Kalache: “Precisamos dar um banho de gerontologia aos futuros profissionais da saúde”
Formado há 56 anos e ativista do envelhecimento ativo, Alexandre Kalache – finalista do Prêmio Jabuti com livro sobre longevidade – afirma que a questão deve ser prioridade nacional. Incluindo as escolas de Medicina
Quando se formou, em 1970, Alexandre Kalache pouco ou quase nada ouvira falar sobre geriatria. Na época, era até compreensível, observou, já que os idosos não chegavam a 5% da população brasileira. “O que não é inadmissível é que hoje, 2026, termos quase 500 escolas de medicina e só em 10% geriatria é disciplina obrigatória”, afirmou o autor do livro A Revolução da Longevidade (Editora Vestígio, 2025), cujo subtítulo traz um questionamento: “Vivemos mais do que nunca. Mas estamos preparados para isso?”. A resposta simples é “não”. O que se torna mais preocupante com o processo de envelhecimento da população. Kalache considera o livro, finalista do Prêmio Jabuti deste ano (na categoria Saúde e Bem-Estar), “uma carta aberta para os jovens de hoje, para envelhecerem melhor que os da minha geração”. Ele tem 81 anos. “Acima de tudo, o Brasil precisa parar de tratar o envelhecimento como problema e tratá-lo como prioridade nacional.” É também uma questão global: os 60+ serão 1,4 bilhão logo ali, em 2030 (400 milhões a mais do que em 2020), e chegarão a 2,1 bilhões em 2050, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).
Essa prioridade ainda não acontece na medicina. Em torno dos 11% dos recém-formados de 2023 optaram por Obstetrícia/Ginecologia para a residência, mesmo percentual dos que escolheram Pediatria, cita Kalache. Geriatria, nem 0,5%. O mesmo se passa com áreas ligadas à saúde. “A maioria desses profissionais ainda é treinada para um mundo que, em certo sentido, não existe mais”, escreveu. “Precisamos dar um banho de gerontologia para esses futuros profissionais”, afirma o médico, que durante 13 anos – de abril de 1995 a março de 2008 – comandou o Programa Global de Envelhecimento da OMS (Organização Mundial de Saúde). Ali, procurou expandir o espectro do programa, até então mais voltado para doenças, para incluir abordagens sobre a inserção do idoso no mundo. Para ele, a maior conquista em um século foi adicionar anos à vida. “O grande desafio do século em que vivemos será adicionar vida aos anos.” Em 2002, a OMS aprovou o MPEA (Marco Político do Envelhecimento Ativo), que tem qualidade de vida e participação social entre seus pilares. Agora, estamos bem no meio da Década do Envelhecimento Saudável.
O Brasil somava 3,2 mil geriatras em 2024 – 0,7% das especializações. Os pediatras, por exemplo, eram 47,8 mil (10%) e o ginecologistas/obstetras, 35,5 mil (7,4%), segundo a publicação Demografia Médica no Brasil 2025. É verdade que o número de profissionais dedicados ao último período da vida vem crescendo mais em comparação com os que trabalham com os primeiros anos. De 2011 para 2024, o total de geriatras cresceu 378,4%, bem mais do que o de pediatras (89,6%) e o de ginecologistas e obstetras (69,9%). Isso também ocorre no estado de São Paulo, com 1,2 mil geriatras em 2025, crescimento de 374,4% em relação a 2011, mas com apenas 0,8% do total.
O ritmo, porém, está longe de acompanhar a necessidade. Em 2024, a população idosa no Brasil chegou a 34,1 milhões, segundo o IBGE. Os 3,2 mil geriatras daquele ano corresponderiam a aproximadamente 1 profissional para cada 10,6 mil idosos. A recomendação da OMS é de 1 para cada mil. Ou seja, o país deveria ter quase 31 mil geriatras a mais. Um número que só seria atingido se todos os formandos de um ano inteiro escolhessem essa área. E a transformação demográfica já começou, misturando envelhecimento com diminuição do número de crianças. Quando Kalache se formou (1970), a taxa de fecundidade estava próxima de 6 filhos por mulher. Atualmente, não chega a 2. “Há mais de 25 anos não geramos crianças suficientes para repor nossa população. Desde o início do século, o único grupo populacional que cresce no Brasil é o dos maiores de 60 anos.”
Idadismo. O médico carioca nasceu justamente em Copacabana, bairro da zona sul do Rio de Janeiro conhecido pela concentração de idosos. O hospital onde nasceu há muito tempo deixou de ter serviço de maternidade. Copacabana não tem mais maternidades. Sua mãe – que morreu aos 103 anos, em 2020 – disse que ele poderia ser o que quisesse – desde que fosse médico. “Eu não queria fazer medicina convencional”, disse Kalache. “O que eu queria mesmo era estar voltado para o lado social. Só que não tinha conhecimento do desafio populacional.” Ele foi “ativista em tempos difíceis”. Em 1968, presidia o diretório acadêmico na Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, que depois se tornaria a Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pertence a uma geração, como assinalou no livro, “que passou a juventude protestando e não nos tornamos velhinhos conformados e silenciosos”. Ainda adolescente, realizou trabalho voluntário com dom Helder Câmara (1909-1999), bispo ligado aos direitos humanos. “Isso me formou como pessoa. Procuro ser coerente com meu passado, mas também aprender.” Em uma sociedade, como define, “classista, hedonista, supremacista, sexista e agora também idadista”. Kalache considera esse termo mais preciso em relação ao “etarista”.
O envelhecimento precisa estar no centro das políticas públicas, defende o profissional da saúde. “Não existe envelhecimento saudável se a gente não enfrentar a desigualdade social.” Ele lembra dos tempos da faculdade, e já formado, da multidão esperando para ser atendida no hospital universitário, pessoas que haviam passado a noite e muitas vezes voltavam sem conseguir ver um médico. Nesse sentido, o médico considera o SUS “redentor, uma conquista social civilizatória”, que em tempos recentes correu o risco de “desaparecer ou ser emasculado”. Lamentou a “falta de letramento científico” existente, segundo diz, durante a pandemia. “E, infelizmente, ainda tenho colegas que defendem isso.” A uma pergunta sobre sua rotina, diz não ser exemplo de nada, privilegiado socialmente. “A gente não pode olhar para uma sociedade tão desigual pelas exceções. Eu tenho propósitos. Por isso, tento estabelecer em prática alguns princípios fundamentais”, afirma, citando o conceito de envelhecimento ativo, em que a saúde pública tem papel decisivo.
Como ativismo não tem idade, Kalache se dedicou em outubro ao comparecimento eleitoral do público 70+, que não é obrigado a votar. Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), na faixa de 70 a 74 anos, por exemplo, foram às urnas 4,8 milhões, 69% do total. No plano institucional, ele cita o Decreto 12.562, de 2025, que criou o Plano Nacional de Cuidados, como sinal positivo, mas que depende, para funcionar, de “ampla mobilização social, acadêmica e empresarial”. E se posiciona, em princípio, contra a criação do Ministério do Idoso, que entrou na lista de especulações do futuro governo. Ele acredita que a pasta, fragmentada e setorizada, teria pouca força política e econômica. Seria mais um entre diversos ministérios. Em tese, para funcionar, precisaria ser “empoderado” e com transversalidade. Ou seja, suas ações teriam de envolver outros setores do governo, como saúde e educação. Claro, o nome seria outro, e nem poderia ser diferente: Ministério da Longevidade.
Questões essenciais
Quem é Alexandre Kalache?
Médico gerontólogo, 81 anos, ajudou a criar e espalhar o conceito de envelhecimento ativo. Durante 13 anos, comandou programa com essa finalidade na OMS
Do que trata o livro?
Finalista do Prêmio Jabuti, o livro A Revolução da Longevidade trata – a partir de uma ótica pessoal – dos desafios que a mudança demográfica impõe, com presença cada vez maior da população 60+ no Brasil
O que é envelhecimento ativo?
Propõe que a atenção aos idosos não se limite ao tratamento de doenças, mas tenha políticas públicas que ajudem a proporcionar qualidade de vida e participação social (inclusão)
