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Coluna. “Olhar amplo e multidisciplinar sobre o cérebro”. Por Feres Chaddad

Da investigação de alterações neurológicas à cirurgia e à reabilitação, o cuidado com o cérebro exige integração entre especialidades, tecnologia, formação contínua e decisões individualizadas.

Feres Chaddad/Crédito de Foto: Divulgação
Feres Chaddad/Crédito de Foto: Divulgação Ilustração de Saúde Insider

Cuidar da saúde cerebral envolve mais do que investigar uma doença quando surgem sintomas. Significa compreender os fatores que contribuem para a preservação das funções cerebrais, estar atento a possíveis alterações e, quando necessário, investigar de forma criteriosa suas características, causas e repercussões.

Como neurocirurgião, muitas vezes recebo pacientes após a identificação de alguma alteração no cérebro ou em seus vasos sanguíneos. Pode ser um aneurisma, um tumor, uma malformação arteriovenosa cerebral (MAV) ou outra condição que necessite de avaliação especializada. Algumas dessas alterações são descobertas incidentalmente, durante exames realizados por outros motivos; outras são identificadas após o aparecimento de sintomas que levam o paciente a procurar atendimento.

Do achado ao diagnóstico

Uma alteração identificada em um exame de imagem, isoladamente, não conta toda a história. Para compreender seu significado, é necessário relacioná-la aos sintomas, ao histórico clínico e, quando necessário, a outros exames. É nesse contexto que a avaliação multidisciplinar se torna especialmente importante. O neurologista contribui com a avaliação clínica e neurológica; o neurorradiologista, com a análise detalhada dos exames de imagem; e o neurocirurgião, com a compreensão das relações anatômicas, dos riscos envolvidos e das diferentes possibilidades de tratamento. A integração dessas perspectivas permite uma avaliação mais completa e uma tomada de decisão mais adequada às características de cada paciente.

Da avaliação ao tratamento

A partir dessa avaliação integrada, são discutidas as diferentes possibilidades de tratamento. A conduta depende das características da doença, de sua evolução, dos sintomas, dos riscos envolvidos e das condições de cada paciente. Em alguns casos o acompanhamento periódico pode ser a opção mais adequada; em outros, podem ser indicados tratamento clínico, radiocirurgia, radioterapia, quimioterapia, procedimentos endovasculares, cirurgia ou a combinação de diferentes estratégias.

Quando uma intervenção é necessária, o planejamento deve ser individualizado. Em uma cirurgia cerebral de alta complexidade, por exemplo, não basta considerar apenas a presença de uma lesão. Sua localização, a relação com áreas responsáveis por funções neurológicas importantes, a anatomia vascular, as características clínicas do paciente e os riscos associados a cada abordagem precisam ser cuidadosamente analisados antes da definição da estratégia terapêutica.

Esse cuidado se estende a todas as etapas do tratamento. Procedimentos de alta complexidade exigem uma equipe multiprofissional preparada para diferentes situações, envolvendo, conforme as necessidades de cada caso, profissionais da anestesiologia, neurofisiologia, enfermagem, terapia intensiva e outras áreas. Mais do que a atuação isolada de uma especialidade, o tratamento resulta da integração entre diferentes conhecimentos e profissionais em torno das necessidades de cada paciente.

Depois da cirurgia

O cuidado com o paciente não termina quando o procedimento é concluído. O resultado do tratamento também está relacionado ao acompanhamento após a intervenção e, em determinados casos, a um processo de reabilitação planejado de acordo com as funções afetadas e as necessidades individuais.

Nesse período, diferentes profissionais podem participar do cuidado. Fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e acompanhamento psicológico, entre outras áreas, podem contribuir para a recuperação de funções comprometidas e para a adaptação a eventuais limitações. O objetivo é favorecer a retomada das atividades cotidianas, preservar a qualidade de vida e proporcionar aos pacientes o maior grau de independência e autonomia possível. 

O conhecimento precisa acompanhar essa complexidade

Oferecer um cuidado de alta complexidade também exige formação contínua. Na medicina, e especialmente em áreas como a neurocirurgia, o aprendizado não se encerra com a graduação ou a residência. A experiência prática, a atualização científica e a troca de conhecimento entre especialistas fazem parte de um processo permanente de aperfeiçoamento.

A discussão de casos, a observação de procedimentos, a mentoria, os programas de fellowship e o intercâmbio com centros nacionais e internacionais permitem ampliar repertórios, compartilhar experiências e conhecer diferentes estratégias para situações clínicas e cirúrgicas complexas.

Nesse processo, atividades de treinamento prático também desempenham um papel importante. O chamado cadaver lab, por exemplo, permite aprofundar o conhecimento da anatomia e treinar abordagens e técnicas cirúrgicas em ambiente controlado. Da mesma forma, a participação e a observação de procedimentos especializados, como a cirurgia com o paciente acordado (awake surgery), possibilitam compreender estratégias utilizadas para monitorar e preservar funções neurológicas importantes durante determinadas intervenções.

Essas experiências não substituem a formação médica tradicional, mas a complementam. Ao integrar conhecimento científico, treinamento técnico, experiência clínica e troca entre especialistas, contribuem para preparar o profissional para situações que exigem precisão, planejamento e tomada de decisão cuidadosa.

Um olhar mais amplo.

Falar sobre saúde cerebral é compreender uma trajetória que envolve diferentes etapas: reconhecer uma alteração, investigar seu significado, definir a melhor estratégia de cuidado, acompanhar a recuperação e investir continuamente na formação dos profissionais envolvidos nesse processo.

A complexidade do cérebro exige conhecimento especializado, mas também integração. Nenhuma imagem, procedimento ou especialidade, isoladamente, é capaz de responder a todas as questões  que podem surgir ao longo do cuidado. Quanto mais complexo o caso, mais importante se torna reunir diferentes conhecimentos e perspectivas para construir uma conduta individualizada, baseada nas características da doença e, sobretudo, nas necessidades de cada paciente.

Cuidar do cérebro, portanto, é também saber integrar conhecimento, experiência, tecnologia e diferentes áreas da medicina em torno do mesmo objetivo: oferecer a cada paciente o cuidado mais adequado à sua realidade

FERES CHADDAD é neurocirurgião. Professor associado livre-docente do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Escola Paulista de Medicina-Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), chefe do Setor de Neurocirurgia Vascular do Hospital São Paulo-Unifesp e chefe do Setor de Neurocirurgia da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. É idealizador da NeuroUniversity.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.

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