Indústria de prontuários cobra mais dados na RNDS para que informação retorne ao paciente
Ministério da Saúde diz que disponibilizará a solução de integração de dados, mas que cabe a municípios e estados gerir as informações na ponta final
Há uma discussão aberta sobre o modelo de interoperabilidade no Brasil. No centro do debate estão a quantidade e a qualidade dos dados constantes na RNDS (Rede Nacional de Dados em Saúde). Do lado de quem fabrica tecnologia para atuar no envio e na integração dessas informações, as reclamações questionam a profundidade dos dados. Pelo lado do Ministério da Saúde, a justificativa para a abrangência reduzida de indicadores deve-se ao curto espaço de tempo em que o programa foi intensificado. A expectativa é de que, aos poucos, ganhe musculatura.
Na avaliação do diretor corporativo de Mercado e Cliente da MV, Jeferson Sadocci, as informações enviadas à RNDS para integração restringem-se ao exame realizado pelo paciente. Segundo o executivo, ficam de fora relatos importantes, como o tratamento indicado, a medicação, as visitas ao hospital e os médicos que o atenderam. “Mas só o exame? O que mais?”. Para Sadocci, não é possível fazer gestão de saúde de uma população como a brasileira com duas ou três informações no repositório.
A RNDS tem modelos de informação para prescrição e dispensação de medicamentos desde dezembro de 2024 e para registro de atendimento clínico, com identificação do profissional, desde outubro de 2025. O ponto central da crítica do executivo é o retorno do dado. Sadocci afirmou que a interoperabilidade precisa ser nativa, com todos os dados do prontuário subindo para a RNDS e voltando de lá para a instituição que atende o paciente. “Sem esse caminho de volta, o dado não chega a quem cuida.”
De acordo com o diretor, a interoperabilidade só faz sentido se levar benefício a quem está sendo atendido. A MV também cobra participação nas discussões sobre interoperabilidade. Atualmente, segundo Sadocci, existem cerca de 1 mil sistemas rodando na camada de saúde brasileira e que 100 deles respondem por 80% das instituições. “Não consigo ver o governo fazer um movimento desse sem chamar as empresas que atuam no setor”, disse, ao observar que o desenho atual é um pacote fechado e que o governo federal deveria abrir o debate de maneira ampla.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, contextualizou o momento para minimizar as críticas. Segundo ele, o conjunto mínimo de dados da rede foi pactuado pela primeira vez e sua ampliação depende da discussão com um comitê técnico-científico. “Assim como qualquer sistema de informação, começa com um certo número de dados, depois vai agregando outros na discussão”, disse. Padilha afirmou que o comitê avalia o tema de forma contínua e, eventualmente, pode ampliar as informações que sobem para a rede.
De acordo com o ministro, todos os hospitais universitários federais já operam com prontuários eletrônicos, que estão se integrando aos da atenção primária. O ministério desenvolve o modelo a partir dessa rede. É mais um passo na ampliação do arcabouço de dados mais detalhados do repositório, especialmente para gestores municipais, que precisam de informações mais minuciosas do que as que circulam no âmbito nacional. Segundo Padilha, esses dados mais pormenorizados não precisam subir à rede nacional neste momento.
A RNDS, vitrine do Ministério da Saúde como política de Estado para a integração da saúde do país com base no SUS (Sistema Único de Saúde), cresceu de 800 milhões de registros em 2023 para 6 bilhões atualmente, avanço de 650%, segundo dados do governo. Há possibilidade de chegar a aproximadamente 10 bilhões até o fim do ano, segundo o ministério. Cerca de 2 bilhões desses dados vêm da saúde suplementar, segundo o DataSUS. No país, 1,8 milhão de profissionais de saúde já têm acesso ao conteúdo da RNDS.
Horizonte curto. Padilha afirmou que o SUS deve consolidar as ferramentas de integração de dados até o começo do ano que vem. A projeção é que, nos próximos quatro anos, elas sejam oferecidas a todos os municípios e estados. O ministério disponibilizará a solução, e a operação ficará com os entes locais. Mas há uma ressalva, apontada pelo próprio ministro: a fila é do município e do estado, e cabe a eles gerir os dados de marcação e de espera na ponta.
Para o cidadão, a promessa é de que possa acompanhar a própria trajetória pelo celular. Padilha afirmou que uma solução tecnológica permitirá marcar consulta e acompanhar a posição na fila de exame e de cirurgia. Esse nível de detalhe ficará nas bases locais, não na RNDS. A distinção sustenta a resposta do ministro à indústria, já que o volume de informação disponível ao paciente e ao profissional de saúde cresce sem que o conjunto mínimo do repositório nacional precise crescer na mesma proporção.
Nesse âmbito, a CIT (Comissão Intergestores Tripartite) é o foro de negociação e pactuação entre gestores – integram a comissão o Ministério da Saúde, o Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) e o Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde). O conjunto mínimo de dados da atenção à saúde foi instituído por resolução da CIT em 2016, e a ampliação vem sendo feita modelo a modelo, por portaria. O decreto 12.560, de 2025, que estabelece a RNDS, não fixa periodicidade de revisão.
Questões essenciais
O que é a RNDS?
A Rede Nacional de Dados em Saúde é a estrutura nacional de integração de informações de saúde. O repositório passou de 800 milhões de registros em 2023 para 6 bilhões atualmente.
Por que empresas de prontuário eletrônico querem mais dados na RNDS?
A MV afirma que a interoperabilidade precisa permitir que informações mais completas dos prontuários sejam enviadas à RNDS e retornem às instituições que atendem o paciente, facilitando a continuidade do cuidado.
A RNDS terá mais informações no futuro?
Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o conjunto de dados deverá ser ampliado gradualmente.
