Falta de integração dificulta avanço da inovação na saúde, diz diretor do Sírio-Libanês
Interesses econômicos desalinhados, fragmentação assistencial e falta de integração dificultam a expansão de novos modelos de cuidado
A mentalidade de “silos” na saúde – a falta de integração entre áreas e organizações – dificulta o avanço da inovação no setor, avalia o diretor de unidade de negócio do Hospital Sírio-Libanês, Daniel Greca. Na visão do executivo, iniciativas desenvolvidas de forma experimental ou em escala reduzida enfrentam barreiras para serem aplicadas em caráter sistêmico. “A desconfiança gera os silos no setor e os silos impedem que a gente avance”, disse Greca, em painel do Conahp 2026 (Congresso Nacional de Hospitais Privados), realizado recentemente em São Paulo.
Greca também considerou que o segmento carece de uma organização sistemática similar à do SUS (Sistema Único de Saúde). “Se existissem, hierarquizadas, organizadas e com modelo assistencial definido, as iniciativas teriam onde se ancorar para rodar em maior escala.” O debate também contou com a participação do conselheiro da Dasa, Romeu Domingues, e do presidente institucional do Instituto Coalizão Saúde, Claudio Lottenberg. Os integrantes da mesa indicaram que a lógica de fragmentação, especialmente na saúde suplementar, é atribuída principalmente pela falta de alinhamento dos incentivos econômicos entre os elos da cadeia do setor, operadoras, hospitais e prestadores de serviços.
Lottenberg disse que a inovação deveria agregar valor ao paciente e ao sistema de saúde, não apenas solucionar problemas pontuais. “Se continuarmos alimentando silos, defendendo bandeiras individualizadas e não pagando para que pessoas tenham performance, estaremos na contramão disso.” Como exemplo, o executivo citou a telemedicina, cujo uso avançou no Brasil após a pandemia de Covid-19. Dados do painel de indicadores da SDB (Saúde Digital Brasil) indicam que o número de atendimentos remotos saltou de 200 mil em 2020 para mais de 3,1 milhões em 2025, totalizando quase 8 milhões de consultas digitais no período.
Desenvolvido pela Serasa Experian, o painel foi criado a partir do processamento e da padronização técnica de bases de dados enviadas por empresas privadas que oferecem serviços de saúde digital, incluindo serviços prestados à saúde privada e pública. “A telemedicina funcionou? Funcionou. Mas ela está integrada com o modelo do cuidado contínuo? Não”, afirmou Lottenberg, acrescentando que isso é explicado pela falta de adoção de prontuário único com interoperabilidade, tanto no setor privado quanto no SUS.
Domingues apontou o desalinhamento de incentivos econômicos entre hospitais e operadoras como obstáculo no investimento em cuidados de longo prazo de pacientes crônicos. “O operador não vê isso como um ganho, porque a carteira muda e o beneficiário vai para outro plano de saúde.” Dados da ANS referentes a agosto mostram que, no último ano, foram informadas 16.117.456 adesões e 15.434.267 cancelamentos em planos de assistência médica, resultando em uma taxa de rotatividade de 29,41%. Conforme a agência, a taxa de rotatividade tem se mantido estável nos últimos anos (29,1% em 2024 e 30,5% em 2025).
Questões essenciais
Por que a falta de integração dificulta a inovação na saúde?
Segundo Daniel Greca, do Hospital Sírio-Libanês, a fragmentação entre instituições e áreas de atendimento impede que iniciativas desenvolvidas em pequena escala sejam incorporadas de forma sistêmica. A falta de integração dificulta a continuidade do cuidado e a expansão de novos modelos assistenciais.
Qual é o papel da telemedicina na integração do cuidado?
A telemedicina ampliou o acesso a atendimentos remotos, mas sua contribuição para o cuidado contínuo depende da troca de informações entre profissionais e instituições. Claudio Lottenberg avalia que a falta de integração entre sistemas e prontuários limita esse potencial.
Como a rotatividade dos planos de saúde pode afetar investimentos em prevenção?
Segundo Romeu Domingues, a troca frequente de operadora pode desestimular investimentos em cuidados de longo prazo, pois a empresa responsável pelo gasto inicial pode não se beneficiar da redução futura de custos. Essa relação é uma avaliação do executivo e não decorre automaticamente dos indicadores de rotatividade.
