Artigo. “Até quando as operadoras vão insistir em processos manuais?” Por Anderson Farias
"Quando os processos são estruturados e automatizados, o gestor deixa de descobrir o problema somente depois que ele aparecer no resultado"
Quantas horas de trabalho de uma operadora de saúde são consumidas todos os dias com conferências, preenchimentos, cruzamentos de informações e acompanhamento de processos que poderiam ocorrer de forma automática? A pergunta ajuda a revelar um dos desafios mais silenciosos da saúde suplementar, que é a quantidade significativa de atividades operacionais que dependem da intervenção humana para tarefas repetitivas.
Autorizações, faturamento, reembolso, elegibilidade e análise de sinistros envolvem regras, dados e prazos que precisam ser tratados com precisão. Quando parte desse fluxo depende de planilhas, controles paralelos e consultas manuais a diferentes sistemas, o problema não é apenas ganhar ou perder alguns minutos. O retrabalho se acumula, os erros aumentam e a operação perde capacidade de responder rapidamente às demandas de beneficiários, prestadores e gestores.
Segundo a McKinsey, até 50% do trabalho administrativo em saúde pode ser automatizado. O dado mostra que existe espaço relevante para reduzir atividades repetitivas, mas também traz uma provocação importante: não adianta simplesmente colocar tecnologia sobre processos mal estruturados. É preciso rever o fluxo, eliminar etapas desnecessárias e, então, automatizar o que faz sentido.
Para as operadoras, essa discussão aparece inclusive no ambiente regulatório. A Resolução Normativa nº 630/2025 da ANS, que atualizou o Programa de Acreditação de Operadoras, incorporou a avaliação de sistemas automatizados e orientou que sejam definidos os principais processos passíveis de automação, considerando critérios como estratégia de negócio e riscos envolvidos. Entre os exemplos citados pela agência estão autorização de eventos assistenciais, atendimento ao beneficiário, registro do faturamento, recebimento e pagamento de guias, reembolso e verificação de elegibilidade.
Isso é relevante porque mostra que a automação deixou de ser uma discussão restrita à área de tecnologia para fazer parte da forma como se pensa a gestão e a eficiência operacional das empresas do setor.
Na prática, automatizar significa tirar profissionais de tarefas que exigem repetição, mas pouco julgamento. Uma informação pode ser validada automaticamente antes de avançar para a próxima etapa. Regras contratuais podem ser aplicadas de maneira padronizada. Dados de diferentes fontes podem ser cruzados sem que alguém precise transferi-los manualmente de uma tela para outra.
O impacto aparece diretamente na operação. Quanto menos etapas dependem de digitação e conferência manual, menor a exposição a inconsistências que podem gerar glosas, atrasos ou retrabalho. No reembolso, por exemplo, o cruzamento automático de informações pode acelerar a análise e direcionar para avaliação humana apenas os casos que realmente exigem uma decisão. Na autorização, a aplicação automática de regras permite respostas mais rápidas e consistentes.
Existe ainda um ganho que muitas vezes fica em segundo plano, que é a capacidade de enxergar o próprio processo. Em uma operação baseada em planilhas e controles descentralizados, é difícil responder com precisão onde está um gargalo, quanto tempo uma etapa consome ou quantas solicitações estão paradas. Quando os processos são estruturados e automatizados, essas informações passam a ser registradas e podem alimentar indicadores, alertas e dashboards. O gestor deixa de descobrir o problema somente depois que ele aparecer no resultado.
Isso muda o trabalho das equipes. Em vez de conferir centenas de informações semelhantes, o profissional pode se concentrar nas exceções, nos casos complexos e nos pontos em que sua atuação agrega valor.
Para o beneficiário, esse movimento pode parecer invisível, mas seus efeitos são concretos. O mesmo vale para a relação com prestadores e para a gestão financeira. Processos mais padronizados ajudam a reduzir inconsistências no faturamento, dão maior previsibilidade aos fluxos e facilitam a identificação de desvios. Considerando que se trata de um setor pressionado por custos, regulação e necessidade de eficiência, desperdiçar horas de trabalho em tarefas que podem ser executadas por sistemas deixa de ser apenas ineficiência operacional. Torna-se escolha de gestão.
A inteligência artificial amplia esse potencial, mas não substitui a necessidade de organizar a base. A questão, portanto, não é automatizar tudo. É identificar o que não precisa ser feito manualmente. Em uma operação de saúde, cada hora poupada em uma tarefa repetitiva pode ser convertida em mais capacidade de análise, mais agilidade e menos espaço para erros.
Automatizar processos não é retirar pessoas da operação. É parar de ocupar pessoas com aquilo que uma máquina pode fazer melhor, mais rápido e de forma rastreável. E vale lembrar que se trata de um setor no qual eficiência também significa melhorar a experiência de quem está do outro lado. Por isso, essa talvez seja uma das decisões mais importantes que uma operadora pode tomar.
ANDERSON FARIAS é CEO da TopSaúde HUB.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.
