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Negócios

“Nós fazemos de tudo para não entregar o prontuário para o paciente”, diz Vitor Ferreira, da ABCIS

Em tom de cobrança aos players do setor, diretor afirma que empresas seguram dados para fidelizar pacientes. Executivos defendem maior colaboração entre instituições e clareza regulatória

Crédito de Foto: Magnific/Divulgação
Crédito de Foto: Magnific/Divulgação Ilustração de Saúde Insider

Existe uma prática no mercado que quase ninguém comenta abertamente: há um entrave na interoperabilidade de dados na saúde causada pelas próprias empresas que seguram as informações de seus pacientes para não compartilhar com a concorrência. O que separa o “quase” de “ninguém” é o CIO da ABCIS (Associação Brasileira de CIOs e Gestores de Tecnologia em Saúde Pública e Privada), Vitor Ferreira, um dos poucos – quiçá o único – a afirmar que qualquer problema técnico ou estrutural seria contornável se houvesse uma intenção genuína do setor em solucionar a interoperabilidade. “Nós fazemos de tudo para não entregar o prontuário para o paciente”, disse o executivo durante painel do Conahp 2026 (Congresso Nacional de Hospitais Privados), realizado em São Paulo recentemente.

A declaração de Ferreira não foi exatamente um denúncia. Soou como uma cobrança aos players do setor. Segundo o diretor da ABCIS, o controle dos prontuários é utilizado como uma ferramenta de fidelização. “Se o dado continuar comigo, o cliente não vai para o concorrente.” Outros importantes executivos do segmento também comentaram sobre a dificuldade de compartilhamento de informações.

Para o vice-presidente de relações institucionais do Grupo Amil, Renato Casarotti, o principal desafio da interoperabilidade na saúde não é técnico, mas institucional. Na visão dele, existe um nível de desconfiança entre os elos do setor que torna difícil o avanço de qualquer iniciativa de trânsito de dados. Por essa razão, Casarotti acredita ser necessária uma orientação regulatória. “Isso foi necessário no sistema financeiro, que é menos complexo do que a saúde.” 

A interoperabilidade é a capacidade de diferentes sistemas e instituições de saúde trocarem e utilizarem informações de forma segura e estruturada. Isso permitiria ao médico acessar o histórico do paciente, evitando repetições desnecessárias de exames, por exemplo. Um projeto de lei que dispõe sobre a obrigatoriedade da interoperabilidade dos sistemas digitais de saúde no âmbito do SUS (Sistema Único de Saúde) e da saúde suplementar (PL 6280/2025) foi apensado ao PL 3719/2025, que atualmente tramita na Câmara dos Deputados.

Casarotti avaliou que a proposta centraliza demais a governança no Ministério da Saúde. “Enquanto essa governança também não for compartilhada com os atores do sistema, a tendência é que seja muito difícil avançar.” O texto do PL 6280/2025 atribui à pasta o papel de regulamentar os padrões técnicos, protocolos de integração, segurança da informação e certificação dos sistemas. A matéria ainda dá ao ministério, em articulação com a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a competência de regulamentar e fiscalizar o cumprimento da lei.

Também participando do debate, o gerente de desenvolvimento de negócios de saúde na AWS (Amazon Web Services), Jacson Barros, afirmou que é preciso ter clareza de qual será o objetivo da regulação. “Se eu não sei o que eu quero com isso, como eu vou legislar?” O executivo disse que a interoperabilidade não deveria ser vista como um fim em si e que é necessário comprovar o valor do compartilhamento de informações. Como exemplo, ele citou uma iniciativa hipotética de dar transparência à fila de pacientes oncológicos. “A interoperabilidade seria um motor nesse caso.” 

Para Barros, o SUS deveria ser o grande viabilizador da interoperabilidade, destacando que não faz sentido existir problema de compartilhamento de dados entre instituições que prestam atendimento para o sistema. Ele disse acreditar que o SUS poderá trazer legitimidade ao processo e que o avanço depende da interoperabilidade receber tratamento prioritário. “Não falta gente competente, não falta tecnologia e não falta motivo”, afirmou o executivo da AWS.

Questões essenciais

O que é interoperabilidade na saúde?

É a capacidade de diferentes sistemas e instituições de saúde trocarem e utilizarem informações de forma segura e estruturada. Essa integração pode facilitar o acesso ao histórico do paciente e evitar a repetição desnecessária de exames.

Por que a interoperabilidade enfrenta dificuldades no Brasil?

Segundo Renato Casarotti, vice-presidente de relações institucionais da Amil, a desconfiança entre instituições dificulta o compartilhamento de dados. O executivo considera necessária uma orientação regulatória acompanhada de governança compartilhada.

Qual é o papel do SUS na interoperabilidade?

Na avaliação de Jacson Barros, da AWS, o SUS deveria desempenhar um papel central na integração de informações entre instituições. Ele defende que o sistema público pode conferir legitimidade ao processo e ajudar a tornar a interoperabilidade uma prioridade.

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