Saúde mental já é risco ao negócio para 42% dos líderes empresariais, aponta estudo da Kroll
Levantamento coloca o problema no mesmo patamar da dificuldade de atração e retenção de talentos entre os riscos à sustentabilidade do trabalho
A deterioração da saúde mental e da performance dos colaboradores é apontada por 42% dos líderes como um risco corporativo, no mesmo patamar da dificuldade de atração e retenção de talentos. É o que revelam dados do Radar Kroll 2026–2027: Riscos e Resiliência dos Negócios, obtidos com exclusividade pelo Saúde Insider. O levantamento é da Kroll, consultoria global de riscos, investigações corporativas e assessoria financeira. Na avaliação de Fernanda Barroso, regional managing director para a América Latina da companhia, esse cenário desloca o debate sobre saúde mental do campo do bem-estar para o da resiliência operacional.
Esse movimento ocorre em paralelo à atualização regulatória da NR-1, aprovada pela Portaria nº 1.419, do Ministério do Trabalho e Emprego, em vigor desde 26 de maio deste ano, que incluiu os fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) estimam que 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos todos os anos por depressão e ansiedade, com impacto estimado de US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade. É nesse contexto que novas práticas de gestão de riscos ganham força no ambiente corporativo.
A preocupação com saúde mental e tecnologia ocorre em um cenário de baixa percepção de preparo para crises, segundo a sondagem da Kroll. Apenas 15% dos líderes entrevistados se consideram plenamente preparados para enfrentar crises multidimensionais, enquanto a maioria relata preparo parcial ou baixa capacidade de reação. “A fragilidade está na distância entre enxergar a ameaça e conseguir responder de forma coordenada quando ela se materializa”, disse Fernanda Barroso.
Segundo a Kroll, investigações de alegações de assédio moral, por exemplo, passaram a incorporar metodologias forenses, com entrevistas, análise de e-mails e mensagens eletrônicas. Os processos de verificação de histórico profissional para posições de liderança também passaram a avaliar aspectos como práticas de liderança e relacionamento interpessoal.
Na Kroll, esse movimento aparece nas avaliações de direitos humanos. Saúde mental, bem-estar e segurança do trabalho passaram a integrar o escopo padrão das diligências e estão entre os temas mais priorizados pelos clientes.
A adoção da inteligência artificial acrescenta outra camada de risco à gestão da força de trabalho. O possível deslocamento de postos pela IA preocupa 62% dos líderes entrevistados, ao mesmo tempo em que 62% apontam escassez de profissionais e dificuldade para reter talentos qualificados, segundo o levantamento. A governança da tecnologia também aparece entre as preocupações, com 54% dos executivos apontando a falta de governança sobre IA como a maior vulnerabilidade atual.
Para Chantal Pillet, associate managing director da área de Investigações, Diligência e Compliance da Kroll, o desafio é incorporar novas tecnologias sem perder de vista seus impactos sobre os colaboradores. Segundo a executiva, a ausência de uma governança estruturada para uso da IA “pode gerar riscos relevantes e passivos ainda pouco visíveis para as organizações e para seus profissionais”.
Entre os riscos apontados por Chantal está a falsa percepção de produtividade. A utilização da IA pode aumentar o tempo de revisão humana necessário para assegurar a acuracidade e a confiabilidade das conclusões produzidas. Outro ponto de atenção é o uso indiscriminado da tecnologia. “Sem adequada supervisão humana, pode criar uma sensação ilusória de eficiência e de capacidade contínua de trabalho.”
Essas questões, de acordo com Chantal, podem reduzir os estímulos à criatividade, limitar o desenvolvimento do pensamento crítico e favorecer rotinas de trabalho sem pausas adequadas ou processos sustentáveis de aprendizagem.
Questões essenciais
Quantos líderes empresariais consideram a saúde mental um risco para os negócios?
Segundo o Radar Kroll 2026–2027, 42% dos líderes entrevistados apontam a deterioração da saúde mental e da performance dos colaboradores como um risco corporativo. O percentual está no mesmo patamar atribuído à dificuldade de atração e retenção de talentos.
O que mudou na NR-1 em relação aos riscos psicossociais?
A nova redação do capítulo 1.5 da NR-1 entrou em vigor em 26 de maio de 2026 e passou a prever expressamente que o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais considere fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Entre os exemplos estão sobrecarga, assédio e falta de suporte no ambiente profissional.
Qual é o impacto da saúde mental sobre a produtividade no trabalho?
A Organização Mundial da Saúde estima que depressão e ansiedade provoquem a perda de cerca de 12 bilhões de dias de trabalho por ano no mundo, com custo de aproximadamente US$ 1 trilhão anual em perda de produtividade.
