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“Inovação em saúde exige colaboração do setor público e iniciativa privada.” Por Claudio Lottenberg

Da pesquisa à aplicação prática, o desafio é criar condições para que novos tratamentos, tecnologias e soluções cheguem a quem precisa

Ilustração de Saúde Insider
Ilustração de Saúde Insider Crédito: Divulgação

O Brasil não enfrenta uma escassez de inovação em saúde. O verdadeiro desafio é fazer com que ela chegue aos pacientes com a velocidade e a escala de que o país precisa. Vivemos uma era marcada por avanços extraordinários. A inteligência artificial transforma o diagnóstico e o tratamento de doenças, terapias avançadas ampliam as chances de cura para enfermidades complexas e a medicina personalizada inaugura uma nova fronteira do cuidado. Mas esses avanços só fazem sentido quando se traduzem em cobertura de saúde para todos.

Em um cenário em que cerca de 150 milhões de brasileiros dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) para realizar consultas, exames, tratamentos e ter acesso a medicamentos, reduzir o tempo entre o desenvolvimento de uma inovação e sua chegada ao paciente não é apenas uma questão tecnológica, e sim de equidade e humanidade. Projeções do IBGE mostram que até 2050 cerca de 30% dos brasileiros terão mais de 60 anos, o que aumentará a incidência de doenças crônicas e a demanda por tratamentos mais modernos, ao mesmo tempo em que aumentará a pressão sobre os sistemas público e privado.

Responder a esse desafio exigirá mais do que capacidade de produzir conhecimento. O Brasil reúne centros de excelência em pesquisa, profissionais qualificados e uma indústria capaz de desenvolver soluções inovadoras. O desafio está em transformar essa capacidade em acesso efetivo.

Nesse processo, a iniciativa privada exerce papel estratégico. Empresas farmacêuticas, fabricantes de dispositivos médicos, hospitais, operadoras de saúde e healthtechs investem continuamente em pesquisa, desenvolvimento e transformação digital. Essas organizações também impulsionam a pesquisa clínica, difundem tecnologias e estabelecem parcerias que contribuem para acelerar a chegada da inovação aos pacientes.

Mas a capacidade de investimento e desenvolvimento do setor privado precisa encontrar um ambiente capaz de transformar inovação em acesso. Processos regulatórios e de incorporação tecnológica mais ágeis, previsíveis e eficientes são fundamentais para reduzir o tempo entre o desenvolvimento de uma solução e sua disponibilização à população. É nesse ponto que o poder público exerce papel decisivo: cabe ao Estado criar as condições regulatórias e institucionais para que a inovação possa avançar com segurança e alcance.

A pesquisa clínica talvez seja o exemplo mais evidente desse potencial. O Brasil possui população numerosa, diversidade genética, profissionais qualificados e hospitais de excelência, características que o tornam altamente competitivo para atrair estudos internacionais. Ainda assim, o país responde por apenas cerca de 2% dos estudos clínicos iniciados no mundo, desempenho incompatível com a dimensão de seu mercado e de sua capacidade científica.

Essa é uma oportunidade que não podemos desperdiçar. Estudo da Interfarma, em parceria com a IQVIA, estima que, caso o Brasil avance para a 10ª posição no ranking mundial de pesquisa clínica, poderá atrair R$ 2,1 bilhões por ano em investimentos diretos, movimentar R$ 6,3 bilhões na economia, gerar 56 mil empregos qualificados e permitir que cerca de 286 mil pacientes tenham acesso antecipado a terapias inovadoras. Mais do que indicadores econômicos, esses números representam vidas impactadas e um sistema de saúde mais preparado para responder aos desafios do futuro.

A colaboração entre os setores público e privado já produz resultados concretos. O Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS), por exemplo, reúne hospitais de excelência em projetos de pesquisa, inovação, capacitação e gestão voltados ao fortalecimento do sistema público. Apenas no triênio de 2021 a 2023, foram desenvolvidos 169 projetos, contribuindo para a incorporação de conhecimento, tecnologias e melhorias na assistência.

Outro vetor indispensável é a transformação digital. Ferramentas como inteligência artificial, telemedicina, interoperabilidade de dados e monitoramento remoto ajudam a reduzir barreiras geográficas, ampliar o acesso a especialistas e qualificar a tomada de decisão clínica. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, essas tecnologias deixaram de ser apenas inovação: tornaram-se instrumentos concretos para reduzir desigualdades no acesso à saúde.

Ampliar o acesso à inovação, portanto, vai muito além da incorporação de novos medicamentos ou equipamentos. Significa construir um sistema de saúde mais eficiente, sustentável e preparado para responder aos desafios demográficos e epidemiológicos das próximas décadas. Isso passa por incentivos à pesquisa, segurança regulatória, novos modelos de financiamento e processos de incorporação mais eficientes.

A iniciativa privada tem um papel fundamental nessa transformação: investir, pesquisar, desenvolver tecnologias, gerar conhecimento e criar soluções capazes de melhorar a assistência. Ao poder público cabe garantir um ambiente regulatório previsível, reduzir entraves burocráticos e criar mecanismos que permitam que essas inovações sejam incorporadas de maneira segura e sustentável. Academia, prestadores de serviços e demais atores do setor também têm responsabilidades nesse processo.

A inovação só cumpre seu verdadeiro propósito quando deixa os laboratórios e chega às pessoas. Transformar conhecimento científico em acesso efetivo depende, portanto, da capacidade de aproximar quem desenvolve, quem investe, quem regula e quem presta o cuidado. Essa integração é uma das maiores oportunidades para construir um sistema de saúde mais justo, resiliente e capaz de oferecer cuidado de qualidade para todos.

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