Colunista. “Ética, uma emancipação necessária.” Por Gabriel Chalita
"Coragem é outra semântica necessária à ética. Ser corajoso não é ser destemido, não é ter, no dizer de Kant, uma liberdade insensata. Coragem é ação"
O conceito de emancipação em Kant é profundamente esclarecedor para a construção de uma sociedade ética. Diz o filósofo “Sapere audi”, frase do poeta Horácio, que significa ouse saber, tenha coragem. Coragem é outra semântica necessária à ética. Ser corajoso não é ser destemido, não é ter, no dizer de Kant, uma liberdade insensata. Coragem é ação. Ação amorosa. “Cor”, vem de coração, a metáfora dos bons sentimentos.
A construção de uma sociedade ética depende dos bons sentimentos. Depende do sair dos egoísmos e do conseguir compreender que o humano é social, que a convivência é a essência da vida. Talvez precisássemos menos de um Estado que legisla em abundância, se a legislação interna funcionasse. Aristóteles dizia, em sua Ética a Nicômaco, “as pessoas cultas e polidas são como uma lei para si mesmas”.
O que é uma pessoa culta? No sentido do pensador grego, uma pessoa que cultiva e que cultua valores. O que é uma pessoa polida? Uma pessoa que tem o hábito de retirar dela mesma o que a separa dos valores.
A legislação interna exige tempo, exige educação. Dizia Kant, “o homem não é nada além do que a educação faz dele”. Educação é mais abrangente e mais profundo do que escolarização. É possível ter um longo percurso em escolas e universidades e não ter o entranhamento dos valores essenciais que nos ajudam a construir a ética. Posso falar de honestidade e não ser honesto. Posso falar de respeito e desrespeitar. Posso dizer versos de amor e não amar.
Kant defende uma ética que faça com que o outro nunca seja um meio, mas sempre um fim. O outro, um ser de direitos, como eu. O outro que quando dói deve doer em mim. Diz ele, “A inumanidade que se causa a um outro destrói a humanidade em mim”.
A ética é uma construção social, porque animais sociais é o que somos. É preciso que, na convivência, consigamos estabelecer caminhos para caminhar com mais previsibilidade. Para sabermos o que nos une, o que nos desune, o que nos eleva e o que nos diminui. Em todas as áreas, a ética. Há uma ética médica, uma ética jurídica, uma ética política, uma ética organizacional. São códigos, são protocolos que nos orientam no bem agir. E há uma coerência entre a legislação interna de cada um para a escrituração das legislações externas. Essa legislação interna pode ser chamada de moral.
Moral vem de morada, do que mora em mim. O que mora em mim depende dos sentimentos e dos ensinamentos dos que convivem comigo. Se sou um ser da convivência, a convivência vai me construindo. Se o que observo no mundo, desde os meus inícios, é violência, desrespeito, mentira, como vou construir a verdade dentro de mim? A língua que falo vem da língua que aprendi desde cedo. Se aprendi mais de uma, falo mais de uma. Os valores que carrego também vêm do que, desde cedo, vivi.
Kant valoriza essa legislação interna, fruto de uma educação correta. Diz ele: “Duas coisas enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e
frequentemente o pensamento delas se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim”.
É a lei moral que me ajuda na emancipação, na passagem da menoridade para a maioridade, na autonomia. Nas escolhas baseadas no pensar. Escolas e empresas, poderes públicos e privados precisam se lembrar desse educar o tempo todo. Educar para o correto. Educar para o respeitar o outro, se é o outro o caminhante comigo nesse mundo grande. Emancipar para jamais esquecer que a felicidade depende dessa harmonia dentro e fora de mim, que posso chamar de moral e de ética. Sou dos que creem que, mesmo quando se vê campos devastados pela insensatez humana, é possível prosseguir acreditando. As sementes nunca deixaram de existir.
GABRIEL CHALITA, filósofo, professor, jurista e escritor. Integrante do Conselho Estratégico do Saúde Insider.
