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Colunista. “Como acompanhar a evolução da medicina de alta complexidade?” Por Feres Chaddad

"A atualização contínua é essencial para que profissionais estejam preparados para incorporar novos conhecimentos, técnicas e tecnologias à prática médica"

Feres Chaddad/Crédito de Foto: Divulgação
Feres Chaddad/Crédito de Foto: Divulgação Ilustração de Saúde Insider

Todo avanço da medicina é, antes de tudo, um avanço na formação de quem a pratica. Novos equipamentos, novas técnicas e novos protocolos só se traduzem em melhores resultados para o paciente quando existe, do outro lado, um profissional preparado para aplicá-los com maestria.

No campo das doenças cerebrais complexas, como tumores, aneurismas, malformações arteriovenosas (MAVs) e outras condições, essa equação fica ainda mais exigente. Cada lesão tem localização, tamanho e características únicas, o que significa que uma mesma doença pode exigir abordagens diferentes de acordo com as particularidades de cada paciente.

Por isso, é preciso entender qual o procedimento mais indicado para cada caso e como aplicá-lo da melhor forma. Isso exige atualização constante: desde o estudo contínuo até a participação ativa em cursos, congressos e iniciativas de aperfeiçoamento.

O que a ciência mostra. Essa necessidade de avaliar caso a caso não é uma impressão subjetiva: ela aparece em pesquisas. Em um estudo do qual participei, publicado em 2025 na Neurosurgical Review, revisamos 12 artigos com 1.555 pacientes adultos, comparando diferentes estratégias de tratamento para malformações arteriovenosas intracranianas: cirurgia, radiocirurgia, embolização e tratamento conservador.

Os resultados ajudam a mostrar por que não existe resposta única para todos os pacientes. A cirurgia apresentou a maior taxa de obliteração das malformações, de 97,45%, em comparação com 49,77% para a radiocirurgia e 38,46% para a embolização isolada. Também apresentou menor incidência de hemorragia após o tratamento quando comparada ao conjunto das demais estratégias, mas esteve associada a uma incidência relativamente maior de déficits neurológicos do que a radiocirurgia.

Esses resultados não significam que uma modalidade seja superior às demais em todas as situações. Ao contrário, reforçam que a escolha do tratamento depende das características da malformação, dos riscos envolvidos e dos objetivos terapêuticos de cada paciente. A própria revisão concluiu que nenhuma estratégia pode ser considerada universalmente superior e destacou a necessidade de abordagens individualizadas.

A formação não termina na residência. Durante muito tempo, prevaleceu a ideia de que a especialização médica é um processo com início, meio e fim: graduação, residência, título de especialista e, a partir daí, a prática consolidada. Acontece que, na neurocirurgia de alta complexidade, essa lógica simplesmente não se sustenta. Com o tempo, evidências científicas mudam, as tecnologias de imagem e navegação evoluem, novas estratégias são validadas e outras, antes consideradas padrão-ouro, são revistas.

Isso significa que o neurocirurgião que atua com doenças cerebrovasculares e oncológicas precisa manter uma rotina de estudos e de troca com pares que vai muito além dos anos de formação inicial.

Revisar anatomia, discutir casos difíceis com colegas, acompanhar a literatura científica e testar novas abordagens em ambientes controlados antes de levá-las à sala de cirurgia são hábitos indispensáveis para a carreira.

Ambientes de aprendizado contínuo. A atualização também precisa acontecer na prática. Ao longo de mais de 25 anos de experiência como neurocirurgião e professor percebi que determinados conhecimentos precisam ser revisitados mesmo por profissionais experientes. A anatomia, por exemplo, ganha novas perspectivas à medida que surgem casos mais complexos, técnicas e diferentes possibilidades de abordagem.

Foi a partir dessa necessidade que criei, há dois anos, a Neuro University, um espaço de especialização avançada em neurocirurgia. A proposta parte de uma premissa simples: oferecer ao médico oportunidades para aprofundar conhecimentos, trocar experiências e aperfeiçoar habilidades que fazem parte da alta complexidade.

No Cadaver Lab, por exemplo, médicos já formados podem revisar a anatomia microcirúrgica e, com o Hands-On, transformar esse conhecimento em prática. A discussão de casos entre especialistas também permite comparar diferentes estratégias e ampliar o repertório diante de situações que não necessariamente têm única resposta.

O mesmo princípio vale para técnicas específicas, como a cirurgia com o paciente acordado (Awake Surgery), utilizada em lesões próximas a áreas cerebrais relacionadas a funções como fala e movimento. Esse tipo de procedimento também exige integração entre diferentes profissionais e treinamento para que a equipe esteja preparada para lidar com as particularidades de cada caso.

Manter-se atualizado é parte do cuidado. Acompanhar a evolução da medicina de alta complexidade não significa apenas conhecer o que há de mais novo, mas estar preparado para avaliar o que realmente pode fazer diferença em cada situação. Isso exige estudo, treinamento e disposição para rever conceitos ao longo da carreira.

No fim, a excelência profissional não está apenas no conhecimento acumulado, mas na capacidade de continuar aprendendo e transformar esse aprendizado em decisões mais seguras e adequadas para cada paciente.

FERES CHADDAD é neurocirurgião. Professor associado livre-docente do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Escola Paulista de Medicina-Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), chefe do Setor de Neurocirurgia Vascular do Hospital São Paulo-Unifesp e chefe do Setor de Neurocirurgia da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. É idealizador da NeuroUniversity. Instagram.

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