Augusto Vieira, da Bayer, sobre Brasil como polo de estudos clínicos e business no setor: “Não tem mais volta”
Companhia alemã vê custo, diversidade da população e geração de dados como vantagens para desenvolver produtos no país
Augusto Vieira, líder médico de Consumer Health da Bayer para a América Latina, é categórico ao analisar o momento do Brasil como potencial polo de estudos clínicos e gerador de negócios no setor: “Não tem mais volta”, disse ao Saúde Insider o especialista em dados e ensaios clínicos pela Universidade de Harvard. Há dois anos e meio no cargo, Vieira foi um dos maiores entusiastas para a Bayer trazer para o Brasil muitos dos estudos da companhia que estavam sendo realizados mundo afora. São 21 pesquisas em andamento e outras 12 já concluídas, focadas em cosméticos e no desenvolvimento de novas fórmulas.
São quatro pilares que têm tornado o Brasil peça-chave na estratégia de inovação da Bayer Consumer Health. Um deles é a eficiência financeira, já que um estudo para o claim “não comedogênico” (para provar que o produto não entope os poros) custa 30 vezes menos no país. “Há uma economia direta de 300 mil euros”, disse Vieira.
Outro ponto é a ciência da miscigenação. No geral, os testes incluem todos os fototipos (características de etnia), do 1 ao 6, garantindo que os produtos sejam eficazes para a realidade da pele brasileira. O executivo da Bayer afirmou se sentir incomodado com o uso de produtos elaborados em outros países sendo comercializados e consumidos por aqui.
Recente estudo promovido por cientistas da USP (Universidade de São Paulo), publicado na revista Science, apontou que o Brasil possui a maior população miscigenada do mundo. Resultado de uma grande mistura de populações indígenas, europeias, africanas e asiáticas. Acrescentem-se fatores como os diferentes climas e culturas distribuídos Brasil adentro.
O terceiro fator para a Bayer apostar no país como polo de estudos é a geração de volume de dados. Em cerca de 30 pesquisas simultâneas, são mobilizados 980 voluntários para validar segurança e eficácia.
Tudo isso gera o quarto pilar observado pela companhia, que é o impacto no mercado. Esse esforço científico é o suporte para o lançamento de cinco novos SKUs, com uma projeção de vendas incrementais de aproximadamente 1,5 milhão de euros até o terceiro ano do ciclo de vida do produto.
Os resultados dos estudos clínicos em solo brasileiro já estão em itens como Bepantol Rosa Mosqueta. A Bayer observou um movimento de consumidoras que tentavam fazer misturas caseiras com o produto da marca e a planta, cujo óleo possui propriedades regeneradoras e hidratantes para a pele. A empresa resolveu testar cientificamente, comprovou a eficácia e a segurança e, assim, nasceu um novo produto.
Outro item oriundo da inovação local é o Gino-Canesten Triplo Cuidado. “Com isso também fomentamos os CROs (Contract Research Organization, que são as operadoras de pesquisa contratadas)”, afirmou Vieira.
Empresas terceiras de pesquisas pré-clínicas, de desenvolvimento para as indústrias farmacêutica, de biotecnologia e de dispositivos médicos também formam o ecossistema inserido nos estudos.“Considero esses estudos clínicos a construção de uma certa cidadania. Estamos começando a formar um mercado consistente”, disse o líder médico de Consumer Health da Bayer.
Números. Globalmente, o investimento em pesquisa e desenvolvimento da área de Consumer Health da Bayer foi de 223 milhões de euros no ano passado. O faturamento da divisão foi de 5,8 bilhões de euros em 2025. No Brasil, a companhia planeja dobrar a operação dessa linha de negócio.
A característica do consumidor brasileiro, heavy user em dermocosméticos, é vista como ponto favorável aos planos da empresa. “Ainda não somos tão aficionados como os sul-coreanos, que têm 20 passos de skin care. Mas estamos quase lá”, disse Vieira. “Temos uma relevância grande.”
Dados da Abihpec (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos) mostram o tamanho da relevância citada pelo especialista. O setor movimentou R$ 175 bilhões em 2025. É o terceiro maior mercado consumidor do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. As exportações chegaram a US$ 1,061 bilhão em 2025, crescimento de 20,1% sobre 2024, para 189 países, um marco histórico para o setor.
Questões essenciais
Quantos estudos da Bayer Consumer Health estão sendo realizados no Brasil?
Segundo a companhia, há 21 pesquisas em andamento no país e outras 12 já concluídas, voltadas principalmente a cosméticos, segurança, eficácia e desenvolvimento de novas formulações.
Por que a Bayer está ampliando seus estudos no Brasil?
A empresa aponta quatro fatores principais: menor custo de determinadas pesquisas, diversidade da população brasileira, capacidade de gerar grande volume de dados e possibilidade de transformar os resultados dos estudos em novos produtos e vendas.
Quanto a Bayer investe em pesquisa e desenvolvimento em Consumer Health?
A Bayer registrou € 223 milhões em despesas de pesquisa e desenvolvimento na divisão Consumer Health em 2025. A área teve € 5,802 bilhões em vendas no mesmo ano.
