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Opinião

Artigo. “Sangue: uma infraestrutura crítica para o próximo governo.” Por Rafael Calil Luzzi

O sangue deve ocupar no planejamento da saúde o mesmo lugar que ocupa na assistência: o de um recurso essencial para salvar vidas

Rafael Calil Luzzi, da ABBS/Ilustração de Saúde Insider
Rafael Calil Luzzi, da ABBS/Ilustração de Saúde Insider Crédito de Foto: Divulgação

Garantir sangue seguro, no lugar certo e no momento necessário, deve ser um compromisso do governo que assume em 2027. Cirurgias de alta complexidade, leitos de terapia intensiva, transplantes, tratamentos oncológicos e atendimento a traumas dependem desse recurso. O planejamento da saúde precisa considerar a cadeia do sangue como infraestrutura crítica, com financiamento, coordenação e capacidade de resposta compatíveis com essa responsabilidade.

A segurança do paciente depende de etapas que precisam funcionar em conjunto: triagem qualificada, coleta segura, testagem laboratorial, armazenamento, transporte e manejo clínico hospitalar. Uma falha nesse percurso pode comprometer o atendimento, mesmo quando há profissionais, equipamentos e leitos disponíveis. A política de sangue deve, portanto, estar integrada ao planejamento da assistência, tanto na atenção especializada quanto nas situações de emergência.

Para a ABBS (Associação Brasileira de Bancos de Sangue), o próximo mandato precisa avançar em cinco prioridades: financiamento contínuo, regularidade das doações, modernização tecnológica e integração logística, segurança transfusional e uso adequado do sangue nos hospitais. Transformar essas frentes em uma agenda concreta, com responsabilidades, metas e acompanhamento público, é fundamental para garantir continuidade e qualidade aos serviços.

O ponto de partida é sustentar a capacidade de operação da hemorrede. Equipamentos exigem manutenção, insumos precisam estar disponíveis e equipes especializadas precisam de formação contínua. Investimentos em novas estruturas devem vir acompanhados de recursos para mantê-las funcionando. O governo deve assegurar a execução e a continuidade das medidas de qualificação dos serviços e avaliar seus resultados.

Esse financiamento precisa considerar as diferenças regionais. As exigências sanitárias são nacionais, mas os serviços operam em condições distintas de infraestrutura, distância e disponibilidade de profissionais. Direcionar recursos conforme essas necessidades é essencial para que o local de residência do paciente não determine sua possibilidade de acesso a sangue seguro.

Outra frente essencial é tornar a doação mais regular. Os componentes sanguíneos têm prazos de validade diferentes, enquanto a demanda hospitalar é contínua. A mobilização emergencial precisa ser acompanhada de uma política permanente de fidelização de doadores, com orientação, agendamento acessível e convocação conforme as necessidades dos estoques. Preservar a doação voluntária, facilitar o retorno de quem já doa e assegurar uma gestão eficiente dos estoques são medidas fundamentais para fortalecer o compromisso com os doadores e garantir a continuidade do atendimento. 

A essa agenda se soma a necessidade de modernizar a infraestrutura tecnológica da hemorrede, integrando informações sobre estoques, capacidade de coleta, demanda hospitalar e programação de cirurgias. Sistemas interoperáveis, com compartilhamento seguro de dados e informações atualizadas em tempo real, permitem antecipar necessidades, otimizar a distribuição de hemocomponentes e ampliar a segurança e o controle em toda a cadeia. Essa integração deve estar associada a uma logística eficiente, com transporte adequado, controle de temperatura e protocolos de resposta a emergências e interrupções operacionais. 

Igualmente importante é fortalecer a segurança em toda a cadeia transfusional. Triagem, testagem, identificação das bolsas e dos pacientes, rastreabilidade e acompanhamento de eventos adversos devem receber atenção contínua. A modernização precisa ser acompanhada de capacitação e avaliação de resultados. Novas tecnologias devem ser consideradas com base em evidências, custo-efetividade e capacidade de implementação, para que os investimentos produzam benefícios sustentáveis.

Por fim, é preciso incorporar o uso adequado do sangue à rotina hospitalar. Diagnosticar e tratar a anemia, reduzir perdas sanguíneas e adotar critérios clínicos para a indicação de transfusões são medidas que devem integrar protocolos e programas de capacitação. A gestão do sangue do paciente precisa fazer parte da política de qualidade assistencial, preservando a disponibilidade para quem necessita de transfusão.

Cabe ao Ministério da Saúde coordenar essa agenda com estados, municípios, hospitais e serviços públicos e privados de hemoterapia. O próximo governo deve definir como financiar e executar essas prioridades, investir na integração dos sistemas de informação e assegurar o acompanhamento de indicadores de disponibilidade, perdas, qualidade e acesso. A avaliação contínua desses dados deve permitir identificar dificuldades, antecipar riscos e corrigir a operação ao longo do mandato. 

O sangue deve ocupar no planejamento da saúde o mesmo lugar que ocupa na assistência: o de um recurso essencial para salvar vidas. A partir de 2027, esse reconhecimento precisa se traduzir em orçamento, gestão e serviços preparados para atender cada paciente com segurança.

RAFAEL CALIL LUZZI é presidente da Associação Brasileira de Bancos de Sangue (ABBS)

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.

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