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Artigo. “Linda, do Brasil para o Canadá: quando o país perde a empresa e a tecnologia.” Por Paulo Salerno

"O investimento que poderia ter ajudado a construir uma empresa brasileira está agora financiando o crescimento de uma empresa canadense"

Paulo Salerno/Crédito de Foto: Divulgação
Paulo Salerno/Crédito de Foto: Divulgação Ilustração de Saúde Insider

Há histórias de startups que mudam de país porque encontraram um mercado maior. Há outras que mudam porque encontraram investidores dispostos a assumir mais risco. A história da Linda Lifetech pertence às duas categorias. Mas existe uma terceira razão, talvez mais importante: no Brasil, uma tecnologia criada por brasileiros encontrou dificuldade para transformar conhecimento em negócio.

Fundada por brasileiros em São Paulo, a Linda desenvolveu uma tecnologia voltada à detecção precoce de alterações suspeitas nas mamas. O sistema combina um dispositivo capaz de capturar imagens infravermelhas, produzindo um mapa térmico da região, com inteligência artificial para identificar padrões que possam indicar a necessidade de investigação médica complementar.

Não se trata de substituir a mamografia ou de afirmar que a tecnologia diagnostica sozinha o câncer, mas de criar uma ferramenta de apoio capaz de ampliar o rastreamento e ajudar a identificar sinais que merecem investigação.

A ideia ganha dimensão particularmente importante quando aplicada ao Brasil. Segundo informações da própria empresa, cerca de 80% dos municípios brasileiros não possuem cobertura adequada de mamografia. A Linda afirma atualmente atender aproximadamente 4 milhões de mulheres em cinco estados brasileiros, por meio de clínicas, hospitais, convênios e redes de farmácias. A tecnologia já possui aprovação da Anvisa desde 2020.

É exatamente nesse ponto que a história deixa de ser apenas uma história de inovação em saúde e passa a ser uma história de política industrial.

Uma tecnologia relativamente portátil, baseada em sensores infravermelhos, processamento de imagens e inteligência artificial, pode ter aplicações especialmente interessantes em regiões onde a infraestrutura hospitalar é limitada. Em municípios distantes dos grandes centros, em países emergentes e em mercados onde equipamentos de diagnóstico são caros ou escassos, uma solução complementar e de menor complexidade logística pode ajudar a ampliar o acesso ao rastreamento, desde que integrada a protocolos médicos e acompanhada da confirmação pelos exames indicados.

O paradoxo é que justamente uma tecnologia com características tão adequadas às necessidades brasileiras teve de procurar fora do país o ambiente necessário para crescer. A Linda enfrentou dificuldades para captar recursos no Brasil. Segundo relatos públicos da própria startup, os fundadores chegaram a conversar com mais de 200 fundos brasileiros entre 2020 e 2022, enquanto a empresa avançava em protótipo, produto, certificação e conquista de clientes. O resultado foi uma dependência de recursos próprios, family and friends e rodadas menores.

Em 2023, a companhia transferiu sua matriz para Toronto. A mudança não significou simplesmente trocar São Paulo por uma cidade internacional. Significou mudar o ecossistema ao redor da empresa. No Canadá, a Linda passou a ter acesso a estruturas como o MaRS e o Creative Destruction Lab e aproximou-se de instituições de pesquisa e hospitais canadenses. Em 2024, iniciou estudos clínicos no Canadá em parceria com o Princess Margaret Cancer Centre.

O resultado aparece agora nos números. Em 2026, a Linda captou R$ 10 milhões em sua primeira rodada institucional, liderada pela americana SkyRiver Ventures, alcançando valuation de aproximadamente US$ 5 milhões pós-money. O capital deverá financiar expansão norte-americana, processos regulatórios e estudos clínicos internacionais, incluindo a colaboração com o Princess Margaret Cancer Centre.

E é aqui que está a parte mais importante da história. O investimento que poderia ter ajudado a construir uma empresa brasileira está agora financiando o crescimento de uma empresa canadense. Com a sede no Canadá, é natural que parcela crescente do capital, dos empregos qualificados, das posições de liderança, da pesquisa clínica, do desenvolvimento de inteligência artificial e das futuras estruturas corporativas seja criada naquele ecossistema.

O mesmo vale para a propriedade intelectual. A mudança levou para o Canadá também a patente da tecnologia. Se a Linda se transformar em uma empresa global, a consequência econômica será muito maior do que o faturamento de seus produtos. Haverá software, algoritmos, equipamentos, manufatura, pesquisa, ensaios clínicos, profissionais especializados, contratos internacionais, licenciamento e, potencialmente, royalties. Cada etapa dessa cadeia representa valor econômico.

É possível que parte dessa cadeia continue no Brasil. A empresa mantém no país uma importante operação comercial e o Brasil permanece seu mercado regulado, onde a tecnologia já possui aprovação. Mas existe uma diferença fundamental entre ser o mercado de uma tecnologia e ser o país que controla a tecnologia.

O primeiro compra. O segundo desenvolve, fabrica, licencia, exporta e recebe royalties. Essa talvez seja a maior perda brasileira. O problema não é simplesmente a Linda ter ido para o Canadá. Empresas precisam sobreviver, captar capital e buscar os ambientes capazes de financiar seu crescimento. O problema é o fato de uma empresa criada no Brasil ter precisado mudar de país para encontrar condições mais favoráveis para transformar sua propriedade intelectual em uma companhia global.

Essa é uma discussão que vai muito além da saúde. As próximas décadas serão marcadas por empresas construídas sobre inteligência artificial, biotecnologia, robótica, sensores, semicondutores, novos materiais e tecnologias médicas. São negócios que exigem capital paciente, pesquisa aplicada, propriedade intelectual e capacidade de atravessar anos de desenvolvimento antes de alcançar escala.

Se o Brasil não construir esse ambiente, continuará formando engenheiros, pesquisadores, médicos, programadores e empreendedores para que outros países capturem o valor econômico produzido por eles.

A Linda pode acabar sendo um grande sucesso canadense. E talvez seja justamente esse o problema. Porque, se um dia milhões de mulheres forem beneficiadas por uma tecnologia desenvolvida por brasileiros, o Brasil poderá comemorar a contribuição científica de seus empreendedores. Mas o Canadá poderá comemorar algo ainda mais concreto: os empregos, os investimentos, as fábricas, os centros de pesquisa, a propriedade intelectual e os royalties gerados pela tecnologia brasileira que decidiu crescer em Toronto.

Talvez a pergunta que o caso Linda deixa para o Brasil não seja por que uma empresa brasileira foi para o Canadá. A pergunta mais difícil é outra: quantas Lindas o Brasil ainda está formando, e quantas delas precisarão sair do país para conseguir existir?

PAULO SALERNO fez cinema, foi fotógrafo profissional e é mestre em economia pela EPGE-RJ. Atualmente mora em Coimbra (Portugal) e trabalha com projetos de tokenização de ativos.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.

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