Confiança dos ingleses no NHS é a mais baixa em 40 anos e país, agora, busca inspiração no Brasil
Especialista e diretor do think tank King’s Fund, Siva Anandaciva diz que estratégia para avançar no atendimento é investir em tecnologia e centros de bairro
No momento em que a satisfação dos ingleses com o NHS (Serviço Nacional de Saúde) registrava o menor índice histórico, o governo britânico lançou um plano de 10 anos sem o capítulo de entrega, que traria trajetória, prazos e recursos. A análise é de Siva Anandaciva, diretor de Políticas, Eventos e Parcerias do think tank britânico King’s Fund. O plano saiu em julho de 2025. No ano anterior, em 2024, confiança no sistema público bateu apenas 21%, índice mais baixo dos últimos 40 anos. Anandaciva disse que o sistema do seu país, agora, busca inspiração no Brasil.
“Estamos aprendendo muito com o que vocês fazem e nos inspiramos no que fazem no Brasil”, disse o executivo durante o Conahp (Congresso da Associação Nacional dos Hospitais Privados), em São Paulo. É uma inversão de papeis, já que o SUS (Sistema Único de Saúde) teve inspiração no NHS ao ser criado em 1988 e regulamentado em 1990.
O índice é a satisfação do público com a gestão do NHS apurada há quatro décadas em pesquisa apoiada pelo King’s Fund e outro think tank de Londres. A satisfação oscilava entre 40% e 50% até as reformas do início dos anos 2000 reduzirem as filas. E chegou a cerca de 70% em 2010. Depois disso, caiu e, após a pandemia, atingiu o menor nível da série. Em 2025, 26% dos adultos britânicos se disseram satisfeitos, o primeiro avanço desde 2019.
O plano ataca em três frentes, mudando a prioridade do hospital para a comunidade, do papel para o digital e do tratamento para a prevenção. Na primeira, a ideia é tirar dinheiro dos hospitais: 58% do gasto de linha de frente do NHS vai para eles atualmente e a expectativa é de que essa fatia diminua. Segundo Anandaciva, o capítulo de entrega, que diria quando e como isso acontece, não foi publicado. Ele afirmou não saber qual é a fatia de investimento hoje. Os 250 centros de saúde de bairro têm prioridade para receber verbas.
Anandaciva afirmou que, para o hospital, a demanda por tratamento de hipertensão e doenças cardiovasculares cresce mais rápido do que a capacidade do próprio estabelecimento. “A única forma de manter o controle é o hospital abrir mão de parte do seu poder”, disse. Segundo ele, em visitas a serviços com cuidado integrado, o fator de sucesso foi “quase sempre relacional”. Como exemplo ele citou que médicos do hospital chegam a passar o celular a um médico da atenção primária para que ele ligue se tiver dúvida sobre um paciente, e vice-versa.
Anandaciva afirmou que o plano faz duas grandes apostas: tecnologia e centros de bairro, com pouca evidência de que elevem a produtividade clínica e reduzam a demanda por hospitais. Um exemplo do que o plano pretende vem do grupo de hospitais em que ele é diretor, em Londres, que instala em farmácias independentes de áreas carentes máquinas de exame de sangue. Em demonstração, entregaram o resultado em sete minutos e meio. Para parte dos moradores, o mesmo exame no hospital exigiria pegar três ônibus.
No Brasil, em agosto deste ano, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou nova regulamentação do Programa Farmácia Popular, que prevê um grupo de trabalho para discutir a oferta de exames de sangue e urina, testes rápidos, teleatendimento e monitoramento terapêutico. A oferta efetiva depende de avaliações técnicas nos estados e municípios, segundo o Ministério da Saúde.
A rede tem 28 mil farmácias credenciadas, que oferecem gratuitamente 41 itens e estão presentes em mais de 4,9 mil municípios, com cobertura de 97% da população. O Farmácia Popular beneficiou 27,3 milhões de pessoas no ano passado e mais de 23 milhões neste ano até agosto, segundo Padilha.
Questões essenciais
O que prevê o plano de dez anos do NHS?
O plano mira três mudanças: do hospital para a comunidade, do papel para o digital e do tratamento para a prevenção. Saiu em julho de 2025 sem o capítulo de entrega, que traria trajetória, prazos e recursos, segundo Siva Anandaciva, do King’s Fund. Prevê 250 centros de saúde de bairro até o fim do plano.
Como está a satisfação dos britânicos com o NHS?
A satisfação oscilava entre 40% e 50%, chegou a cerca de 70% em 2010, caiu e, após a pandemia, atingiu o menor nível da série. Em 2025, 26% dos adultos britânicos se disseram satisfeitos, alta de 6 pontos percentuais e a primeira desde 2019.
O que prevê o plano de dez anos para o NHS na Inglaterra?
O plano propõe três mudanças principais: ampliar o atendimento comunitário em relação ao hospitalar, acelerar a digitalização dos serviços e fortalecer a prevenção de doenças. A implementação e o financiamento dessas transformações são pontos centrais do debate.
