“Brasil voltou a olhar para a frente na indústria farmacêutica”, diz Norberto Prestes, da Abiquifi
Indústria de insumos farmacêuticos tem se qualificado com programas de governo e regulação e busca abertura em mercados como EUA, Itália e México
Depois de sua melhor participação da história na BIO International Convention, realizada em junho, em San Diego, nos Estados Unidos, a Abiquifi (Associação Brasileira das Indústrias de Insumos Farmacêuticos) prepara grandes delegações de executivos dos setores público e privado para apresentar o potencial nacional na Itália, no México e na China. “Paramos de olhar para o retrovisor e começamos a olhar para a frente”, disse ao Saúde Insider Norberto Prestes, presidente-executivo da Abiquifi. Para ele, o Brasil começa a ensaiar um protagonismo global a partir da modernização da legislação para incentivo de investimentos locais e de players estrangeiros e da atuação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). “Deixou de ser apenas uma agência regulatória e passou a ser também uma agência de inovação.”
O executivo detalhou os motivos que colocam o país entre os de maior potencial de desenvolvimento de insumos farmacêuticos do mundo. Escala econômica, capacidade industrial instalada, ambiente regulatório reconhecido internacionalmente e políticas públicas voltadas para o fortalecimento da inovação e da produção na área da saúde são alguns deles. Tudo isso coloca o Brasil como uma plataforma estratégica para desenvolvimento, produção e expansão do segmento. Por aqui, segundo dados da Abiquifi, o setor movimentou US$ 32 bilhões em 2024, com uma participação estimada em 2,1% do mercado global.
Algumas iniciativas recentes têm incentivado o crescimento. Políticas governamentais como o CEIS (Complexo Econômico-Industrial da Saúde) e a NIB (Nova Indústria Brasil) foram lançadas para reduzir a vulnerabilidade externa e atrair capital qualificado. O Programa Nacional de Inovação Radical em Saúde, do Ministério da Saúde, é outro fator considerado importante para acelerar a criação de tecnologias disruptivas, com foco em medicamentos, vacinas, terapias avançadas, equipamentos médicos, diagnósticos e IFAs (Ingredientes Farmacêuticos Ativos). Com todo esse ambiente favorável, o Brasil responde atualmente por cerca de 60% dos investimentos de capital de risco direcionados a empresas de biotecnologia em toda a América Latina, segundo a ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), parceira da Abiquifi na organização e participação de empresas brasileiras em eventos no exterior.
Desafio. Apesar do panorama positivo, há desafios a serem enfrentados e superados. Houve uma desindustrialização do setor químico-farmacêutico três décadas atrás, com paralisação dos investimentos e enfraquecimento do segmento nacional, que partiu para importações mais baratas da China e da Índia. “Temos o insumo farmacêutico, mas não temos a matéria-prima para fazê-lo”, disse Prestes. A balança comercial de insumos farmacêuticos foi negativa em US$ 12,9 bilhões no ano passado, segundo dados da Abiquifi. Neste ano, até setembro, é de US$ 9,9 bilhões.
A busca do setor nacional é pelo domínio de novas tecnologias. E algumas startups brasileiras têm se destacado no mercado global. A Nintx (Next Innovative Therapeutics) foi criada em 2021 para traduzir interações biológicas complexas (plantas, microrganismos e humanos) em novas terapias. A empresa aproveita justamente os marcos legais e regulatórios para acessar a biodiversidade brasileira.
Outra startup que tem ganhado projeção ao se apresentar ao mercado internacional é a Mirscience Therapeutics, fundada em 2017. Com medicina de precisão, desenvolve terapias para doenças crônicas, como as que causam fragilidade e atrofia muscular, doenças metabólicas como a NASH (esteato-hepatite não alcoólica) e câncer. E a Peptidus Biotech acelera a descoberta de moléculas peptídicas no setor de saúde animal. São 10 peptídeos (cadeias curtas de aminoácidos que funcionam como mensageiros químicos no corpo) em desenvolvimento direcionados a animais de criação e de companhia.
As três startups foram destaques da delegação brasileira que participou da BIO International Convention, maior evento global de saúde e biotecnologia, nos Estados Unidos. Foram 180 participantes, entre autoridades públicas, empresas do setor produtivo, academia, instituições de ensino e fomento, entidades setoriais e empresas. Além da feira, os brasileiros fizeram visitas a centros de inovação na Califórnia.
Novos mercados. Outra comitiva organizada pela Abiquifi em parceria com a ApexBrasil, por meio do projeto BPH (Brazilian Pharma & Health), estará na CPHI WorldWide 2026, realizada de 6 a 8 de outubro, em Milão, na Itália. Estão confirmadas instituições como Ministério da Saúde, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Anvisa, Fiocruz, Fiocruz/Bio-Manguinhos, Finep, BNDES e Instituto Butantan, entre outras. Todos os espaços de exposição no Pavilhão Brasil já foram preenchidos, mas as empresas ainda podem integrar a delegação brasileira como visitantes.
E entre os dias 19 e 23 de outubro, a Missão México 2026 estará na Cidade do México e em Guadalajara. Por lá, as empresas brasileiras vão expandir sua atuação internacional, fortalecer parcerias estratégicas e ampliar sua presença em um dos principais mercados da América Latina. Rodadas de negócios B2B qualificadas, painel regulatório Brasil–México e acesso a informações estratégicas para entrada no mercado estão na programação. “Vamos para lá abrir mercado”, disse Norberto Prestes. “O México é um mercado muito interessante. Vamos ampliar a atuação do Brasil”, afirmou o presidente da Abiquifi. Na China, a missão que está sendo estruturada passará por Xangai e Suzhou, de 8 a 12 de março de 2027. O objetivo é conectar empresas brasileiras ao ecossistema chinês de saúde, inovação e pesquisa clínica.
Questões essenciais
O que a Abiquifi busca com as missões internacionais em 2026?
A entidade pretende ampliar a inserção internacional da indústria brasileira de insumos farmacêuticos, aproximar empresas de compradores e parceiros e criar oportunidades de negócios em mercados como Itália e México.
Quando será a participação brasileira na CPHI WorldWide 2026?
A CPHI WorldWide será realizada de 6 a 8 de outubro de 2026, em Milão, na Itália. A delegação organizada pela Abiquifi e pela ApexBrasil já reúne mais de 180 participantes.
Quando ocorre a Missão México 2026?
A missão será realizada de 19 a 23 de outubro, na Cidade do México e em Guadalajara, com rodadas de negócios, discussões regulatórias, visitas técnicas e participação na FIGAP 2026.
