Colunista. “Hilab: a Theranos que deu certo.” Por Vitoria Saddi
"A inovação brasileira segue um caminho menos espetacular – e possivelmente mais transformador: tirar do laboratório, exame por exame, aquilo que não precisa mais estar lá"
A promessa de fazer exames com poucas gotas de sangue terminou em uma das maiores fraudes do Vale do Silício. Duas décadas depois, uma empresa brasileira mostra que o problema talvez não estivesse na ideia, mas na tentativa de pular a ciência. Elizabeth Holmes tinha uma ótima ideia. Tão boa que chegou a transformar a Theranos em uma empresa avaliada em US$ 9 bilhões. O problema era outro: a tecnologia que deveria sustentar aquela avaliação não funcionava como ela dizia.
A promessa era irresistível. Em vez de retirar tubos de sangue e enviá-los para grandes laboratórios, bastariam algumas gotas retiradas da ponta do dedo. Uma pequena máquina faria dezenas – depois, dizia-se, centenas – de exames rapidamente e a baixo custo. A história terminou em fraude, com a Theranos fechada e Holmes na prisão. Para quem quiser saber mais sobre a história recomendo a excelente série disponível em plataformas de streaming sobre a empresa e sua fundadora.
Mas a pergunta que estava por trás da Theranos continuou sem resposta: por que tantos exames ainda precisam ser realizados em grandes laboratórios centralizados? No Brasil, uma empresa decidiu enfrentar o mesmo problema. Só que pelo caminho inverso. Em vez de começar com uma promessa extraordinária e tentar fazer a ciência alcançá-la, a Hilab passou duas décadas construindo, testando e ampliando gradualmente aquilo que suas máquinas conseguem fazer. O resultado é uma espécie de Theranos que funciona – ressalvada a provocação da comparação. Não existe qualquer relação entre as empresas. A semelhança está no problema que tentaram resolver. A diferença está em como fizeram isso.
O laboratório sai do laboratório. A história da Hilab começa em Curitiba, em 2004, quando Marcus Figueredo e Sérgio Rogal, amigos de faculdade interessados em telemedicina, fundaram a Hi Technologies. O primeiro projeto permitia que médicos acompanhassem pacientes remotamente. Em 2009, desenvolveram o Mili, um oxímetro de pulso que posteriormente passou a ser distribuído pela Medtronic.
A empresa acabaria concentrando seus esforços em um mercado muito maior: diagnóstico. O princípio é conhecido como point-of-care testing, ou PoCT. Em português simples, significa realizar o exame perto do paciente, em vez de necessariamente transportar sua amostra para um laboratório central. Essa mudança aparentemente pequena pode alterar a economia do setor.
Laboratório tradicional exige equipamentos caros, infraestrutura, profissionais especializados, logística para transporte das amostras e escala suficiente para diluir os custos. Isso funciona muito bem nas grandes cidades. Funciona pior em uma clínica pequena, uma farmácia, um pronto atendimento ou em uma cidade distante de grandes centros.
A Hilab tenta colocar parte dessa infraestrutura dentro de aparelhos que cabem sobre uma mesa. Seu Lens, por exemplo, realiza hemograma por meio de microscopia digital. A empresa afirma que o equipamento consegue entregar o resultado em até 25 minutos. Outros aparelhos utilizam imunocromatografia, fluorescência, colorimetria, eletroquímica e diagnóstico molecular.
A plataforma inclui exames de glicemia, hemoglobina glicada, perfil lipídico, função renal, ferritina, marcadores cardíacos, TSH, T4, vitamina D e doenças infecciosas, entre outros. Segundo a empresa, seu portfólio cobre 85% dos testes mais solicitados pelos médicos. Não existe, portanto, uma máquina milagrosa capaz de fazer tudo. E essa é justamente uma das diferenças fundamentais em relação à Theranos.
A ciência antes do marketing. A Theranos tentou convencer investidores, pacientes e parceiros de que uma plataforma proprietária seria capaz de substituir grande parte do laboratório convencional. A Hilab adotou uma arquitetura modular – tecnologias diferentes para exames diferentes. Mais importante: seus resultados podem ser comparados com equipamentos laboratoriais convencionais.
Em 2022, um estudo publicado na Scientific Reports, do grupo Nature, avaliou 450 amostras e comparou o sistema da Hilab com o Sysmex XE-2100, analisador hematológico convencional. Os pesquisadores encontraram forte correlação na maioria dos parâmetros avaliados e concluíram que o equipamento poderia fornecer análises rápidas e robustas para uso clínico.
Um segundo estudo, publicado em 2025 na Communications Medicine, avaliou o Lens em oncologia pediátrica. Foram analisadas centenas de amostras no Hospital Erastinho, em Curitiba, novamente comparando o aparelho com um analisador convencional. Os principais parâmetros hematológicos apresentaram forte concordância. Isso não significa que pequenos equipamentos substituirão laboratórios. Significa algo economicamente mais interessante: talvez muitos exames não precisem passar por toda a estrutura de um laboratório central.
A economia de algumas gotas de sangue. O benefício mais evidente é o tempo. Em um pronto atendimento, esperar horas por um exame pode prolongar a permanência do paciente, ocupar instalações e atrasar decisões médicas. Em regiões remotas, existe ainda o transporte da amostra.
Mas o efeito potencial vai além. Se determinados exames puderem ser realizados com equipamentos pequenos em hospitais, clínicas e farmácias, parte da infraestrutura diagnóstica deixa de depender de grandes investimentos fixos. É uma velha história econômica: a miniaturização reduz a escala mínima necessária para oferecer um serviço. Foi assim com computadores. Foi assim com telecomunicações. Foi assim, em alguma medida, com os serviços bancários. Agora pode estar acontecendo com diagnósticos.
A própria arquitetura da Hilab revela outra transformação. Os aparelhos são conectados à nuvem e a empresa utiliza inteligência artificial no processamento dos dados. Em sua solução hospitalar, por exemplo, a análise automatizada é combinada com confirmação por especialista antes da disponibilização do laudo. Portanto, o produto não é apenas a máquina. É hardware + teste descartável + software + inteligência artificial + conectividade + análise + laudo. Do ponto de vista empresarial, isso também é importante. A venda de um aparelho é uma transação. Uma base instalada que continuamente consome testes e serviços pode gerar receita recorrente.
A Hilab não está sozinha. O mercado brasileiro já tem outro participante importante. A ECO Diagnóstica, fundada em Minas Gerais, também desenvolve soluções point-of-care para farmácias, clínicas, hospitais e laboratórios. Hoje controlada pela sul-coreana SD Biosensor, possui uma fábrica de 18 mil metros quadrados em Corinto, Minas Gerais. Segundo a empresa, a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial a reconheceu como líder brasileira em participação no mercado de point-of-care em 2024.
Isso muda a interpretação da história. Não estamos necessariamente diante de uma curiosidade tecnológica produzida por uma startup de Curitiba. Existe uma disputa por mudança estrutural na maneira como exames são realizados. De um lado estão os enormes laboratórios centralizados, capazes de processar grandes volumes com extraordinária eficiência. De outro, começa a surgir uma rede de equipamentos menores, distribuídos onde os pacientes estão. Os dois modelos provavelmente coexistirão.
Uma ressonância magnética não vai parar na farmácia da esquina. Exames altamente especializados continuarão dependendo de grandes centros. Mesmo na hematologia, equipamentos point-of-care têm limitações e precisam ser avaliados para cada contexto clínico. A transformação provavelmente acontecerá nas margens. Cada exame que puder sair do laboratório central altera um pouco a fronteira econômica entre centralização e descentralização.
O erro de Elizabeth Holmes. Talvez seja esta a ironia final da Theranos. Holmes pode ter identificado corretamente uma enorme ineficiência. Diagnósticos ainda dependem de infraestrutura cara, centralizada e, em algumas situações, lenta. Seu crime não foi imaginar que isso poderia mudar. Foi vender como realidade uma tecnologia que não correspondia às promessas feitas.
A Hilab oferece uma lição menos cinematográfica sobre inovação. Começou em 2004. Desenvolveu telemedicina. Depois um oxímetro. Entrou em diagnóstico. Criou equipamentos diferentes para metodologias diferentes. Publicou validações. Ampliou progressivamente o número de exames. Nada disso produz a mesma narrativa de uma jovem de gola alta prometendo revolucionar a medicina do dia para a noite.
Mas talvez seja justamente esse o ponto. O verdadeiro concorrente do grande laboratório não precisa ser uma caixa capaz de realizar centenas de exames. Pode ser uma rede de milhares de pequenas máquinas, conectadas à nuvem, fazendo perto do paciente apenas aquilo que já não precisa mais ser feito longe dele.
A Theranos tentou colocar o laboratório inteiro dentro de uma caixa. A inovação brasileira está seguindo um caminho menos espetacular – e possivelmente mais transformador: tirar do laboratório, exame por exame, aquilo que não precisa mais estar lá.
VITORIA SADDI trabalhou como economista-chefe no Citibank e no RGE Economics (Londres e Nova York). Foi chefe da mesa de derivativos do JP Morgan (Nova York) e participou da fundação do site Seeking Alpha. Possui mestrado pela FGV-SP e é PhD em economia pela USC. Lecionou em Cal State Long Beach, USC, Stern Business School e Insper. Atualmente é trader e escreve sobre macroeconomia e mercados. Cofundadora do substack do Astra.
