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Economia

O “crescimento avassalador” da China no desenvolvimento de medicamentos

Diretor da Eurofarma ressalta expansão do país asiático em pesquisa e inovação. E lembra que o fim das exclusividades de patentes "abre uma janela para ganhar mercado"

Crédito de Foto: Magnific/Divulgação
Crédito de Foto: Magnific/Divulgação Ilustração de Saúde Insider

O avanço chinês no campo clínico é “avassalador”, segundo o diretor-executivo de Relações Institucionais da Eurofarma, Walker Lahmann, que durante evento realizado neste mês em São Paulo (Future Pharma) apresentou dados sobre a expansão asiática nas duas últimas décadas. De 2009 para 2024, por exemplo, a origem do desenvolvimento clínico se deslocou. Ainda se concentra principalmente nos Estados Unidos, mas a participação desse país recuou de 39% para 35%, enquanto na Europa caiu para menos da metade, de 44% para 21%. A China, que respondia por 1%, passou para 30% nesse período. O Japão foi de 10% para 3% e a Coreia do Sul, de 2% para 3%. “Eu não acho outra palavra que não seja avassalador”, disse Lahmann. “A ascensão da China muda a concorrência e as oportunidades de inovação.”

Esse processo tem reflexo direto na economia brasileira. De todo o IFA (Insumo Farmacêutico Ativo, a matéria-prima dos medicamentos) usado no Brasil, 94% vem de fora – principalmente de China e Índia. De 2000 a 2020, a produção mundial de IFA também mudou de eixo. A Europa, que concentrava 59%, agora responde por 33% do total, enquanto a China foi de 31% para 63%. Outros países, de 10% para 4%. “Há uma tentativa, um desejo e até esforços de ter produção de IFA no Brasil”, afirmou Lahmann. “Mas não sei se vamos conseguir. Seria preciso uma política industrial muito forte.”

Segundo o 3º Censo do setor farmoquímico no Brasil, o mercado mundial de IFAs deverá crescer 7,1% por ano de 2022 a 2030, movimentando US$ 355 bilhões. O levantamento é resultado de parceria entre Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), Abifina (Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades) e Abiquifi (Associação Brasileira da Indústrias de Insumos Farmacêuticos).

A Lei 15.471, de julho deste ano, “classifica IFAs como produtos estratégicos e abre espaço para compras públicas e PDPs” [Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo]. Com projeto (PL 2583/2020) aprovado em junho, a lei criou a Ensceis [Estratégia Nacional de Saúde do Complexo Econômico-Industrial da Saúde). Lahmann cita ainda o Pdil (Programa de Desenvolvimento e Inovação Local, com sete áreas prioritárias: insulina, oncologia, vacinas, doenças raras, diabetes, HIV e imunologia. No comércio exterior, o país é deficitário: as exportações de produtos farmacêuticos somaram US$ 1,4 bilhão em 2025, enquanto as importações totalizaram US$ 14,8 bilhões.

Patentes. O diretor chama a atenção para o impacto no mercado em relação a patentes. “No Brasil, R$ 31 bilhões em medicamentos perdem exclusividade até 2029, sendo 70% biológicos”, afirmou no evento. “No mundo, a perda de exclusividade deve passar de US$ 220 bilhões até 2029.” A China também passou à frente nesse quesito. De 23% das patentes em tecnologia em 2018, chegou a 51% em 2023. Nesse intervalo, os Estados Unidos foram de 31% para 21%, a Europa, de 24% para 13% e o Japão, de 9% para 6%. “A patente é um indicador de longo prazo”, disse Lahmann. “O fim das exclusividades abre uma janela para ganhar mercado e ampliar o acesso, notadamente para biossimilares e GLP-1.” Na apresentação, ele destacou ainda que “35% dos acordos globais de licenciamento têm participação de empresas chinesas”.

Dados da IQVIA, empresa de análise de dados e consultoria, citados pelo diretor da Eurofarma, projetam crescimento de 5% a 8% no mercado farmacêutico global de 2025 a 2029. Por área terapêutica, a oncologia responderá por US$ 441 bilhões em gastos globais. Em seguida, diabetes (US$ 259 bilhões), imunologia (US$ 234 bilhões), cardiovascular (US$ 119 bilhões) e sistema nervoso central (US$ 109 bilhões). “Mudança de perfil resulta em mudança de portfólio, de oportunidades de demanda e de produtos que ser oferecidos pelo mercado”, afirmou Lahmann. No Brasil, acrescenta, perto de 50% dos gastos com medicamentos em 2029 virão de oncologia, imunologia e sistema nervoso central, “com terapias mais personalizadas, complexas e voltadas a doenças raras”.

A apresentação aborda ainda a questão das canetas emagrecedoras, que vêm ganhando espaço no mercado brasileiro. Segundo o presidente executivo do Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos), Nelson Mussolini, esse segmento já representa 10% do faturamento do varejo (mais de R$ 15 bilhões). “Mais concorrência e preços menores nas canetas, o que reabre o debate sobre incorporação no SUS”, afirmou o diretor da Eurofarma. “Para biológicos, Anvisa e Cmed ficam pressionadas a acelerar registros e dar clareza à precificação de biossimilares.”

Ele ressaltou o papel da agência nesse processo: “Vimos um esforço bastante grande da Anvisa para redução da fila. Vários resultados estão saindo.” Mas aponta outro problema, desencadeado, basicamente pelo comércio on-line. “Nunca houve no país tanto contrabando de medicamentos, falsificados e comércio irregular. E isso é devido à mudança no padrão de consumo”, afirmou. Segundo ele, o número de apreensões de canetas pela Receita Federal foi de três em 2024 para 33 no ano passado. No primeiro semestre deste ano, 160.

Questões essenciais

O que mudou no panorama mundial de pesquisas clínicas?

De 2009 a 2024, a participação dos Estados Unidos no desenvolvimento clínico recuou de 39% para 35%, enquanto a China foi de 1% para 30%.

Como se insere o Brasil no mercado de IFAs?

De todo o insumo usado no Brasil, 94% vem de fora, principalmente da China e da Índia. Os chineses concentram 63% da produção global.

Qual é o tamanho desse mercado?

Segundo o 3º Censo do setor farmoquímico no Brasil, o mercado mundial de IFAs deverá crescer 7,1% por ano de 2022 a 2030, movimentando US$ 355 bilhões.

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