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Opinião

Artigo. “Saúde corporativa não é custo de RH. É previsibilidade financeira.” Por Eduardo Gonçales

"O plano de saúde já representa o segundo maior custo das organizações com seus colaboradores, atrás apenas da folha de pagamento"

Eduardo Gonçales/Crédito de Foto: Divulgação
Eduardo Gonçales/Crédito de Foto: Divulgação Ilustração de Saúde Insider

Durante muito tempo, a discussão sobre saúde corporativa se resumiu ao reajuste do plano de saúde. Hoje, essa abordagem já não basta. Com projeções de reajustes entre 9% e 10% para os contratos empresariais em 2026 – praticamente o dobro da inflação estimada de 4,8% –, as empresas brasileiras enfrentam um desequilíbrio financeiro iminente. O plano de saúde já representa o segundo maior custo das organizações com seus colaboradores, atrás apenas da folha de pagamento, exigindo que as lideranças parem de apenas pagar a conta e passem a liderar a organização desse cuidado.

O grande desafio dessa transição de postura, no entanto, é que as companhias estão presas em um impasse complexo: por um lado, o plano de saúde é o benefício mais valorizado pelos profissionais e indispensável para reter talentos. Por outro, o modelo tradicional do setor estimula a utilização desordenada e ineficiente da rede credenciada, empurrando as contas para patamares insustentáveis.

Esse ciclo vicioso já provoca impactos severos: a pesquisa Cenário do RH no Brasil 2025, da ABRH, revela um recuo histórico no número de empresas que conseguem oferecer o benefício. Trata-se de um sinal claro de que o mercado atingiu o limite financeiro, tornando urgente a transição para soluções que controlem custos sem desamparar as pessoas.

É nesse ambiente que a atenção primária ganha espaço definitivo. Quando o colaborador é acompanhado ao longo do tempo pela mesma equipe de saúde, diminuem drasticamente as internações evitáveis, as idas desnecessárias aos prontos-socorros e a realização de exames redundantes. Estudo da Johns Hopkins com clínicas instaladas no ambiente corporativo comprovou retorno de até US$ 3,61 para cada dólar investido, impulsionado justamente por essa racionalização de procedimentos. O grande mérito desse modelo não está em acumular mais exames ou consultas, mas em acompanhar a jornada de saúde do colaborador de forma contínua, usando dados e tecnologia para mapear fatores de risco antes que eles evoluam para quadros graves.

Minha trajetória de mais de duas décadas no Hospital das Clínicas da Unicamp vi inúmeros pacientes darem entrada com quadros graves que poderiam ter sido facilmente prevenidos ou manejados meses antes em consultas de atenção básica. Hipertensão descontrolada, diabetes ainda não diagnosticada e sinais iniciais de sofrimento emocional ilustram bem essa dinâmica. Se detectados cedo, exigem intervenções muito mais simples, entregam desfechos clínicos infinitamente melhores e evitam custos catastróficos. Quando transpomos esse aprendizado do hospital público para as corporações, percebemos que o gargalo financeiro das empresas é, na verdade, a falta de uma coordenação preventiva no cuidado de seus profissionais.

Vale ressaltar que o problema não reside no plano de saúde, ele continua sendo um benefício essencial. O desafio real é operacionalizar e gerir essa saúde de forma integrada. Para que um programa de Atenção Primária à Saúde entregue impacto real, é indispensável garantir qualidade assistencial, adesão ativa dos colaboradores, integração estreita com a rede credenciada e um acompanhamento rigoroso de indicadores de desempenho. Sem esses pilares bem estruturados, dificilmente haverá redução de sinistros ou melhoria clínica real.

Para que essa mudança de rota ocorra de fato, a saúde corporativa precisa deixar de ser encarada apenas como encargo operacional do RH. Ela afeta diretamente a saúde financeira, a produtividade interna e a sustentabilidade de longo prazo do negócio. Por essa razão, esse debate deve migrar definitivamente para a mesa do C-level, integrando diretores financeiros e a alta liderança executiva na tomada de decisões estratégicas de saúde.

Empresas que estruturam uma atenção primária consistente passam a negociar reajustes com maior previsibilidade porque conseguem acompanhar com precisão a saúde de sua população. O segredo do modelo não está em onde a clínica se localiza, seja física ou por telessaúde, mas na continuidade do cuidado. O médico de família que conhece o histórico de vida de cada paciente toma decisões muito mais assertivas, direciona os casos com clareza e evita que queixas simples se transformem em eventos de alto custo para a corporação. Cuidar preventivamente é a única saída sustentável para equilibrar as contas corporativas e garantir o bem-estar de quem faz o negócio acontecer.

EDUARDO GONÇALES é diretor médico da HealthBit, presidente da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar da Fundação Centro Médico de Campinas (SP) e médico assistente da Faculdade de Medicina da Unicamp.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.

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