Com o Pharmacy First, consultas em farmácia crescem na Inglaterra, mas 75% delas operam no prejuízo
Serviço do NHS soma 3,3 milhões de consultas em um ano, alta de 43%. Alerta está na sustentabilidade financeira do modelo, que tem sido discutido no Brasil
O projeto inglês Pharmacy First, criado em 2024 para priorizar as farmácias comunitárias no atendimento de eventos simples de saúde, registrou mais de 3,3 milhões de consultas entre março de 2025 e fevereiro de 2026, alta de 43% ante os 12 meses anteriores. Apesar do sucesso de público, 75% dos estabelecimentos operam no prejuízo, segundo dados do Pharmacy Pressures Survey 2026, levantamento anual da CPE (Community Pharmacy England), entidade que representa os proprietários de farmácias na negociação com o governo britânico. Os dados foram divulgados em julho, a partir de respostas de 2,9 mil farmácias e 900 profissionais de equipe. No Brasil, de olho no modelo, um grupo de trabalho está sendo criado pelo Ministério da Saúde para debater avanços no Programa Farmácia Popular. O mercado de varejo farmacêutico está atento às discussões.
William Pett, chefe de políticas, relações públicas e pesquisa do Healthwatch England, entidade pública independente que representa pacientes do sistema britânico, diz que entre as pessoas que passaram pelo Pharmacy First, 86% relataram experiência positiva. Pett, que participou do Abrafarma Future Trends, realizado em São Paulo na primeira quinzena de agosto, afirmou que a mudança de comportamento surpreendeu a própria entidade, que esperava resistência maior à ideia de procurar a farmácia antes do médico.
Comparadas ao volume de consultas realizadas por médicos generalistas, as promovidas em farmácia respondem por 1% do total, segundo Pett. “Vemos algum progresso, mas um progresso muito lento”, disse ele. As farmácias que continuam abertas relatam aumento de procura de pessoas que não conseguiram consulta com o generalista. O paradoxo do modelo inglês tenta balancear o escopo clínico que cresceu, enquanto a base de lojas diminuiu e a rentabilidade caiu.
Quase todos os donos de farmácia (99,7%) relatam custo operacional maior que no ano anterior. E 99% dizem que o reembolso do NHS (National Health Service), o Serviço Nacional de Saúde idealizador do Pharmacy Fisrt, não cobre nem o preço de atacado do medicamento que dispensam. Um quarto dos proprietários não retirou salário do negócio.
Entre março de 2025 e fevereiro de 2026, as farmácias inglesas somaram quase 1 milhão de atendimentos de contracepção e 3 milhões de aferições de pressão arterial, além de dispensar cerca de 1 bilhão de itens de receita, segundo o DHSC (Department of Health and Social Care, na sigla em inglês). Quando anunciou o pacote de 645 milhões de libras (R$ 4,5 bilhões), em 2023, o NHS England estimou que o conjunto desses serviços poderia poupar até 10 milhões de consultas por ano das equipes de clínica geral. Mas não chegou à metade. Desde o lançamento em janeiro de 2024 até outubro de 2025, o programa acumulava 4,5 milhões de consultas pagas.
O programa Pharmacy First é classificado pelo NHS como serviço avançado. A farmácia decide se quer entrar e cumprir requisitos de credenciamento definidos pelo governo. O programa tem três frentes. A mais recente oferece consultas por protocolo clínico para sete condições comuns: dor de garganta, dor de ouvido, herpes-zóster, infecção urinária, impetigo, picada de inseto e sinusite. Outras duas já existiam no modelo anterior e foram incorporadas: o fornecimento urgente de medicamentos de uso contínuo e o encaminhamento para atendimento de enfermidades menores.
Mesmo com problemas de receita operacional, o programa entra agora na segunda fase. A partir de setembro o governo britânico vai criar até cinco protocolos. A CPE indicou como candidatos ao atendimento nas farmácias situações de conjuntivite bacteriana e alérgica, candidíase oral, infecções de pele e infecções respiratórias. Sobre a prescrição, a partir deste ano, todo farmacêutico recém-formado no Reino Unido conclui a graduação já habilitado a prescrever. Na pesquisa nacional de pacientes da atenção primária, 22% dos entrevistados disseram ter buscado orientação em farmácia nos últimos 12 meses.
Vendas. O maior fluxo de pessoas na farmácia, porém, não levou a mais vendas. Uma a cada quatro consultas clínicas feitas em farmácias inglesas termina sem que o paciente leve remédio nenhum para casa. O dado é do NHSBSA (Autoridade de Serviços Empresariais do Departamento Nacional de Saúde, na sigla em inglês). O farmacêutico Fin McCaul, representante regional da CPE, afirmou que os fornecedores trabalham com os preços de medicamentos mais baixos da Europa, o que aperta a margem de toda a cadeia. “Somos pagos como se fôssemos consultores”, disse McCaul.
Na avaliação de McCaul, os requisitos tecnológicos são o ponto crítico para quem quiser replicar o modelo. A rede está distribuída de modo que 89% da população da Inglaterra chegue a uma farmácia comunitária em até 20 minutos de caminhada. E que 99% dos moradores das áreas de maior vulnerabilidade estejam nesse raio.
Questões essenciais
O que é o Pharmacy First?
É um programa do NHS que permite às farmácias inglesas atender pacientes com condições comuns, fornecer medicamentos de uso contínuo em situações urgentes e encaminhar casos de enfermidades menores.
Quantas consultas o Pharmacy First realizou?
O programa registrou mais de 3,3 milhões de consultas entre março de 2025 e fevereiro de 2026, alta de 43% em relação aos 12 meses anteriores.
Como funciona o Pharmacy First?
As farmácias aderem voluntariamente ao programa e precisam cumprir requisitos de credenciamento definidos pelo governo. O atendimento segue protocolos clínicos e pode incluir orientação, tratamento de sintomas e, quando previsto, fornecimento de medicamentos.
