“Muitos pacientes relatam melhor acolhimento em telemedicina”, diz Carlos Pedrotti
Gerente do Centro de Telemedicina do Einstein diz que há uma mudança no perfil. "Era mais voltado ao pronto atendimento e cresce para algo que envolve especialidades e atendimento longitudinal"
Pode soar um contrassenso, mas muitos pacientes relatam ser mais bem acolhidos em consultas feitas por telessaúde do que presencialmente. O relato é de Carlos Pedrotti, uma das maiores referências no setor, atual conselheiro e ex-presidente da Saúde Digital Brasil, gerente-médico do Centro de Telemedicina do Einstein Hospital Israelita e especialista em Ciência de Dados pela Johns Hopkins University. Segundo o cardiologista, o acesso a um profissional de saúde é um dos parâmetros mais relevantes que a telemedicina proporciona e é justamente esse fato que provoca a sensação positiva ao usuário.
“É uma imensa solução logística para a saúde como um todo”, afirmou Pedrotti, em entrevista ao Saúde Insider. Ou seja, quem não tinha a possibilidade de se consultar com um médico agora tem, ainda que por uma tela de celular ou computador, e agradece por isso. Pedrotti fundou o Centro de Telemedicina do Einstein em 2012. Sob sua gestão, o hospital expandiu o atendimento a distância para mais de 3 milhões de atendimentos desde que foi implementado, em 4 mil municípios brasileiros e mais de 100 países.
Segundo o painel de indicadores da Saúde Digital Brasil, em parceria com o Datalab da Serasa Experian, o número de atendimentos em telemedicina no Brasil foi de 3,1 milhões em 2025. Mas, de acordo com o especialista, esses números são apenas uma parte do todo, pois parcela significativa dos atendimentos ainda não é mensurada. O que compromete “tomadas de decisão de investidores, dimensionamento de mercado e calibração de políticas públicas”, segundo Pedrotti. Confira abaixo a entrevista:
Saúde Insider – Telemedicina já era tendência, mas a pandemia acelerou o serviço mundo afora. Qual é o atual momento do setor?
Carlos Pedrotti – Houve estabilização da utilização ao longo dos últimos anos. Mas está bem nítido, pelos dados do setor no Brasil, que continua havendo aceleração, embora menos aguda do que no pico da pandemia, entre 2020 e 2022. Essa aceleração da utilização continua com uma mudança do perfil de atendimento.
Saúde Insider – O que mudou?
Carlos Pedrotti – Sai de um perfil inicial, mais voltado à substituição do pronto atendimento, para algo que envolve especialidades e atendimento longitudinal por meio da atenção primária à saúde.
Saúde Insider – Estamos muito distantes de nações mais desenvolvidas em termos de estrutura e cultura de telemedicina?
Carlos Pedrotti – Pelo contrário. Estamos bem avançados e à frente de outros países. Esse é um perfil muito característico da população brasileira, de ser early adopter [pioneiro na utilização] de algumas tecnologias de comunicação. A questão da conectividade praticamente deixou de ser um grande obstáculo. Houve grande disponibilidade entre os provedores de serviço, principalmente no setor privado, mas isso tem crescido também no sistema público de saúde, embora ainda haja grande heterogeneidade de disponibilidade, principalmente na comparação entre os setores privado e público.
Saúde Insider – Segundo o painel de indicadores da Saúde Digital Brasil, o número de atendimentos em telemedicina no país foi de 3,1 milhões em 2025 e 7,9 milhões desde 2020. São números altos ou baixos para a realidade brasileira?
Carlos Pedrotti – Tenho muita familiaridade com os dados porque fui um dos responsáveis pelo painel. Esse painel é apenas um retrato de uma parcela dos provedores de saúde digital. Os números reais são ordens de grandeza acima dele. Esse número é apenas um retrato ainda parcial de alguns grandes provedores, que não representam a totalidade dos atendimentos do país.
Saúde Insider – O que é necessário para ter números mais acurados?
Carlos Pedrotti – Uma das grandes questões é não só a capacidade de divulgação e agregação, trabalho importante que a Saúde Digital Brasil está realizando, como também a interoperabilidade dos dados, principalmente para que se consiga agregar esses volumes em nível nacional.
Saúde Insider – Ainda segundo a Saúde Digital Brasil, o índice de resolutividade de telemedicina é de 72,9%. É um bom índice?
Carlos Pedrotti – A resolutividade depende muito da cultura de adoção. Existindo cultura adequada de adoção, você direciona os casos que são altamente solúveis por atendimento remoto, com muita segurança. Se esses casos forem direcionados adequadamente para a modalidade adequada de atendimento, a tendência é de que a resolutividade só aumente ao longo do tempo.
Saúde Insider – O índice varia entre as especialidades?
Carlos Pedrotti – O número representado é bastante heterogêneo porque não foi separado por modalidade de atendimento. Se colocar a modalidade de atendimento a distância como a telepsicologia, a resolutividade é imensa, perto de 100%. Enquanto isso, se atender ao mesmo tempo casos mais complexos de uma especialidade cirúrgica, a viabilidade de fazer o atendimento a distância sem o exame clínico presencial é bastante reduzida. Então é preciso ponderar o número com base na modalidade que está sendo executada.
Saúde Insider – O atendimento em telemedicina tem avançado tanto no setor privado quanto no público ou existe disparidade?
Carlos Pedrotti – Com certeza existe.
Saúde Insider – Por quê?
Carlos Pedrotti – Porque há uma questão de disponibilidade de serviços para o setor público, que é um grande desafio. No setor público brasileiro, estamos falando de milhões de pessoas que precisam ser assistidas de forma equânime. Quando há um serviço privado que atende milhares de vidas, existe uma complexidade. Se estendemos isso para uma população inteira, muda a ordem de grandeza da complexidade.
Saúde Insider – Quais benefícios a telemedicina gera para a saúde como um todo?
Carlos Pedrotti – O benefício mais óbvio é o encurtamento das distâncias. Estamos falando de acesso, e esse é o principal ponto. Num país continental como o Brasil, há distâncias e dificuldades de acesso da população não só à saúde como um todo, mas principalmente a diversas especialidades, a diversos médicos e a populações específicas com mais dificuldade de acesso, como idosos e pessoas com deficiências. Eu diria que a telemedicina é uma imensa solução logística para a saúde como um todo.
Saúde Insider – Quais as inovações que têm revolucionado o atendimento remoto?
Carlos Pedrotti – As inovações decorrentes do atendimento por telemedicina são muito decorrentes do controle absoluto da jornada do paciente ao longo desse trajeto. Isso faz com que tenhamos capacidade de geração de informações. Isso gera uma quantidade enorme de dados que são processados e geram insights para os gestores.
Saúde Insider – O atendimento a regiões distantes, de pessoas que talvez não tivessem acesso, acaba refletindo em acolhimento e humanização?
Carlos Pedrotti – Com certeza. Costumo parafrasear um grande professor de telemedicina no Brasil, o professor Chao [Chao Lung Wen, da USP]. Na época em que se discutia a dignidade do atendimento por telemedicina, ele dizia que nada é mais indigno do que não ter atendimento.
Saúde Insider – Sob sua liderança, o Einstein expandiu os serviços de telemedicina para mais de 3 milhões de atendimentos, atingindo 4 mil municípios brasileiros e mais de 100 países. Quais foram os desafios para colocar esse projeto de pé?
Carlos Pedrotti – O principal foi o de desenvolver os processos do zero. Não existia nenhuma plataforma tecnológica, não existia benchmark. Fomos muito pioneiros. Tivemos que descobrir por nós mesmos os caminhos que levariam a um atendimento de excelência. Isso nos colocou numa posição muito favorável no momento da pandemia.
Saúde Insider – Por qual motivo?
Carlos Pedrotti – Porque esses caminhos já estavam construídos e precisamos ganhar escala. Na pandemia, o desafio foi exatamente esse: necessidade de crescimento muito rápido da superfície de atendimento. O desafio seguinte foi garantir a excelência do atendimento mesmo em escala.
Saúde Insider – E agora, quais os desafios?
Carlos Pedrotti – Interoperar esses dados e expandir o escopo do atendimento além do episódico. Esse é um dos grandes pontos de evolução da telemedicina e da saúde digital como um todo: como sair de um atendimento episódico e passar a cuidar da saúde do paciente de forma longitudinal?
Saúde Insider – Como funciona esse trabalho no exterior?
Carlos Pedrotti – Quem liderou o desenvolvimento da telemedicina e chamou mais atenção foram realmente os Estados Unidos. Desde a década de 1990 você já via iniciativas bastante importantes de teleatendimento.
Saúde Insider – Europa é referência?
Carlos Pedrotti – A Europa evoluiu de forma bastante heterogênea, mas com alguns países até hoje atrás do Brasil, como é o caso da Alemanha, onde a telemedicina ainda é muito incipiente. Outros conseguiram avançar bastante, como Portugal e Inglaterra.
Saúde Insider – E a China?
Carlos Pedrotti – É completamente outro modelo.
Saúde Insider – De vanguarda?
Carlos Pedrotti – Eles estão extremamente avançados.
Saúde Insider – Por algum motivo em particular?
Carlos Pedrotti – Em geral, pelo controle único estatal dos serviços de saúde e uma plataforma única de registro. O que torna o país uma situação ímpar. Também chamam atenção países altamente tecnológicos, como a Coreia do Sul, que demorou muito mais que nós para avançar na telemedicina e apenas mais recentemente tornou o atendimento remoto uma realidade no país, por mais que estivessem a anos-luz em termos de capacidade tecnológica.
Saúde Insider – Existe um perfil específico do paciente de telemedicina no Brasil?
Carlos Pedrotti – Na realidade não é bem um perfil, mas são características claramente óbvias da sua possibilidade de aplicação. O primeiro deles é o paciente de saúde mental. Esse está crescendo demais, é uma curva exponencial de adoção e precisa ser monitorado. O segundo é o paciente com situações agudas de baixa complexidade.
Saúde Insider – A regulação incentiva a telemedicina?
Carlos Pedrotti – Existe esse fator da regulação que está começando muito no sistema público. Essa é uma das utilizações mais interessantes.
Saúde Insider – Que tipo de geração de dados a telemedicina pode ter para orientar melhores decisões dos médicos?
Carlos Pedrotti – A telemedicina não difere muito do atendimento presencial quando os dados são inseridos digitalmente no sistema. Uma das situações que hoje mais têm chamado atenção, principalmente com a evolução de alguns sistemas de inteligência artificial, é a chamada transcrição automática da consulta. Grava o áudio, que é transcrito em texto e ele gera um resumo automatizado da consulta.
Saúde Insider – A ética profissional é um pilar importante e um desafio quando se trata de telemedicina. Quais os principais pontos de atenção nesse aspecto?
Carlos Pedrotti – A telemedicina, em essência, é um atendimento médico convencional. Não existe diferença entre os critérios éticos utilizados na telemedicina e na prática presencial. É exatamente a mesma coisa. Acho que esse é um ponto muito relevante.
Saúde Insider – Os riscos e desafios são iguais, então?
Carlos Pedrotti – Os riscos que o médico assume ao não estar presente fisicamente são análogos, por exemplo, a quando você está presencialmente e não solicita determinado tipo de exame. O básico de uma condução adequada de uma consulta remota é garantir autonomia tanto do médico quanto do paciente para não continuarem aquela consulta, caso não se sintam seguros para a continuidade do atendimento. Isso e diversos outros pontos estão garantidos em lei hoje [lei 14.510].
Saúde Insider – Em um post no LinkedIn sobre o relatório Healthcare AI Industry Report 2026, da rede Arise, o senhor mostrou que a IA já escala na saúde, mas as evidências de resultados não. O que isso significa?
Carlos Pedrotti – Um dos pontos importantes que temos levantado muito é que, embora esteja escalando cada vez mais o uso de IA em diversos setores da economia, na saúde isso é ainda mais sensível. Um dos pontos fundamentais é que não se está medindo adequadamente a sua eficácia, a sua validação. Essa é a crítica.
Saúde Insider – O que é necessário?
Carlos Pedrotti – Precisamos medir se o resultado está sendo benéfico para o paciente e para a sustentabilidade das instituições, para evitar uma situação de panaceia, em que simplesmente as soluções são colocadas no mercado, mas não vão trazer benefício efetivo para a sustentabilidade do setor e, às vezes, também não trazem para a saúde do paciente.
Saúde Insider – Quais métricas são relevantes para medir esse resultado?
Carlos Pedrotti – Não é uma coisa fácil. Mas é algo que nunca deve deixar de ser observado: medir adequadamente se uma solução está realmente trazendo benefício para o sistema.
Saúde Insider – A RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde), que está sendo estruturada pelo Ministério da Saúde, já reúne mais de 5 bilhões de registros. O que a RNDS muda nesse jogo?
Carlos Pedrotti – A RNDS é uma estrutura que está nas fases iniciais de sua implementação e é extremamente complexa pelo volume de dados que podem trafegar por essa rede. Existe um esforço muito grande das instâncias governamentais em operacionalizar essa rede de forma adequada. No entanto, é muito importante ter em mente que não é a construção de um prontuário único e sim a construção de um vocabulário comum, de um endereçamento em que as informações conseguem trafegar para quem interessa, que no caso é o paciente, o dono do dado.
Saúde Insider – Mas o senhor está otimista?
Carlos Pedrotti – Sim. Existem iniciativas que estão tramitando na Câmara, projetos de lei avançados na Comissão de Saúde, que discutem exatamente quais devem ser os próximos passos da troca de informações entre os sistemas de saúde, tanto no público quanto no privado.
