Que futuro queremos para a saúde suplementar? Por Lenise Secchin, diretora da ANS
Pensar o futuro da saúde suplementar exige começar por uma pergunta aparentemente simples: que setor de saúde queremos construir para os próximos anos?
Um setor capaz de incorporar os avanços da medicina, ampliar o acesso e oferecer melhores resultados em saúde, certamente. Mas também sustentável, que compreenda que recursos são finitos e que cada decisão produz consequências não apenas para um paciente, uma operadora ou um prestador, mas para toda a coletividade que compartilha os custos do cuidado.
A saúde está ficando mais cara em todo o mundo. O envelhecimento da população, o aumento das doenças crônicas, a ampliação da capacidade diagnóstica e a chegada de tecnologias cada vez mais sofisticadas pressionam continuamente os custos assistenciais. Medicamentos de altíssimo custo, terapias avançadas e medicina de precisão oferecem possibilidades antes inimagináveis. Isso é extraordinário. Mas inovação e sustentabilidade precisam caminhar juntas.
Afinal, quem paga a conta da saúde suplementar são, em última instância, as pessoas e as empresas que contratam os planos de saúde. Se os custos crescem persistentemente acima da capacidade de financiamento da sociedade, o resultado pode ser exatamente o oposto daquele que desejamos: redução do acesso.
Por isso, discutir sustentabilidade não significa defender menos saúde. Significa buscar mais saúde para cada recurso investido.
Nesse cenário, a coordenação do cuidado torna-se fundamental. Ainda temos um modelo fragmentado, no qual profissionais, serviços, exames e tratamentos nem sempre se comunicam adequadamente. O paciente percorre o sistema, mas o sistema nem sempre acompanha a trajetória do paciente.
Precisamos avançar para modelos que valorizem prevenção, atenção primária, acompanhamento longitudinal, integração das informações e avaliação de resultados. Dados e tecnologia podem contribuir para identificar riscos precocemente, evitar desperdícios, melhorar decisões clínicas e oferecer um cuidado mais personalizado.
Também precisamos amadurecer a forma como incorporamos novas tecnologias. A Avaliação de Tecnologias em Saúde é essencial para distinguir novidade de inovação que efetivamente agrega valor. É necessário avaliar evidências científicas, benefícios clínicos, segurança, custo-efetividade e impacto orçamentário, além de acompanhar os resultados no mundo real.
Novos modelos — como negociações com descontos, incorporações condicionadas e mecanismos de compartilhamento de risco — podem ampliar o acesso à inovação com maior responsabilidade e previsibilidade. Ao mesmo tempo, torna-se cada vez mais urgente estabelecer políticas de priorização que considerem as necessidades de saúde da sociedade, direcionando os recursos disponíveis para tecnologias e cuidados capazes de produzir maior benefício para as pessoas e para o sistema.
Mas há outra transformação indispensável e talvez menos tecnológica: precisamos melhorar a forma como os atores do setor se comunicam e se relacionam.
A saúde é marcada por forte assimetria de informação. Beneficiários nem sempre compreendem as regras de seus contratos ou as razões de determinadas decisões assistenciais; operadoras precisam comunicar melhor seus processos e critérios; e prestadores ocupam posição essencial não apenas na assistência, mas também na orientação e na construção da confiança.
Quando a informação não circula de maneira clara, tempestiva e compreensível, surgem insegurança, desconfiança e conflito. Um sistema no qual seus participantes não confiam uns nos outros tende a ser mais litigioso, mais defensivo e menos eficiente.
Precisamos substituir uma lógica de relações predominantemente transacionais por uma cultura de diálogo, transparência e corresponsabilidade. Isso significa ouvir mais, explicar melhor as decisões, ampliar a compreensão sobre direitos, deveres e limites e criar canais capazes de solucionar dúvidas e divergências antes que se transformem em conflitos.
Confiança não se estabelece por norma. Ela é construída pela coerência entre aquilo que se comunica e aquilo que efetivamente se entrega.
Esse talvez seja um dos grandes desafios para o futuro: fazer com que beneficiários, operadoras e prestadores deixem de se perceber como partes em permanente oposição e reconheçam que integram um mesmo ecossistema, no qual decisões individuais repercutem sobre o coletivo.
O futuro que queremos deve combinar inovação com evidência, acesso com responsabilidade, tecnologia com cuidado humano, informação com transparência e sustentabilidade com confiança.
Porque o futuro da saúde suplementar será definido pelas escolhas que fizermos sobre como cuidar, comunicar, incorporar, financiar e compartilhar responsabilidades.
O futuro da saúde não se espera. Constrói-se coletivamente.
