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Opinião

Artigo. “A ciência por trás do diagnóstico mental.” Por André Martin Marquez Ventura

"Ao fornecer parâmetros claros e baseados em evidências científicas, a psicologia de precisão reduz o tempo de sofrimento e encurta a jornada de incertezas"

André Martin Marquez Ventura/Crédito de Foto: Divulgação
André Martin Marquez Ventura/Crédito de Foto: Divulgação Ilustração de Saúde Insider

Na prática clínica contemporânea, a tomada de decisão médica diante de transtornos mentais e neuropsiquiátricos enfrenta desafios de alta complexidade. Quadros com forte sobreposição sintomática frequentemente impõem dilemas que ultrapassam os limites da anamnese convencional. Como discernir com segurança, no curto espaço de uma consulta, entre o declínio cognitivo associado a uma depressão grave e as fases iniciais de uma síndrome demencial? Ou separar os sintomas de desatenção do TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) adulto daqueles provocados por transtornos de ansiedade ou pelo esgotamento ocupacional?

Para responder a essas perguntas sem recorrer a tentativas terapêuticas empíricas, a medicina e a psicologia clínica brasileira começam a consolidar uma aliança interdisciplinar baseada em evidências. Estudos de fôlego internacional e nacional apoiam essa abordagem. Pesquisas robustas demonstram que a inclusão de avaliações psicológicas personalizadas com feedbacks estruturados gera efeitos altamente positivos, fortalecendo a aliança terapêutica e aumentando expressivamente a adesão do paciente ao tratamento médico. 

No cenário nacional, pesquisadores também já apontavam a importância da aplicação de instrumentos de avaliação psicológica em ambientes de saúde complexos para qualificar a assistência integral. Longe de ser um processo meramente acadêmico, essa testagem é ferramenta de precisão prática. 

Ao contrário do mito de que a aplicação de testes psicométricos formaliza friamente o atendimento, a evidência revela que a objetividade dos dados é o pilar que sustenta um cuidado verdadeiramente personalizado e humanizado. Quando a equipe médica compreende com exatidão os déficits e os traços do paciente, as estratégias terapêuticas tornam-se sob medida.

Na rotina clínica, a indicação para esse tipo de exame complementar surge em momentos muito bem definidos, sobretudo quando o médico se depara com a atipicidade ou refratariedade farmacológica, caracterizada por respostas nulas ou paradoxais aos tratamentos. Um exemplo prático ilustra essa necessidade: um paciente de 48 anos foi encaminhado com suspeita de TDAH devido a queixas de perda de produtividade. 

A aplicação de uma bateria neuropsicológica padronizada para atenção e funções executivas revelou que sua atenção primária estava preservada. O que parecia TDAH era, na verdade, lentificação executiva secundária a um quadro depressivo subclínico associado a estresse ocupacional. Essa diferenciação baseada em dados evitou o uso desnecessário de estimulantes e permitiu reorientar o plano terapêutico para intervenções focadas em suporte farmacológico adequado e psicoterapia.

Portanto, a avaliação psicológica modular e reavaliações periódicas deixam de ser uma fotografia estática para se tornar um verdadeiro “mapa de navegação” para médicos e psicólogos. Ela permite quantificar o progresso de ganhos cognitivos pós-reabilitação ou mensurar com precisão milimétrica o impacto de ajustes na medicação sobre a velocidade de processamento do cérebro e a regulação de humor. 

Em última análise, essa integração harmoniosa entre o rigor métrico dos dados quantitativos e a sensibilidade da escuta clínica representa um divisor de águas e uma engrenagem de segurança do paciente. Ao fornecer parâmetros claros e baseados em evidências científicas, a psicologia de precisão reduz o tempo de sofrimento e encurta a jornada de incertezas, devolvendo ao indivíduo a dignidade, a eficácia e a recuperação íntegra.

ANDRÉ MARTIN MARQUEZ VENTURA é psicólogo, logoterapeuta, mestre em Psicologia Clínica e da Saúde e consultor acadêmico na Vetor Editora, empresa do grupo Giunti Psychometrics.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.

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