, a atividade física subiu de 30% para 42% da população, segundo o Vigitel, e ainda assim a obesidade dobrou, para 25,7%. As pessoas já tinham exames, wearables, aplicativos e conselhos de sobra. Continuaram adoecendo. Mais informação não curou ninguém. A IA multiplica justamente aquilo que já tínhamos em excesso e que nunca foi suficiente.

O que é escasso, então? Exatamente o que a máquina não copia. A interpretação, primeiro. Ter o dado é barato; entender o que dez fontes de dados significam juntas, o que merece atenção agora e o que pode ser ignorado, isso continua raro. A responsabilidade, em seguida. Uma IA gera um protocolo de longevidade em segundos, mas não assina embaixo, não responde por você, não assume o desfecho clínico. 

Na saúde, autenticidade não é um detalhe estético, como a assinatura numa obra de arte. É rastreabilidade, evidência e alguém que coloca o nome e o CRM em jogo. Depois, a relação ao longo do tempo. Um protocolo construído a partir dos seus biomarcadores, do seu sono e do seu histórico, e acompanhado por meses, não é reproduzível, porque o valor está no histórico acumulado, não no arquivo final. E, por fim, o corpo. Quanto mais digital o cuidado, mais valioso fica o que só existe no plano físico: a clínica, o retiro, o toque, a experiência presencial que nenhuma tela entrega.

Repare que nada disso é informação. Tudo é relação, julgamento, responsabilidade e presença. É o que o setor menos capitalizou em 25 anos, ocupado em vender medição e conteúdo, a camada que agora ficou de graça.

Para quem lidera saúde e wellness, a leitura estratégica é direta e um pouco cruel. O concorrente não é a IA. É a indiferenciação. A empresa vulnerável é aquela cuja proposta cabe na frase “produzimos informação que qualquer sistema também produz”. Foi isso que matou dois terços de um milhão de aplicativos antes mesmo de a IA amadurecer. Agora a máquina termina o serviço com o que sobrou.

O Brasil expõe a saída melhor do que quase qualquer país, porque aqui a fragmentação é gritante. O paciente tem exames em um lugar, o relógio em outro, a receita em um terceiro, o médico em um quarto, e agora uma resposta de chatbot por cima de tudo. O que ninguém tem é uma visão única, confiável e acionável, com um responsável claro pelo resultado. Vence não quem produzir mais informação, batalha que a máquina já ganhou para sempre, mas quem se tornar o integrador de confiança e tiver coragem de assumir o desfecho.

É por isso que conteúdo gratuito deixou de ser perda de receita e virou infraestrutura de confiança. O relatório, a newsletter e o artigo distribuem repertório e provam consistência. A monetização acontece no que exige presença, contexto, responsabilidade e acesso. O PDF pode ser grátis; a interpretação e a execução são pagas. A notícia é commodity; conectar os pontos é o produto.

No fundo, a IA não elimina o valor premium na saúde. Ela muda o que pode ser premium. Não será mais o dado, o exame ou o protocolo genérico. Será o acesso, o julgamento, a garantia, o pertencimento e a responsabilidade. A máquina comprime o preço da informação e, no mesmo movimento, eleva o preço da confiança.

Há uma última coisa que a IA não faz, e é a mais escassa de todas na medicina. Ela pode gerar mil respostas, mas não pode olhar para você e dizer “é isto que esses números significam, é isto que você vai fazer, e eu respondo pelo resultado”. A IA é 92% satisfatória e 0% responsável. O setor que passou 25 anos vendendo informação agora precisa aprender a vender confiança. Quem não aprender será substituído por um chatbot que agrada muito e não responde por nada.

RODRIGO ROCHA é sócio da Athlete, venture builder focada em investimentos em negócios disruptivos em saúde. O executivo é investidor, conselheiro, empreendedor e palestrante.

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