Para ampliar cobertura, planos precisam de duas coisas: controlar custos e economia forte, diz Sobral, da FenaSaúde
Diretor-executivo da entidade fala sobre os desafios da saúde suplementar para ultrapassar o índice histórico de 25% da população com cobertura privada
Como transpor a barreira histórica de 25% da população com plano de saúde privado? A busca pela resposta a essa pergunta está em dez entre dez executivos do setor. Para Bruno Sobral, diretor-executivo da FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar), que representa dez grupos de operadoras de assistência à saúde e odontológicos, são duas as principais ações: controlar melhor os custos das companhias e crescer a economia. “São as principais situações para equacionar nesse mercado, que há uma década atende um quarto da população. Não sai disso”, disse Sobral, engenheiro civil e mestre em economia, com mais de 20 anos de experiência em análise de mercado, governança e macroeconomia.
Dados da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) apontam que até julho havia 53,1 milhões de vínculos em plano de saúde no Brasil. De acordo com a FenaSaúde, em 2014 a taxa de cobertura dos planos atingia 25,2% da população, e hoje são 24,8%. Não há fórmula mágica para resolver os dois panoramas citados por Sobral. São situações tão evidentes de apontar quanto complexas de resolver.
“Não temos dia fácil”, afirmou o executivo. Controle de custos depende de gestão mais eficiente das empresas, mas também de regulação mais azeitada e de ações para diminuição da judicialização. “Há um aumento muito grande de custo anual das operadoras, principalmente de medicamentos extremamente caros, novas terapias, fraudes”, disse Sobral, ao citar ainda a judicialização como outro ponto de atenção.
Pela primeira vez na história, as despesas da saúde complementar com judicialização ultrapassaram R$ 5 bilhões no acumulado de 12 meses, até o primeiro trimestre deste ano. Crescimento de quase 11% em relação ao acumulado do mesmo período anterior. As despesas por beneficiário crescem em ritmo mais acelerado do que as receitas por beneficiário desde 2001.
Nesse período de 25 anos, as despesas aumentaram mais do que o dobro do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). Na prática, isso afeta a margem das operadoras, que ficaram com R$ 15,00 de cada mensalidade dos beneficiários em 2025, após o pagamento das despesas assistenciais. No período de 2010 a 2025 esse valor é ainda menor: apenas R$ 5,70 das mensalidades permaneceram com as operadoras, segundo estudo da FenaSaúde.
Outro fator que pressiona as operadoras é a chamada inflação médica, que historicamente é superior ao aumento geral de preços no país e no mundo. Segundo a consultoria WTW, em sua pesquisa Global Medical Trends 2026, os custos médicos em todo o mundo devem saltar de 10% em 2025 para 10,3% neste ano, enquanto na América Latina a majoração passará de 10,5% no ano passado para 11,9% ao final do atual período. Os principais motivos de influência nas taxas de inflação médica são as novas tecnologias, citadas por 74% das seguradoras, o declínio dos sistemas públicos de saúde (52%), os avanços na indústria farmacêutica (49%), e a fraude, o desperdício e o abuso (38%).
Já o crescimento econômico está mais atrelado a iniciativas do governo e de órgãos financeiros, como a taxa Selic a 14% ao ano, inflação, além de ações de incentivos à produtividade, geração de emprego e renda. “Essa geração de PIB é essencial para o mercado, que é basicamente formado por planos coletivos hoje”, disse Sobral. Segundo a ANS, dos 53,1 milhões de beneficiários, 38,8 milhões de vidas estão em planos coletivos, o que representam 73% do total. Já o Produto Interno Bruto cresceu 2,3% em 2025; 3,4% em 2024; 3,2% em 2023; 3,0% em 2022; 4,8% em 2021; e caiu 3,3% em 2020, início da pandemia de Covid-19.
Desafios e incentivos. Marcelo Carnielo, especialista em gestão de custos hospitalares e diretor de serviços da Planisa, corrobora com a análise de Bruno Sobral. E acrescenta que romper a barreira dos 25% exigirá também inovação de produto por parte das operadoras. “Desafio é ampliar acesso sem criar produtos frágeis, com baixa percepção de valor ou incapazes de sustentar a qualidade assistencial”, disse Carnielo.
O executivo cita ainda como incentivos a contratações de planos de saúde os gargalos do SUS, o benefício corporativo (plano médico continua sendo um instrumento relevante de atração e retenção de talentos) e uso crescente de tecnologia (telemedicina, navegação do cuidado, programas de atenção primária e gestão de crônicos).
Para Carnielo, enquanto o modelo de contratação for baseado na busca incessante pelo menor preço imediato e na troca constante de operadora, os investimentos robustos em promoção da saúde sempre serão vistos pelo setor financeiro como um “custo sem garantia de retorno”, o que cria um “paradoxo perverso”. Embora o consenso seja de que prevenir é melhor e mais barato do que curar, “a lógica financeira de curto prazo acaba punindo quem investe isoladamente”.
Questões essenciais
Quantos brasileiros têm plano de saúde?
Segundo os dados da ANS citados na reportagem, 53,1 milhões de pessoas tinham plano de saúde no Brasil até julho, com taxa de cobertura próxima de 25% da população.
Por que a cobertura dos planos de saúde não cresce mais?
Na avaliação de Bruno Sobral, da FenaSaúde, dois fatores são fundamentais: o controle dos custos das operadoras e o crescimento da economia, especialmente porque a maior parte dos beneficiários está em planos coletivos.
O que está pressionando os custos dos planos de saúde?
Entre os fatores citados na reportagem estão medicamentos de alto custo, novas terapias, judicialização, fraudes e aumento dos custos médicos acima da inflação geral.
