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Coluna.”A tecnologia só revoluciona a saúde quando melhora a vida das pessoas”. Por Claudio Lottenberg

As novas ferramentas aprimoram o cuidado, mas a relação médico paciente continua sendo a base

Ilustração de Saúde Insider
Ilustração de Saúde Insider Crédito de Foto: Divulgação

Poucas áreas passaram por tantas transformações tecnológicas nas últimas décadas quanto a saúde. Recursos que até pouco tempo pareciam distantes passaram a fazer parte da rotina de hospitais e consultórios, ampliando nossa capacidade de diagnosticar doenças, definir tratamentos e, sobretudo, antecipar riscos.

Mas talvez a mudança mais importante não esteja nas máquinas, nos algoritmos ou nos equipamentos de última geração. Está na possibilidade de fazermos uma medicina mais precisa, preventiva e individualizada, sem perder aquilo que sempre esteve no centro do cuidado: a relação entre médico e paciente.

A oftalmologia, área na qual iniciei minha trajetória médica, oferece bons exemplos dessa evolução. As cirurgias a laser transformaram o tratamento dos erros refrativos, enquanto os avanços na cirurgia de catarata tornaram os procedimentos cada vez mais precisos e seguros. Ao mesmo tempo, novas tecnologias de diagnóstico e tratamento ampliaram as possibilidades de acompanhamento de doenças capazes de comprometer a visão, como a degeneração macular relacionada à idade.

São avanços importantes não apenas porque tratam doenças, mas porque ajudam a preservar algo fundamental à medida que envelhecemos: a autonomia.

O mesmo movimento ocorre em praticamente todas as especialidades. Estamos deixando gradualmente uma medicina baseada predominantemente naquilo que funciona para a média da população e caminhando para uma abordagem capaz de considerar as características de cada indivíduo. Nesse contexto, a inteligência artificial ganha relevância.

Gosto de pensar menos em inteligência artificial e mais em inteligência ampliada, a diferença não é apenas semântica, porque ajuda a estabelecer qual deve ser o lugar dessa tecnologia na medicina.

Não acredito em uma saúde na qual o algoritmo substitua o médico. Acredito em uma medicina na qual o profissional tenha instrumentos cada vez melhores para tomar decisões. Um sistema capaz de analisar milhares de informações em poucos segundos, identificar padrões e relacionar dados clínicos pode ampliar nossa capacidade de avaliação, mas a decisão continua exigindo conhecimento, experiência, contexto e responsabilidade.

A própria Organização Mundial da Saúde reconhece o potencial da inteligência artificial para melhorar o diagnóstico, o tratamento, a pesquisa e a gestão dos sistemas de saúde, mas alerta para questões relacionadas à segurança, privacidade, distorções e desigualdade. Uma de suas recomendações centrais é justamente preservar a autonomia humana nas decisões em saúde.

Esse cuidado é fundamental porque sistemas tecnológicos também têm limitações. Estudos recentes mostram que, apesar dos avanços da inteligência artificial, grandes modelos de linguagem ainda apresentam dificuldades importantes em situações que simulam decisões clínicas. Essas evidências reforçam algo que não podemos perder de vista: bom desempenho tecnológico não é sinônimo de autonomia para decidir sobre a saúde de uma pessoa.

É justamente por isso que o pensamento crítico do profissional se tornará ainda mais importante em uma medicina cada vez mais tecnológica.

Existe, porém, outro ganho que considero particularmente promissor, a possibilidade de devolver tempo ao médico. Boa parte da rotina dos profissionais de saúde é hoje consumida por prontuários, registros, formulários e busca de informações. Se utilizarmos a tecnologia para reduzir essa carga, poderemos chegar a um resultado aparentemente paradoxal: usar mais tecnologia para tornar a medicina mais humana.

Esse deve ser um dos principais critérios para avaliar a inovação em saúde, porque inovar não significa simplesmente incorporar mais tecnologia. Nem tudo o que é tecnicamente possível precisa ser utilizado, e um novo equipamento, exame ou algoritmo só representa um avanço quando acrescenta valor ao cuidado e produz benefícios concretos para o paciente. Quando empregada sem esse olhar, a tecnologia pode elevar custos, estimular procedimentos desnecessários e, em alguns casos, produzir resultados contrários aos que buscamos.

A pergunta, portanto, não deve ser apenas, o que essa tecnologia consegue fazer, mas, que diferença ela produz na vida do paciente.

Essa discussão passa necessariamente pelo acesso. A inovação que beneficia poucos tem impacto limitado sobre a saúde de uma sociedade. A OMS tem chamado atenção para esse risco, inclusive porque sistemas de inteligência artificial desenvolvidos predominantemente a partir de dados de determinadas populações podem não apresentar o mesmo desempenho quando utilizados em outros contextos. Segurança, inclusão e equidade precisam caminhar junto com inovação.

No Brasil, esse debate ganha uma dimensão particular. Temos um sistema de saúde de enorme escala, no qual convivem centros de excelência e regiões com dificuldade de acesso a especialistas. A tecnologia pode ajudar a reduzir distâncias, apoiar profissionais e ampliar a capacidade de atendimento, mas não resolve, sozinha, problemas estruturais.

É preciso incorporá-la com estratégia, definindo onde investir e avaliando quais soluções realmente produzem melhores desfechos. Isso também passa por rever modelos de remuneração ainda muito associados ao volume de consultas, exames e procedimentos, avançando para uma lógica que valorize os resultados entregues ao paciente.

É justamente aí que está o sentido da transformação tecnológica na saúde. O avanço não deve ser medido pela quantidade de equipamentos, exames ou algoritmos disponíveis, mas pela capacidade de prevenir doenças, oferecer diagnósticos mais precoces, tornar os tratamentos mais precisos e preservar a autonomia e a qualidade de vida das pessoas.

E essa mesma lógica nos lembra que tecnologia não substitui aquilo que já sabemos ser essencial para uma vida mais longa e saudável. Atividade física, alimentação adequada, sono de qualidade, prevenção e bons relacionamentos continuam sendo pilares da saúde e precisam caminhar ao lado das novas possibilidades trazidas pela ciência.

A tecnologia continuará transformando a medicina, mas seu verdadeiro valor estará na forma como soubermos incorporá-la ao cuidado. Mais do que uma medicina com ampla tecnologia, precisamos de uma medicina capaz de usar melhor a tecnologia, com critério, responsabilidade e propósito, para oferecer um cuidado mais seguro, acessível, eficiente e, sobretudo, mais humano.

CLAUDIO LOTTENBERG é mestre e doutor em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), e presidente institucional do Instituto Coalizão Saúde

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.

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