Futuro dos hospitais está fora deles. Quem diz são os executivos dos próprios hospitais
Para continuar relevantes, redes hospitalares terão de atuar além de suas estruturas, com atendimento domiciliar e coordenação do cuidado, avaliam gestores
Quem esteve no painel de abertura da Conahp (Congresso Nacional dos Hospitais Privados), na manhã de quarta-feira (14), no Transamérica Expo, em São Paulo, assistiu ao vivo a uma espécie de reunião de conselho, com a participação de executivos de alto escalão das principais redes do Brasil, como o Hospital Sírio-Libanês, Hcor, Hospital Moinhos de Vento, Grupo Santa Joana, Rede Mater Dei, Rede D’Or e Rede Américas. Falaram abertamente sobre desafios e oportunidades no mercado. A principal pergunta feita a eles foi provocativa: o modelo hospitalar atual ainda será sustentável nos próximos 25 anos? A resposta não foi tão óbvia quanto se pensava. Para os líderes, o futuro dos hospitais está justamente fora deles. E a mudança vai ocorrer de dentro para fora, não o contrário.
Em aproximadamente uma hora de troca de ideias e visões de negócios, sem a exposição de números, prevaleceu a discussão sobre os rumos dos hospitais em relação à gestão e às finanças. A inteligência artificial, presente em 99% dos debates acerca de produtividade e eficiência, passou praticamente despercebida na conversa. Foi citada en passant apenas no final do painel. Por um motivo elementar no segmento: a relação que faz a diferença no atendimento é de humano com humano. De médico e enfermeiro com o paciente.
Rogério Reis, vice-presidente de hospitais da Rede Américas, foi o mais contundente na avaliação. Intitulou-se otimista, mais pelo padrão do executivo brasileiro do que pelo contexto do setor. Para ele, vai haver uma grande evolução nas unidades hospitalares, que terão de cuidar dos pacientes nos dias em que eles não estiverem dentro da estrutura. “Vamos deixar de só prestar o serviço ou fornecer um procedimento para assumir um papel em toda a cadeia de cuidado”, disse Reis.
Nesse cenário desafiador, como definiu o executivo, os hospitais entram como orquestradores e articuladores do cuidado do paciente, que terá maior incidência de atendimento domiciliar, por exemplo. “Vai quebrar alguns paradigmas, mas vejo isso como um futuro de hospitais que queiram permanecer relevantes nos seus mercados”, afirmou o VP da Rede Américas, ao citar serviços de monitoramento remoto, internação domiciliar e coordenação do cuidado como tendências. “Essa mudança já está acontecendo.”
Dados do Observatório da Anahp (Associação Nacional dos Hospitais Privados) corroboram a análise de Reis. Os 194 hospitais-membros da entidade registraram R$ 79,14 bilhões em receita bruta em 2025. Desse total, 24,06% foram provenientes de diárias e taxas, 20,28% de medicamentos e 31,78% de outras receitas operacionais (26,78%) e de serviços (5%). O restante foi oriundo de materiais, órteses e próteses, doações e gases medicinais.
Henrique Salvador, presidente do Conselho de Administração da Rede Mater Dei, foi categórico. “No futuro, o hospital vai chegar mais na casa das pessoas do que as pessoas vão até o hospital. E hoje nós já temos ferramentas que permitem isso”, disse o executivo, ao ponderar, no entanto, que os movimentos da sociedade podem alterar os rumos dos negócios.
Ele lembrou, por exemplo, da pandemia de Covid-19, a partir de março de 2020, quando os pacientes sumiram dos prontos-socorros e muita gente achava que nunca mais voltariam. “E voltaram”, disse Salvador. “Agora vemos que os hospitais continuam sendo referência na vida das pessoas. No futuro, o hospital vai ser um grande integrador.”
De acordo com Fernando Torelly, vice-presidente da Regional Zona Sul no Rio de Janeiro da Rede D’Or, o segmento precisa ser transformado para que possa se adequar aos modelos de remuneração existentes. Apesar de o futuro estar em serviços fora dos hospitais, a transformação tem de partir internamente nas gestões, disse. “Quem tiver esperança de que a solução virá de fora para dentro, lamento dizer que ela não virá.”
Modelo hospitalocêntrico. Fernando Ganem, diretor-geral do Sírio-Libanês, propôs uma pensata. O modelo hospitalocêntrico vai continuar sendo o principal ator da jornada de cuidado ou vai haver uma revolução que dividirá esse protagonismo com outros ambientes de cuidado? Para ele, grande parte do cuidado vai migrar para fora do hospital, já que o número de pessoas que fazem consultas e exames é muito maior do que o de pacientes que fazem cirurgias, precisam de internação curta ou de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). “A demanda por cuidado médico é para a baixa complexidade. Se não olharmos para a jornada do cuidado fora do hospital, estaremos fadados a ser menos relevantes.”
Ganem disse que é preciso discutir a quantidade necessária de leitos dentro dos hospitais. Os associados da Anahp possuem 32.288 leitos, média de 166 por unidade hospitalar. De UTI, são 9.473, média de 49 por hospital. “Talvez uma rede não precise mais de 1 mil leitos. Precisa racionalizar o uso”, afirmou o diretor, ao citar outros modelos de internação domiciliar bem-sucedidos, como na Austrália, onde há um sistema de hospital care. “Linhas de cuidado específicas são feitas em casa, com melhor desfecho ao paciente. Não é home care.”
De acordo com o executivo do Sírio-Libanês, há estudos no Brasil mostrando que 30% dos pacientes internados poderiam ter o mesmo cuidado dentro de suas residências. “Se os hospitais não se preocuparem, alguém vai assumir. E talvez com menos experiência e capacidade do que as instituições acreditadas.”
Eduardo Amaro, diretor do Grupo Santa Joana e presidente do Conselho de Administração da Anahp, avaliou que “o hospital não vai deixar de ter protagonismo, principalmente para pacientes graves que requerem cuidados especiais”.
Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento, do Rio Grande do Sul, afirmou que o setor está entrando em um novo formato. Para o executivo, a medicina vai ficar mais cara num primeiro momento, o que vai gerar atrito entre os players, e depois vai se tornar mais barata. “Temos de ser o agente dessa transformação. Começar por nós e nos preparar para fazer a transição econômica para não ser surpreendido depois.”
Segundo Julio Vieira, CEO do Hcor, a forma de financiamento e remuneração dos hospitais é o principal desafio dos próximos 25 anos. Na avaliação dele, o paciente espera o progresso e a evolução da tecnologia, dos tratamentos, dos medicamentos e do acesso. “Só que tudo isso custa. E esse custo tem pressionado cada vez mais o nosso setor. Os hospitais estão pressionados. Virou um problema sistêmico.”
Questões essenciais
Como os hospitais privados brasileiros enxergam o futuro do setor?
Executivos de grandes redes hospitalares defendem que as instituições ampliem sua atuação para além das estruturas físicas, assumindo maior participação na coordenação do cuidado, no monitoramento remoto e no atendimento domiciliar. O tema foi discutido durante a Conahp 2026, em São Paulo.
Os hospitais perderão importância com o avanço do atendimento domiciliar?
Não necessariamente. Os participantes do painel indicaram que os hospitais continuarão essenciais para pacientes graves, cirurgias e procedimentos de maior complexidade. A transformação prevista está na ampliação do cuidado para outros ambientes, e não no desaparecimento das unidades hospitalares.
Qual é o principal desafio econômico para os hospitais nos próximos anos?
Segundo os executivos, a sustentabilidade financeira dependerá da adaptação dos modelos de remuneração e financiamento. A incorporação de tecnologias, novos tratamentos e medicamentos aumenta os custos, enquanto os hospitais precisam desenvolver formas de acompanhar os pacientes fora de suas estruturas tradicionais.
